quinta-feira, 15 de julho de 2010

DROGA NÃO É POESIA

No último dia 26, foi comemorado o Dia Internacional Contra o Abuso e o Tráfico de Drogas Ilícitas, data instituída pela ONU para alertar sobre os riscos do consumo dessas substâncias. Há livros bastante interessantes que trazem luz para o entendimento da questão ao analisar suas causas conhecidas e efeitos devastadores.

Um deles é o clássico “Eu, Christiane F., 13 anos, drogada e prostituída” que foi adaptado para o cinema em meados dos 1980. Conta a história real de Christiane Vera Felscherinow, uma jovem alemã viciada em heroína e seu envolvimento no submundo das drogas. Aos 12 anos de idade, Christiane começou a fumar cannabis e consumir medicamentos normalmente ministrados para insônia e depressão como Valium e Mandrix, além do ácido lisérgico (LSD). Em 2005, em uma entrevista para o semanário holandês De Limburger, admitiu que chegou a um estado que alguns médicos consideravam irreversível. Ela então sofria de hepatite C e de graves problemas circulatórios. Passara, sem sucesso, por inúmeros tratamentos de desintoxicação às custas do serviço de saúde pública alemão, porque não conseguia ter emprego fixo para poder sustentar-se. Chegou a cursar contabilidade, e até arrumou emprego, mas acabou presa por posse de droga, em 1983. A derrocada moral e humana de Christiane começou quando seus pais se separaram, quando ela tinha 13 anos. Chris conheceu um sujeitinho na discoteca que ambos frequentavam e foi ele o responsável por apresentá-la ao deprimente mundo das drogas. Foram os jornalistas alemães Kai Herman e Horst Rieck, da revista Stern quem a descobriram durante uma série de reportagens que elaboravam sobre o assunto. Detlef, o namorado de Chris, vivia em 2005 com a mulher e filhos e afirmava-se livre das drogas. Christiane, apesar da fama e do dinheiro ganho com o livro e o filme, não.
Mas no cinema, talvez a melhor contribuição para a exposição dessa triste realidade, que exige atuação decisiva em várias frentes por parte dos governos e da sociedade, é “Trainspotting” (1996) de Danny Boyle, baseado na obra literária homônima de Irvine Welsh, que narra à vida de um grupo de jovens escoceses, moradores do subúrbio de Edimburgo, que, sem nenhuma perspectiva de vida encontram na heroína um caminho para a autodestruição. Trainspoting foi acusado por autoridades britânicas de fazer apologia às drogas, mas na verdade, é um retrato bastante realista dos acontecimentos. O filme concorreu ao Oscar em 1997 na categoria de melhor roteiro adaptado. E deixa uma porta aberta à esperança, no personagem Renton vivido por Ewan McGregor.
Entretanto, como tratar desse assunto e deixar a música de lado, não é mesmo? Missão para Sid Vicious. O membro mais talentoso e mais louco da banda mais chapada da história do rock, que atendia pelo nome de Sex Pistols. Para alguns, Sid teria “descansado” por conta e risco de sua própria mãe, também viciada, mas que já não aguentava mais ver o filho andar todos os dias de braços dados com a morte. Embora a versão que prevaleça até hoje é a do suicídio. Ao menos é o que sugere o filme Sid and Nancy (1986) de Alex Cox com Gary Oldman no papel principal, que conta o envolvimento do baixista, ícone da cena punk com a chapadona Nancy Spungen que além de tirar a virgindade de Sid lhe revelou o mentiroso e destruidor prazer das drogas. Ele foi obrigado a deixar a banda, e tentou se recuperar. Mas em vão. Morreu aos 21 anos, e teve suas cinzas espalhadas sobre o túmulo de Nancy, seu grande amor. Prova incontestáel de que droga não é poesia.
Espera. Tá faltando alguma coisa? Como? Um escritor tratar do assunto e não falar de seus pares ilustres? Vá bene, como diria Pirandello. Então vamos lá leitor e responda a questão: Jack Kerouac teria escrito “On the Road” em menos de três semanas, não fosse, conforme a lenda, assíduo usuário de anfetaminas?
Nada como um bom cafézinho. Balzác que o diga. Porque segundo consta, ele teria consumido mais de 50 mil xícaras ao longo dos seus 51 anos.
FINISH MIND. E até semana que vêm. Se tiver café na redação. Bem entendido.

Fotos ilustrativas: Eu, Christiane F. (Cartaz do filme); Trainspotting (cena do filme); Sid e Nancy (web).

Este artigo foi publicado no Jornal Cidade Livre, edição 35; Jornal Aquarius, edição 82, de julho/2010; Jornal Diário do Rio Claro, edição de 14/07/2010, e no site: http://www.autores.com.br/2010071237587/Cronicas/Cronicas/droga-nao-e-poesia.html
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DROGA NÃO É POESIA
Seg, 12 de Julho de 2010
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