terça-feira, 7 de setembro de 2010

A. de Amor

Pertenço à raça mais maldita, mentirosa e desprezível da humanidade: a dos escritores. Há dois anos enquanto descia ao calabouço da indiferença onde se recolhem os réprobos que desacreditam da vida e de tudo o que a ela diz respeito cruzei com alguém que, depois compreendi faria mudanças profundas em meu espírito. Porque me fez continuar a escrever quando eu já não tinha nenhum motivo para fazê-lo; disse-me coisas que meus irmãos e amigos jamais disseram; coisas que não custa dizer, mas que faz tão bem ouvi-las. Eu lhe dediquei de todo meu coração a minha última jornada. Porque ela me ensinou como seguir este caminho com os olhos embaçados pelas lágrimas não de dor, mas de revolta. A força que tem me sustentado sobre o cavalo e que outrora me fez cortar cabeças, rasgar o peito e perfurar a garganta de todos os demônios que cruzaram meu caminho, tempo em que em nome do Maior eu vestia um manto branco pintado com uma cruz vermelha, e lia e escrevia poemas e prosas, na madrugada, em abrigos e ao relento, enquanto os companheiros daquela jornada descansavam; quando podiam.
Ela, a pessoa que me fez me aceitar como sou, e me proporcionou o gozo do amor em toda a sua plenitude, mesmo distante de meus olhos e longe de minhas mãos. Embora eu a sentisse comigo muitas vezes durante o dia, e acordasse bem cedo à primeira luz da manhã, certo de que eu estivera com ela à noite toda. O que confirma a tese repudiada pelos tolos e aceita pelos de bom coração que, ao amor basta os sentimentos. Acho que o relógio de minha vida vai até o 46, quando, devo confessar, eu imaginava que ele não chegaria até 22. Resta-me ainda terminar uma confissão. Uma que não escrevo com papel e lápis. As últimas linhas vão saindo à custa de muito esforço, arrependimento, culpa e remorso, dor e lágrimas. E mesmo concluída, ficará faltando algumas linhas, páginas, de amor e felicidade, que não pude escrever desta vez, embora eu a tenha desejado tanto.
Um ateu convicto tornar-se um cristão, já é um caminho difícil e longo a percorrer. Compreender que nada termina e nem começa aqui é um avanço tremendo. Portanto, aceito sem revolta o fato de não ter vivido desta vez a felicidade, na sua forma mais bonita, doce e verdadeira. Porque quando a conheci, ela estava longe de mim. Talvez um dia esteja perto. Eu espero.

"Valjean, este é o dia da tua liberdade".

4 comentários:

  1. O homem rompendo com seus paradigmas, exorcisando todos e se dispondo a renascer para uma nova etapa. Excelente artigo, JCostaJr, como o são todos os trabalhos da tua lavra. Parabéns. Abraço Fraterno

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  2. Que texto maravilhoso, quanto sentimento em suas palavras.
    Parabéns.

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  3. Adorei.
    Você escreve muito bem.
    Parabéns!!!
    Abraços
    Alessandra Amato

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