segunda-feira, 5 de julho de 2010

EU, TU, ELES, E MAIS ALGUÉM...

Dunga teria se tornando técnico da seleção porque vivia pendurado em Ricardo Teixeira. Mais exatamente naquela região delicada e sensível do homem que as mulheres poderosas costumam tornar fatal quando insatisfeitas. O discurso fisiológico inicial se deve para rememorar que nem sempre a meritocracia, na verdade quase nunca, foi o caminho natural percorrido pelas pessoas que se destacam em suas áreas de atuação profissional, principalmente, na política, nos esportes e nas artes. Conta-se que a sisuda Hanna Arendt, o lambusento Polock foram, a seu tempo, apadrinhados por seleto grupo de espertos que determinam o que será lido, visto e ouvido pelas pessoas, feito você e eu que investimos alguns trocadinhos todos os meses para comprar livros, CDs e irmos ao cinema, imaginando que ao fazermos isso estamos adquirindo cultura, conhecimento e preciosas informações artísticas e culturais para serem expostas geralmente naquelas reuniõezinhas de lançamentos de livros do amigo da vizinha que num universo hostil imaginam alcançar espaço na mídia pelo fato, também, da publicação de uma materiazinha com foto aos finais de semana por jornais igualmente inhos que ninguém lê porque são feitos para ver haja vista a infinidade de cadernos recheados de cultura inútil e fotos.
Depois desta meia dúzia de linhas iniciais o leitor, atento que é já deve estar se perguntando quando é que este cronista deixará as minúcias de lado para tratar do que interessa.
E o que interessa é a Meritocracia. Nome e definição tão utópica, opulenta e difícil de ser digerida como a Democracia.
A Meritocracia, tão rejeitada e esquecida é a causa natural do sucesso das pessoas. Ao menos deveria.
Não se iluda leitor, porque se você está lendo esta crônica não é pelo fato deste cronista ter olhos azuis e geralmente acertar nas concordâncias verbais e nominais. É porque para publicar o texto, alguém, geralmente chamado de editor para uns e diretor de redação para outros, consultou a sua vasta lista das coisas que convém e não convém cujos subtítulos são pela ordem: pode e não pode, deve e não deve ser publicado. Tudo certo, tudo ajustado, devidamente correto, não vai incomodar a ninguém, e se vai, acredito seja o caso, a mira está correta e o alvo definido, e vamos à La prensa.
Ninguém que entenda um mínimo de Literatura – estou dizendo Literatura – o que em nada se assemelha a essa coisa que eu e outros tantos aspirantes imaginam fazer, contesta, ainda mais agora depois que o gajo és muerto, que Saramago merecesse o Nobel. Mas, por alguma razão, editores, livreiros, intelectuais a serviço da democracia, dos governos e coisa e tal, profissionais da mídia impressa, decidiram nas últimas décadas que o Zé Saramago e não o Philip Roth, por exemplo, merecesse um Nobel. Nem direi Jorge Amado, porque aí seria apedrejado pelos entendidos de Literatura deste país.
Em Rio Claro, conheci um caso do gênero, guardadas as devidas proporções. Era 1989 e recém concluído o serviço militar, certa vez, encontrei um anúncio no jornal que assim dizia: Procuram-se pessoas para trabalhar em redação de jornal. Achei estranho. Entretanto, lá fui. E acabei muito bem recebido por um sujeito baixinho, de óculos feitos Woody Allen, que atendia pela alcunha de CZ que, viria eu, a saber, depois, significava Claudio Zerbo. Conversamos e na manhã seguinte, lá estava este cronista, então apenas um foca aprendiz marretando a velha Olivetti 98, das quais, contavam-se duas ou três na redação. A lauda – chamava-se lauda, sabe leitor, aquele papel onde na era primitiva do jornalismo se escrevia – geralmente acabava rasgada ao meio, uma parte em minha mão, porque na tentativa de tirá-la do carro da máquina, a minha  falta de delicadeza causava essa insonsa situação da qual os colegas de trabalho: Alba Soares, Ivan Lopes, João Pimentel, Elaine Knothe e Mara Jodate – morriam de rir. E dentre tais colegas havia um chamado Maurício Beraldo, que um dia heroicamente impediu que o título de uma matéria minha iniciasse com caixa baixa, pelo simples fato do rapaz do past up ter fugido da escola em algum momento de sua vida.
E é sobre o Beraldo que pretendo dedicar esse parágrafo. Os leitores da cidade que procuram educar sua inteligência ao menos uma vez por mês com boa leitura sabem do que estou falando. Ele é produtor, editor, relações públicas, vendedor de anúncios, um dos redatores, geralmente fotógrafo, ombudsman nas horas vagas do mensário Aquarius; sua criação e propriedade. Atenção, espertinhos. A coisa tem dono! O que pouca gente sabe, além de mim, que desfruto da sua amizade é que Beraldo desde criança demonstrou dom para a Literatura, ganhando concurso do gênero, que assim como tantos outros, o permitiram durante muito tempo acreditar que poderia, ainda que nascido e vivendo num país chamado Brasil, se tornar um escritor e viver disso. Mas Beraldo não era oriundo de família de posses, influente na cidade, o pai não era bode, a mãe era dona de casa, enfim, ele não pertencia à elite, e vivia em Rio Claro. Meu Deus! Que pecado teria ele cometido em outra existência?
Beraldo viveu. E sobreviveu. Mas não de Literatura. Embora tivesse todos os méritos para fazê-lo. Outros menos talentosos assinam colunas em jornais, posam de jornalistas, comem sardinha e arrotam caviar todos os dias. Ficam à espreita, até que aconteça alguma desgraça, algum fato relevante na cidade, para que, em nome da causa, possam expressar e divulgar sua arte. Oportunistas.
Enfim, aos talentosos que por falta de iniciativa ou de oportunidade, feito eu e umas dez torcidas do Curíntia, ou àqueles que por falta de capacidade mesmo para praticar o enunciado no primeiro parágrafo deste texto, jamais tiveram seu valor reconhecido além da mamãe (o papai geralmente não), da namorada, e da professorinha da classe, é que neste momento solene declino respeitosamente os meus pêsames. E aviso: O velório é logo ali, na esquina, e geralmente atende pelo nome de balcão do bar. Se for o do Bolinha, já vou avisando, a mesa de canto com vista para a Avenida 8 é minha.

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