terça-feira, 20 de julho de 2010

AQUELE ABRAÇO!

É o tipo da ofensa à nossa inteligência que a gente consegue perdoar, em face, digamos, à boa intenção da causa. Todo esse pomposo parágrafo inicial para tratar sobre a data que hoje, terça-feira, 20 de julho de 2010 do ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo – como diria o notário do cartório por volta de um mil oitocentos e bolinhas – se comemora.

Não quero importunar a vossa paciência estimado leitor e trato de ir direto aos fatos: A data que hoje se comemora no mundo todo é a da Amizade. Portanto, receba meu abraço.
Deve ter sido mais uma daquelas invencionices saídas da esperteza inigualável dos homens de negócios para atender aos seus interesses. Não sei. Também não irei tirar a bunda da cadeira pra consultar algum almanaque. O que também não recomendo a você leitor. Faz o seguinte: Leia toda a edição de hoje do jornal Cidade Livre, que você, logo mais, estará recebendo na comodidade do seu lar, do seu trabalho, enfim, sem tirar a bunda da cadeira e que, por sinal, está muito boa.
Mas eu ia falando de amizade. Não me lembro do meu primeiro amigo. Acho que foi o Pato Donald. Mas tenho dúvidas. Pode ter sido o Recruta Zero ou, até mesmo, o tio Patinhas. A Margarida, eu garanto, não foi. É que naquele tempo de garoto indolente e recluso, eu não saía às ruas para brincar, então, o barato era contentar-me com os gibis e a Sessão da Tarde. Desenhos animados eram um ou outro. Eu nunca fui amigo, por exemplo, do Fred Flintstone. Embora tivesse alguma simpatia pelo George, o Rei da Selva. Os livros? Ah, eu os odiava, embora Nick Adams permanecesse ao alcance de minhas mãos, mais exatamente, na escrivaninha que ficava no meu quarto. Tinha ouvido falar também num tal de Huckleberry Finn e, depois, em outro sujeitinho tão atrevido quanto e que atendia pelo nome de Tom Sawyer. Por falar nisso o pai desses pirralhos, um sujeito grisalho e bigodudo, segundo soube, chamado Mark Twain comemora este ano cem anos de morte.
No cinema o par de abóboras, digo, amigos, que mais me chamou atenção foi o protagonizado por Dustin Hoffman e John Voight, no filme de 1969, do diretor John Schlesinger, cujo título Midnight Cowboy, foi traduzido no Brasil por algum infeliz, que a mãe o tenha em bom lugar, como Perdidos na Noite. Conta a história de dois perdidões, um garoto de programas (Voight) e seu amigo doente (Hoffman) perambulando pelas noites de Nova York, em busca de algo que os faça suportar a vida porque esperança já não encontram mesmo.
Na Literatura, temos a sólida amizade entre Paul Verlaine e Artur Rimbaud. O mestre e o menino prodigioso, vivendo uma relação para além de afetuosa que quase termina de maneira trágica.
Passeando pelo mundo das artes, vamos encontrar na música uma relação de amizade muito próxima a nós, digo, à minha geração, aquela que foi sem nunca ter sido, a geração mais perdida do século XX, porque viveu o apogeu de sua adolescência e juventude em um país falido, desacreditado, incapaz de lhes oferecer sequer esperança. Talvez exatamente por isso sobrasse inspiração para Renato Russo e seus amigos, Dado e Marcelo. Mas a coisa ia mais além do que uma Legião Urbana passava por uma Plebe Rude, um Capital Inicial e garanto ao leitor que ele saberá muito mais sobre o assunto se ler o ótimo “O Diário da Turma 1976-1986 – A História do Rock de Brasília – do jornalista e escritor Paulo Marchetti.
Enfim, pra não ser tão chinfrim, lembremos oh diletos amigos leitores algum fato relevante envolvendo a amizade de que trata a História. Agora, assim, no ato, sem tirar os dedos do teclado, lembro-me de dois: O primeiro, oh Brutus, até tu? – como diria Julius Cesar Romanus. O segundo, o que relata o beijo mais famoso e repugnante da humanidade, dado por um ambicioso político travestido de discípulo religioso do Messias. Judas foi perdoado pelo próprio Jesus. Afinal, amigos de verdade perdoam porque sabem compreender as fraquezas e os limites do outro.
Aos meus amigos, de ontem, de hoje e de sempre – não são muitos – eu dedico esta crônica. Recebam o meu abraço. Beijinho não.

Fotos ilustrativas:
1) Web
2) Cena do filme "Midnight Cowboy" citado no artigo.
3) Favari Filho, editor do Jornal Cidade Livre; Lourenço Favari, jornalista do Jornal Regional; Jaime Leitão,  poeta, colunista do Jornal Cidade; este escritor, em seu momento repórter, e o professor e escritor Ricardo Leão, autor de Os Dentes Alvos de Radamés, Simetria do Parto e Primeira Lição de Física, em entrevista concedida por J. Leitão, em sua residência, para o mensário O Beta, em 2008.
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AQUELE ABRAÇO
Qui, 22 de Julho de 2010
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