sábado, 31 de julho de 2010

O BOLSO DO PALETÓ

A vida nos abandona aos poucos, da mesma maneira como Tadzio caminha para o mar para ser livre. Submetê-la ao controle de nossa vontade e ao poder de nossas mãos é trazer a morte mais rapidamente ao nosso encontro.
Não há de se passar impunemente por este mundo. É preciso viver. Mesmo que isso represente errar. Porque o erro é a célula-máter do eterno. E eterno é tudo aquilo que já evoluiu o suficiente para sê-lo. É preciso conhecer a dor, a lágrima e o medo. E não evitá-los. É preciso atravessar a escuridão, o pântano. Viver na caverna, nas entranhas do mundo. E ver o próprio corpo apodrecer. É preciso beber o sangue. E saber o gosto da ferida. Celebrar as vísceras. E exaltar os ossos. Atirá-los para o alto. Forte. Bem alto. Para que se misture em meio às nuvens. E os anjos saibam que mais um se fez vitorioso.
Não se pode vestir alva túnica, sem que se conheça o manto das cinzas. Não. Não se pode. Por isso, esqueçam tudo o que está escrito, inclusive isto. Queimem os livros. Desprezem as ideias que não lhes pertençam e tentam convencer-lhes. Rasguem o seu peito, e ponham para fora, tudo o que outras mentes, outros corações, e outros sonhos e pesadelos puseram ali dentro. E deixem o sol entrar. Porque o sol é que traz a vida. Não são as palavras, nem as ideias.
Hoje, este que vos fala, é apenas um velho senil, maltrapilho, doente, às portas do Batistinha. A trocar duas palavrinhas pela manhã e duas à tarde com o aleijado vendedor de velas. A narrar histórias de duas frases para os pivetes guardadores de carro, na esperança de que abandonem essa vida e não se tornem outros Moacir e Marcinhas. Um velho. Um velho senil; de barba jamais cuidada, olhar triste, fundo, cansado; vendido pela vida à deusa-mãe Frustração; usurpado, sugado até a última gota de sangue por seu filho mais ilustre: o Arrependimento. Um velho. Porque assim me vejo. E se assim me vejo, é assim que sou. Porque esta é minha vontade deste minuto. No próximo, serei bela dama a exalar aroma jovial pela Avenida da Saudade, envolta pela penumbra da noite. E ao amanhecer, o jovem mancebo, que, embriagado de licores, perfumes e ideias tenta encontrar o rumo de casa. 19 de julho de 1937, e enquanto, a carrocinha de pães Zoéga percorre o entorno do jardim público coberto pela neblina, o dono do jornal atravessa a Rua Um pra tomar café no Bar Avenida à espera que seu único redator chegue lúcido antes das 9.
Hoje é sábado. Mas quem é que perguntou isso?
Moro ao final do corredor. Uma porta com janela basculante e quebrada me separa e me protege do que mais temo. Porque o prazer da vida é um cálice de amargura. Percebe por que aparecemos sempre lado a lado na foto? Às vezes me canso, poeta. Há uma revolta “Mishima” contida dentro de mim. Vulcão inativo. Preste a explodir. Por que será que o vento pra ser notado, precisa ser forte e fazer destruição à sua volta? Você tem alguma ideia sobre isso?
Olá. Tenho novo texto aqui no site. Se quiser dar uma passada por lá depois pra conferir... Grato pela atenção. Boa semana pra você.
Foi o último recado. O celular, o último, eu o atirei no vaso sanitário e dei a descarga. Lá se foram muitas vidas inúteis que perturbavam a minha vida e sua eterna busca pela paz. E nesse jogo de xadrez entre vidas inúteis eu sou o pião. Eu escrevo, eu determino, eu faço. Melhor, ninguém. Nem o Sujeito Lá em Cima. Ele, por sinal, desistiu do seu projeto. Seu ambicioso projeto de me transformar em um ser que lhe pede a benção.
(Trecho do romance "Bem-Vindo ao Clube", deste escritor, em fase de redação)
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2 comentários:

  1. Exorcisem-se, rompam suas medidas, entreguem-se ao desvario e após transmutem-se em seres novos, capazes de iluminar cada minuto do viver, do aqui e agora.
    JCostaJr, quedo-me reverente ante teus textos, tua profundidade e tua visão de mundo peculiar. Parabéns. Abraço fraterno.

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  2. Magnífico !!! Não encontro melhor palavra para expressar minha opinião.
    Parabéns !
    Abraços

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