quarta-feira, 9 de junho de 2010

ANTES QUE A BOLA ROLE

Essa é do Édi Miller

Tenho doze minutos para entregar esse texto ao editor quando toca o maldito. Demora um pouco até que eu me convença a atendê-lo. Notícia de morte? Provavelmente, não. Você acaba de ser pai? Menos ainda. Já sei, ganhou na loteria! Xiii, piorou! Pronto. Não levo mesmo jeito pra bidu. Era minha filha perguntando se comprei a calça que ela me pediu. Que calça!

Não houve cientista, profeta ou iluminado até o momento que conseguisse responder: diminuiu o tempo ou nós é que temos coisas demais a fazer? E destas, quantas realmente tem importância?

Quando digo que sou escritor já me torno mira de um olhar desconfiado de como quem diz: esse não faz nada na vida. Ledo engano. Se eu fosse seguir as orientações do professor Raymundo Carneiro e sua impraticável oficina literária certamente eu criaria um acervo, um museu da palavra, enfim, um arquivo com milhares de pastas com anotações, fotos, recortes de jornais e revistas sobre diversos assuntos e atravessaria minha nefanda existência e não escreveria absolutamente nada. E quando digo nada estou dizendo: romance, novela, conto, peça, roteiro, artigo, crônica, poema, poesia – não necessariamente pela ordem.

Mas sou um autor intuitivo tipo senta e escreve. Giro a antena no alto da cabeça mais conhecida entre os indianos e esotéricos como chacra coronário e sintonizo com alguma aspiração do campo metafísico que pretende se transformar em palavras, o que acabo fazendo, às vezes contra a minha vontade, através da glândula pineal, que um dia a medicina pensara que estava relacionada apenas à sexualidade. Sei não. Ainda me descubro intermediário entre dois mundos ou coisa que o valha.

A coisa funciona melhor pela manhã, quando tudo é esperança e os neurônios estão descansados. Escrever à noite, nem pensar. Tanta coisa melhor pra se fazer à noite aos 20 anos, como sexo e beber ou vice-versa. Aos 40, descobri dia desses, ler e dormir. E às vezes, ouvir música. Que preste, é claro.

Comecei a cuidar de plantas, a me interessar por elas. Mau sinal. Entretanto, me fazem esquecer que há telefone no mundo. Oh, maldito!

Meu amigo Moita disse que Thomas Edison, Graham Bell e outro sujeitinho do qual não me lembro o nome, acham-se nesse momento, em algum canto do mundo metafísico desenvolvendo um aparelho que viabilizará de vez por todas a chamada TCI – Transcomunicação Instrumental, técnica que permite contatar através de sinais de rádio ou tevê os tido como mortos. Já pensou? Você liga a tevê de madrugada e dá de cara com a sogra.

Estou realmente quase convencido a cometer suicídio e ir antes do tempo determinado para o mundo metafísico e impedir que Edison e Bell levem a cabo o desatino.

Quem é que vai ter sossego na vida se isso acontece? Ninguém mais poderá fugir do credor, da sogra como já disse, e da ex-mulher, do filho mala que sempre pede dinheiro na frente dos outros quando você não tem um puto no bolso. Enfim, Deus me livre! O mundo vai ficar mais sem graça do que já está.

Pior de tudo, é que o Lula sai ao final do ano. E quem nos fará rir a partir de então? O Dunga? Não, até lá já teremos rido muito com ele. Ou da nossa alegria. Ou da nossa desgraça. Façam suas apostas.

Por isso é que abandonei os clássicos. Agora só leio gibi. E, vez em quando, a Mad.

Pra quem ganha o que eu ganho, acho que escrevi demais por hoje. Bye.

* Texto publicado no Jornal Cidade Livre. Acesse: http://www.redecidadelivre.com/jornal/

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