quarta-feira, 28 de julho de 2010

EU MORO COM MEUS PAIS

“Vossos filhos não são vossos filhos, mas os filhos da ânsia da vida por si mesmo”. Está escrito no livro “O Profeta” do escritor e pintor libanês Kalil Gibran, tradução de Mansur Chalita.
Pois bem. A bola da vez, que tem levado educadores, escritores, filósofos e religiosos à frente do computador para dar o seu pitaco nesse tão polêmico tema é o projeto de lei do presidente Lula que proíbe castigos físicos em crianças. Não é, portanto, simplesmente, a palmada como querem crer e interpretar os apressados de mente preguiçosa.
Por falar em mente preguiçosa, ela seria a meu ver uma das razões para que pais recorram a esse expediente nada educativo por sinal que são as palmadas. Mas um irmão da preguiça que se chama cansaço, poderia ser também um motivo para os papais preferirem a imposição violenta das mãos que o diálogo. É preciso que os pais se lembrem que uma criança não é um indivíduo formado, mas em formação, que, receptivo tende a assimilar todas as informações e impressões que lhe são passadas e que terão importância no desenvolvimento de seu caráter. Se assimilar que violência é solução, é a melhor alternativa para se obter o que se queira certamente, no futuro, poderá esta criança causar a si e aos outros problemas de toda sorte.
Em hipótese alguma a violência se justifica. E uma palmada, duas ou três são um ato de violência e jamais será uma medida educativa. Pode ser isto sim a certidão de nascimento de um hábito pernicioso que, com o passar do tempo pode se tornar mais corriqueiro e mais intenso.
Esse método de persuasão e convencimento teve ênfase na Idade Média, onde sob pena de tortura arrancavam-se confissões, impunha-se o medo. Porque se vivia tanto quanto hoje a época do medo, mas em outras circunstâncias que aqui não cabe relatar.
O Iluminismo separou a razão da fé. O Direito introduziu o rigor da lei no sentido de punir educando. Ao menos deveria ser assim. E punir deveria ser tão somente excluir o indivíduo do convívio social privando-o de liberdade. Ao menos deveria ser assim em países civilizados ou que se pretendam como tais.
Há pais que consideram que punir os filhos é privá-los por tempo determinado de seus gostos e hábitos. Menos mal que uma palmada. Mas também não é o ideal. Embora possa ser o que mais se aproxime disto.
Então o que é o ideal? Ora, é a capacidade que os pais deveriam ter em mostrar ao filho o erro, convencê-lo do erro e indicar o certo e convencê-lo que o certo é possível e é a melhor escolha.
Mas aí os pais precisariam voltar ao banco da escola. Quê escola? Eis a pergunta. Porque se a família não forma o indivíduo a escola menos ainda forma o cidadão.
Como ser pai e mãe com este perfil em um mundo onde se tem cada vez mais tempo de menos. Este cenário de alienação transforma os filhos nas maiores vítimas em um primeiro momento e os pais a seu turno porque são eles que sofrem as conseqüências nefastas que destroem lares e famílias e concorrem para o aumento da violência na sociedade.
Inútil também é exigir a perfeição no convívio social, neste caso específico, familiar, entre pais e filhos. Ambos são aprendizes da vida. Ambos têm sua própria personalidade, suas preferências, seu caminho a seguir, seu livre arbítrio. Portanto, filhos não são propriedade e pais não são proprietários. O que se discute não é relação de posse, mas convivência humana. Mas, para tanto é necessário que ambos, pais e filhos, tenham uma virtude fundamental que é a tolerância porque só ela traz o respeito e a compreensão. Tolerância, respeito e compreensão abrem portas para a vontade de se ajudarem a si mesmos. Pais e filhos, filhos e pais devem ser, portanto, parceiros e amigos, mais que tudo.
Palmada não educa. Diálogo sim. O problema é que nem todos aceitam e nem todos estão preparados para o diálogo. E essa se constitui uma das maiores deficiências da sociedade humana.

Ilustração: web

2 comentários:

  1. OI Primo,
    A anos atrás eu vi uma reportagem com uma certa atriz, que dizia ter sido sempre amiga do filho,nunca havia batido e não aplicava muito castigo, alguma coisa assim.
    NO entanto na data daquela entrevista, estava arrependida porque o filho estava muito rebelde e envolvido com drogas e que deveria ter sido mãe e não amiga.
    Isso entrou na minha cabeça como regra de vida. Eu não bato nunca, pois tento ter inteligencia emocional suficiente para convencer os baixinhos do que é certo ou errado. Bom pelo menos eu tento, não subestimo a inteligencia deles de jeito nenhum e eles sabem disso. Só que as vezes tenho que priva-los do videogame em tempos de tarefas e provas. Só não castigo tirando o esporte, pois acho fundamental. Achei brilhante o que vc diz que cada um é um individuo com personalidade própria, é isso aí a gente aprende a educar com os filhos mesmos, infelizmente eles não vem com manual de instrução.
    Bjus

    ResponderExcluir
  2. É tb o que acredito, amigo, e tenho agido dessa forma, assim como oriento aos pais dos meus alunos, entretanto falta estrutura interna, auto conhecimento, disposição de quem educa, pois só quem se educa tem condições de educar, se assim não for as técnicas equivocadas e invasivas vão prevalecer, dando continuidade a uma 'formação' onde o medo é que disfarça a "educação" que se pensa ter conseguido.Pessoas medrosas tornam-se depois pouco ou nada criativas e violentas, mesmo que de forma pouco ostensiva.

    ResponderExcluir