sábado, 12 de junho de 2010

INSTANTÂNEOS DA VIDA

Ele ficou olhando o retrato pintado na parede de sua casa. Era seu pai, cuja imagem ali ficaria eternizada.

Saiu para fora e olhou para o céu. E assim ficou por um bom tempo até que o sol vencesse as nuvens e ofuscasse o brilho dos seus olhos.

Não sabia precisar que tempo era aquele, que lugar era aquele. Não sabia quanto tempo ainda iria viver. Porque agora estava só e tudo seria mais difícil.

Não tinha sequer a desconfiança que um dia, no futuro alguém pudesse imaginar a sua estória, enquanto feito ele, olhasse para a parede de sua casa, na verdade, para os olhos do futuro que ele desconhecia, nada mais que uma caverna.

O fato remete a outro. Uma criança afasta-se de seus familiares durante uma festa, tranca-se no quarto, porque finalmente encontra a oportunidade de realizar algo desejado há muito tempo. Abrir a caixa de camisa e conhecer as fotografias que lá sabia estar. Logo encontrou a de sua mãe, quando pequena, no colo dos pais dela, dos seus avós. A mãe sorria, a foto era colorida, e conservada e boa. Sim, era mesmo parecida com a sua mãe como todos diziam. Quase não havia diferença entre ambas senão as dezenas de anos que as separavam.

O velho fotógrafo fechou a porta do seu estabelecimento deixou na sala escura do seu ambiente de trabalho a última foto revelada, ainda secando, pendurada no varal. Não voltaria na manhã seguinte como fizera durante mais de 40 anos. Não havia motivo para tanto. Talvez fosse pescar com os amigos. Talvez ficasse sentado na cadeira de vime, onde passaria as suas tardes, olhando o movimento da rua, da varanda de sua casa.

O homem das cavernas, a menina e o velho, eles tiveram uma vida, um passado do qual se lembrar. Um passado em preto e branco, um passado feito de imagens coloridas, um passado virtual, intocável, impenetrável.

Todos eles passaram pelo mundo sem conhecer o mundo onde tudo é rápido e repetitivo. Onde todas as formas são possíveis e nenhuma se fixa a ponto de ser compreendida e admirada. Onde toda verdade se torna mentira em fração de segundo. Onde as caras e as cores são iguais, os modelos gigantescos, os objetivos imensuráveis. Onde a natureza, sufocada pela cobiça humana clama em silêncio por espaço e direito à vida.

Quem me sopra agora essas linhas já passou por aqui e amou esse mundo. E dizia entre outras coisas: Se a natureza é tão bela, porque encerra tanto sofrimento? Dizia que o homem pode ser destruído, mas não vencido. E talvez por isso agora retorna pra continuar fazendo das palavras um sopro de esperança no coração de cada ser humano.

Bem-Vindo ao Clube, escritor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário