quarta-feira, 21 de julho de 2010

NIETZSCHE EM QUADRINHOS

Tire o bigode de Nietzsche, e o que sobra?

Para o filósofo Michael Onfray, Nietzsche foi o primeiro a propor um pensamento vivo e concreto para viver e agir em um mundo sem Deus.
Onfray adora uma polêmica. Ele já arrumou uma das bem grandes com a historiadora Elizabeth Roudinesco ao tecer duras críticas à psicanálise por ela praticada. Antes, em 2002, bateu de frente com a elite acadêmica da França ao criar a Universidade Popular de Caën, com aulas grátis e abertas ao público sem distinção. Pouco? Com a obra “Contra-História da Filosofia”, Onfray resgatou nada menos que Epícuro, filósofo grego do período helenista que, entre outras preciosidades disse: “O desejo é a causa de todos os males”. Por essa ousadia, Onfray comprou briga também com o pensamento ocidental dominante. Doido esse sujeito.
A nova empreitada do Dr. Onfray, agora também cartunista é popularizar a filosofia através dos quadrinhos. Para isso fez parceria com Maximiliam Le Roy (http://maxleroy.blogspot.com/)  e o resultado foi o HQ “Nietzsche”, biografia do filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche, autor de, entre outros, Ecce Homo, Além do Bem e do Mal e O Anti-Cristo.
Para Onfray, Nietzsche foi o inventor do pós-cristianismo. Se chegou a tanto, é preciso ler ao menos “Assim Falava Zaratustra”, obra repleta de aforismos, onde fica explícita a teoria nietzschiana do “super-homem” a qual sugere que o bom uso de suas próprias forças torna o ser humano um ser superior.
Talvez por isso que as ideias de Nietzsche, principalmente a da “vontade de poder” conseguiram tanta penetração nos leitores do seu tempo, principalmente no período que antecede a Primeira Guerra Mundial.
Morto em 1900, Nietzsche teve suas ideias, dentre elas, a eliminação de formas de vidas inferiores, assimiladas pelo nazismo por obra e graça de sua irmã, Elizabeth, que teria empregado todos os esforços nesse sentido, conforme relata o Rüdiger Safranski, autor de uma biografia sobre o filósofo alemão.
Nietzsche não fazia concessões, daí talvez, ter optado pela solidão. Em “Assim Falava Zaratustra”, capítulo 5, ele escreve: “Não sou a boca que convém a esses ouvidos”. E, mais adiante: “Há uma coisa de que se sentem orgulhosos. Como a chamam? Chamam-na de cultura. É o que os distingue dos pastores de cabras”. Não para por aí: “Aproxima-se o tempo do mais desprezível dos homens, daquele que já não pode desprezar a si mesmo”.
Palavras de Zaratustra. Ou melhor, de Nietzsche. Mas bem poderiam ser encontradas facilmente nos dias de hoje em cada um de nós, bastando para tanto, um exame de consciência. Porque, afinal, ainda somos seres individualistas que sonhamos e trabalhamos por nossas aspirações e objetivos. Não temos ainda a postura altruísta desejável para que ao menos o espaço onde nos encontremos já se torne um pouco melhor para se viver.
As ideias e teorias de Nietzsche são um capítulo interessante da história da humanidade, na medida em que concorre para o seu progresso intelectual, mas não devem ser seguidas. Entretanto, devem ser estudadas, porque a melhor maneira de se evitar o veneno é conhecê-lo.
Se esta é a intenção do filósofo Michael Onfray, receio que não, seu esforço em popularizar a filosofia para que ela se torne ume efetivo instrumento de mudança para melhor do comportamento humano já terá valido a pena. E começar por Nietzsche, foi uma feliz escolha. Porque talvez seja possível compreender que o inimigo não mora ao lado, mas dentro de nós.

Ilustrações: Caricaturas de Nietzsche (à dir.) e M. Onfray (à esq.) - Fonte: Web.



2 comentários:

  1. A filosofia nos possibilita um exercício necessário de contato com o nosso acervo de vivências e idéias a respeito de nós mesmos, do outro, do mundo enfim, mas é tb um caminho "arriscoso" pois nos leva tb a um emaranhado de questionamentos que, parecendo nos libertar, nos aprisiona. Como diz o ditado popular, "dá muito pano pra manga" esse seu post!Instigante, interessante, envolvente...Grande abraço.

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  2. É sempre muito bom vir aqui, seu texto está impecável, aliás como sempre, é um enorme prazer ler seu espaço.Parabéns

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