sexta-feira, 4 de junho de 2010

QUE PAÍS É ESSE?

A educação pública, diz respeito a todos nós. Porque as deformidades e equívocos que ela apresenta são portas que se abrem para a violência, os vícios de toda sorte que, de alguma forma, nos atinge a todos. Quando nós cidadãos, por absoluta falta de capacidade e desinteresse de exercermos a cidadania nos omitimos em reivindicar o que é de direito nosso como uma educação pública de qualidade exemplar, em todos os níveis, nos tornamos cúmplices dessa aberração. Incapazes, porque não nos instruímos, pouco lemos e esse pouco geralmente é frivolidade. Desinteressados porque tudo nós esperamos de governos e do Sujeito Lá em Cima. Não fossem os imigrantes (italianos, alemães, suíços, principalmente) talvez fôssemos hoje quando muito um daqueles povos miseráveis e sofridos da África.

Mas temos quem resolva tudo por nós. Gostamos de acreditar nisso. Eles também muito apreciam que nós acreditemos nisso. Que dependemos da bondade deles, e não do nosso esforço para modificarmos essa deprimente situação.

O que se imagina, o que se aspira é uma nova sociedade, feita de pessoas de pensamentos livre, moralmente aperfeiçoadas a tal ponto de saber e exercer que o direito de cada um termina onde começa o do outro.

Mas isso é utopia, já dizia Raul, que também sonhou com outra sociedade, bem diferente desta.

Enquanto houver os baba-ovos, feito certos indivíduos, que feitos chacais na escuridão ficam a espreitar e patrulhar as ações e iniciativas de pessoas corajosas, dispostas a dar a cara a bater e comprometidas apenas com a verdade e que não devem favores porque não tem rabo preso com ninguém, haverá pedras no caminho, mas nada que a natureza e a força do progresso inerente à vontade humana não vençam.

É verdade que desde 1982, a educação pública no estado de São Paulo está nas mãos de PMDB e PSDB (as duas faces do mesmo monstro) e sofre um processo de destruição desestimulando e descrendo alunos e professores. Porque imagine se o povo paulista realmente fosse preparado para pensar e agir de modo a transformar a sociedade brasileira não restaria pedra sobre pedra desse sistema arcaico que prima pelo assistencialismo, paternalismo, pelo voto de cabresto, instigado pelo medo de não haver outra alternativa, outro caminho, porque talvez não saibam ou não compreenderam ainda que o mundo é redondo. Mas lá se vão quase trinta anos, meu caro, e eles ganharam uma eleição estadual atrás da outra. E porque ganharam? Porque nosso desinteresse e omissão os elegeram.

O mesmo triste e deprimente cenário se dá com relação à segurança pública.

O que em nosso entendimento já passou das medidas é o fato de todos, do lado de cá ou do lado de lá do muro do Poder sustentarem, uníssonos, as mesmas mentiras de sempre.

Sou apolítico. Não visto camisa de siglas nem de homens. Sou cidadão de pensamento livre.

Gostaria que nas eleições próximas ninguém votasse. Todos nos sentássemos nas ruas, nas calçadas, braços cruzados e olhos vendados em forma de protesto. Pra dizer a classe política que não concordamos com essa situação. Que o jogo já não entusiasma e o drama em cartaz já não comove. Que eles mudem ou mudaremos nós. Mas para isso, antes seria preciso que todos nós fossemos cidadãos razoavelmente cultos. E necessariamente educados. E como podemos ser tais coisas se ainda sequer somos uma nação, se caminhamos feito manada sem saber pra onde, enquanto nos empanturramos de churrasco e cerveja aos finais de semana. Que alegria! O Brasil é o melhor país do mundo pra se viver.

Alguém deve estar pensando. Esse cara ficou doido. Abrir mão do voto? Simplesmente? Sim. Porque o voto não é o único instrumento democrático de os insatisfeitos expressarem os seus sentimentos e os seus anseios. A atitude cívica de protesto também é uma possibilidade.

Impossível, porém, em um país, onde se acredita que um bando de cara-pintadas tirou Collor do Poder. O que o tirou do poder foi sua arrogância em não querer abrir os cofres feito certo presidente, em cujo governo aconteceram coisas infinitamente piores e mais indecentes. E, também, a ingenuidade de acreditar que vox populi vox dei. Em se tratando de Brasil? Tiradentes, Olga Benário que o digam.

Recuso-me a aceitar que homens como Rui Barbosa, Tancredo Neves, Miguel Arraes, pra citar alguns corroborariam essa política de proporcionar pão e circo ao povo sob o pretexto de poder dizer que tudo vai às mil maravilhas, quando não vai não senhor.

Dá tristeza pensar que a política (com o perdão da palavra) brasileira nivelou-se rés do chão, onde roto fala do rasgado, onde todos são pedras e vidraças ao mesmo tempo, porque o último bastião da moralidade política deste país chamado PT revelou-se em 08 anos de governo federal tão ruim ou pior do que todos os demais nesse quesito.

Triste é ver Cristovam Buarque e Pedro Simon, no Senado Federal pregando no deserto. Triste é ver a senadora e ambientalista Marina Silva ser tragada pelas feras do poder econômico, posta de lado pela imprensa comprometida apenas com seus próprios interesses e os interesses de seus patrocinadores.

Não se constrói uma nação com cartões de crédito, automóveis, motocicletas e celulares. Mas com educação e saúde pública que justifiquem os trilhões de reais de impostos que pagamos aos municípios, estados e União todos os anos. Pergunta: Onde está esse dinheiro? Nas mãos de quem? Nas nossas não estão.

Certamente derrotaremos os coreanos na Copa do Mundo, apesar do Dunga, e nos acreditaremos melhores do que eles. Afinal, gostamos de fantasia.

Rio Claro, minha cidade, só é um retrato mal acabado e em tamanho reduzido do que acontece neste país. Infelizmente.

Publicado no Jornal Diário do Rio Claro em 20/06/2010 (Domingo).

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Seg, 21 de Junho de 2010
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