segunda-feira, 14 de junho de 2010

ADORMEÇA SOB A FIGUEIRA ÉDI (Conto de Édi Miller)

Assim eram todas as tardes, enquanto na cozinha, a mesa farta de pães e doces, e massas regadas a vinho, eles elaboravam as suas histórias, os seus golpes, e crimes.

Aldo não queria que eu participasse dos negócios da família. Não fica bem pra você – ele dizia – Não deve sujar-se tão cedo.

Ele não queria que eu perdesse a ingenuidade da infância. Não se lembrava talvez que isso não faria diferença com o tempo.

Você ainda não tem pelos no rosto, Édi – ele me dizia. – Portanto, não deve borrar as mãos com o vermelho do sangue imundo, muito menos atormentar o espírito com o aroma fedorento que traz um pedaço de papel cobiçado por todos desde sempre.

Todos naquele bairro diziam que Aldo era bom sujeito. Ele vestia-se bem. Com ternos impecáveis, sapatos brilhantes e gravatas das mais caras. Tinha o cabelo sempre bem cortado, embora para a frustração do seu prestimoso barbeiro, o bom e velho Tom, Édi preferia manter o penteado escondido por modesto chapéu panamá, que destoava e muito da sua esmerada aparência.

Ele sempre me dava roupas, porque dizia que um homem bem vestido é mais respeitado que seu próprio caráter e conhecimento. As pessoas julgam pela aparência, Édi – ele me dizia – E é assim desde que o mundo é mundo, e Deus cometeu o desatino de colocar o ser humano sobre esse chão abençoado.

Aldo amava a natureza. Em tempo: Preferia os animais aos seres humanos. Uma árvore era capaz de comovê-lo com seu tronco forte e sua copa glamourosa, muito mais que o choro de uma criança, o olhar de uma mulher desesperada e sedenta por um instante de atenção.

Eu me questionava se sempre fora assim. Sempre que passava minhas tardes sob a figueira, eu me questionava sobre estas e muitas outras coisas a respeito do padrinho.

Era ao menos trinta anos mais velho que eu. Mas não sei por que quando olhava para Aldo, eu me sentia como se olhasse para o meu irmão. Irmão de sangue – devo explicar – para que não paire dúvidas a respeito.
Lembro-me daquela manhã em que os rapazes chegaram ao amanhecer. Havia grande agitação. Eles discutiam entre si. E, ao invés da cozinha, ocupavam a sala, onde geralmente se reuniam para dividir os lucros e festejar com as garotas o êxito de mais um trabalho. Mas naquela manhã não havia garotas e nem sussurros. Nem copos caindo no chão, nem garrafas estourando contra a parede. Porém, havia muita discussão. Ofensas e alguns disparos de armas de fogo em intervalos de tempo mais ou menos iguais. O primeiro deles contra o lustre que se espatifou espalhando sujeira por toda sala inclusive sobre o sofá. Porque foi o cenário que encontrei, quando finalmente tive coragem de sair do quarto para ver o que estava acontecendo.

Mas antes, enregelei-me todo, quando um dos rapazes disse lá da sala: “E o garoto? Que vamos fazer com ele?”.

Pensei esconder-me no guarda-roupa, debaixo da cama, ou pular a janela. Foi o que pensei. Até me lembrar do que Aldo sempre me dizia: Quando você crescer, e enfrentar uma situação difícil, não pense o que Deus faria em seu lugar. Pense o que eu faria.

Foi por isso que deixei o quarto, naquela manhã, e caminhei até a sala, de encontro ao meu destino.

Alguns rapazes estavam caídos no chão, outros sobre o sofá e as poltronas. Alguns já entregues ao silêncio da morte, outros gemendo. E pela primeira vez na minha vida eu seria incapaz de dizer o nome de cada um deles. Não porque não lembrasse.

Sangue havia por toda a parte. Sangue e destruição. Medo e morte. E estas  coisas adquirem outra dimensão, assustadora e por demais insuportável quando se têm apenas 11 anos.

Ocorreu-me falar com o padre Albino. Mas a linha do telefone estava cortada, e eu realmente não tinha nenhuma certeza de que conseguiria deixar aquela casa. Olhei pelo grande janelão da sala, e percebi alguma movimentação no jardim. Era o silêncio envolvendo aos poucos todo aquele ambiente. Os cachorros não responderam ao meu assovio. Os criados não transitavam pelo gramado, não conversavam entre si porque lá não estavam para reclamar das atitudes de Aldo e sua falta de generosidade.

Pela primeira vez desde que Aldo me arrancara dos braços do meu pai e me levara consigo, naquela noite, tão dominada pelo cheiro de pólvora quanto aquela manhã, eu me vi só. Completamente só. E sem destino.

Faz hoje10 anos que a cada 17 de julho eu visito esse túmulo de mármore carrara onde não há nenhuma foto. Apenas um chapéu panamá e um charuto, ambos de bronze, no lugar do que seria uma inscrição.

Pensei que passado tanto tempo eu me lembraria de Aldo, seu olhar e seu sorriso, seu cumprimento forte e a força descomunal do seu braço direito que lhe permitia me levantar pela bunda com a palma da mão. Nem o seu olhar, nem o seu sorriso, nem a sua força e a sua generosidade, sua sinceridade, às vezes mal compreendida e jamais aceita. Mas o seu silêncio, a escuridão que tomou conta de si e de tudo à sua volta, no instante em que fui o último a dirigir-lhe um adeus, momentos antes do agente funerário fechar o caixão. Hoje, sua poltrona me pertence. E sua caixa de charutos, guardo na mesma gaveta, fechada a chave, como ele fazia.



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