sábado, 3 de julho de 2010

AINDA O MUSEU

Um grupo de intelectuais de Rio Claro que prefere não se identificar faz circular pela Internet um abaixo-assinado em que se pretende cobrar das autoridades locais agilidade e empenho nas investigações e nas providências a serem tomadas a fim de elucidar o sinistro e preservar o que restou do prédio centenário onde funcionava o Museu Histórico e Pedagógico Amador Bueno da Veiga destruído no último dia 21, por um incêndio que, suspeita-se, criminoso.
A iniciativa merece elogios e a participação de todos. Porque o triste destino do Museu nos remete àquela passagem do ente, do amigo querido do qual nos esquecemos sempre e o colocamos em segundo plano, deixando para depois a carta, o e-mail, o telefonema, com os quais poderíamos manter contato com ele. Afinal, sabe-se que ele existe, onde está, mas de tão perto, tão íntimo que se parece acaba por nós esquecido. Sempre.
Reconstruir? Não se reconstrói a História. Quando muito se a encena ou se a retrata.
Preservar? O quê? O quê preservar? Paredes? Fachadas? Nem a estas demos a devida importância. Quanto menos o que havia no seu interior. As construções que contavam a história de Rio Claro, a mal contada história de Rio Claro, a evitada por razões obscuras, mas compreensíveis embora não aceitáveis, jamais aceitáveis, história de Rio Claro, caíram por terra, uma a uma, ao longo dos anos e sob a omissão dos governos e o desinteresse da sociedade.
Alguém, em algum momento, de alguma maneira, irá se beneficiar do infortúnio do Museu que também é nosso. Não tenham dúvidas. Esse assunto, ao contrário do que muitos querem crer, tem tudo para daqui algum tempo cair no esquecimento. Como tantos outros tão ou mais importantes.
É louvável a iniciativa dessas pessoas em mobilizar a sociedade ao elaborar um abaixo-assinado com tal objetivo. É admirável a discrição que procuram manter para que o assunto não perca o foco. Mas a realidade é que a reivindicação será muito bem recebida, como sempre, pelas autoridades, que, no momento oportuno, e em doses homeopáticas tratará de convencer os requerentes que o esforço e a boa intenção não valem a pena.
A verdade nua, crua e dolorida para aqueles que sabem mensurar o valor social, cultural e histórico dessa perda é que: O Museu está morto. Enterremo-lo. E olhemos adiante. E cuidemos. Para que a história não se repita. Perante nossas consciências somos culpados. Eis o veredicto.
Obriga-me a razão pela qual me pauto a afirmar que não duvido um milímetro que Paulo Rodrigues, se pudesse, derramaria uma chuva de lágrimas do céu para evitar que o incêndio destruísse o Museu. Ninguém na história de Rio Claro, até onde se sabe, defendeu tanto o patrimônio histórico da cidade como o pesquisador que nos deixou há quase dois anos. Seu importante legado, que vai muito além de um ipê amarelo plantado próximo ao marco zero da cidade na Praça da Liberdade, e uma entrevista memorável ao mensário O Beta, pouco antes de sua morte, e os vídeos produzidos por ele disponíveis no Youtube no “perfil” Grupo Banzo é algo que nossa geração, mais preocupada em conquistar e consumir, foi até o momento incapaz de compreender. Tomara seja reconhecido e valorizado devidamente pelas gerações futuras. Um legado em que se revela a incômoda verdade, através da qual se compreende facilmente que, para que alguns pudessem hoje posar de vitoriosos, todos nós, cidadãos comuns de Rio Claro, que passamos ao largo da História (a verdadeira) tivemos que perder. Mas se o infortúnio é a certidão de nascimento do êxito – já dizia o poeta – então jamais devemos perder a esperança. Jamais. Jamais outro incêndio.

Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 04/07/2010 (Domingo). E no Jornal Cidade Livre Edição 037 de 06/07/2010: http://www2.redecidadelivre.com:8888/net/jornal.html

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