domingo, 5 de setembro de 2010

E POR QUE NÃO OUTRA VEZ?

O dia amanhecera triste. Chuva, asfalto molhado, folhas derrubadas pelo vento. Caminhei um pouco pela calçada, esbarrando no muro, e percebi que não estava só. Ela me acompanhava. Vestida de preto, espargindo a frieza do seu espírito em torno de mim, a morte. Se você me tomasse para si agora – perguntei – o que eu levaria comigo? Dinheiro, propriedades, títulos? Ela sorriu do seu jeito. E eu respondi: Não. Até porque nem os tenho. Mas, conhecimento adquirido, virtudes conquistadas, experiência, as boas amizades que fiz e o carinho da família, que desta feita, finalmente pude ter por algum tempo, o que, em se tratando de um sujeito como eu seja mesmo muita coisa. E tenho certeza que quando eu me conscientizasse disso tudo, você, morte, deixaria de existir. Ao menos diante dos meus lindos olhos verdes.
Isto me fez pensar que, à luz da razão, chega a ser ridícula a nossa ingenuidade. Entendêssemos, e mais do que entendêssemos, aceitássemos que somos um ser cuja existência está determinada por um período de tempo, e toda nossa aspiração de poder, a preocupação em conquistar sempre e em qualquer circunstância, deixariam de ser um tormento, causa da maioria dos nossos infortúnios, e passaria a ser estímulo não apenas para concorrermos por nosso progresso intelectual e espiritual, mas, por de nosso semelhante. Afinal, nascemos pra viver em sociedade. E sei muito bem o quanto me custa dizer isso. Passaríamos a ver o planeta não apenas como o lugar em que vivemos, mas o lugar que nos acolheu, e, muito provavelmente, passaríamos a ter por este lugar zelo e gratidão. É o sentimento que a maioria dos filhos aprende a ter desde pequeno pela casa dos pais, na qual, vivem-se as primeiras emoções e se obtém os primeiros aprendizados. Ninguém gosta que outro piche a sua casa, derrube o muro, destrua a calçada, ou entre, em surdina e traiçoeiramente, para roubar o que dentro dela existe.
Outro entendimento que nos falta, e que certamente nos pouparia de muitas frustrações e sofrimentos é a interpretação de Deus, cuja idéia, concebida por nós, de maneira equivocada, à nossa imagem e semelhança não corresponde à realidade. Mas, se enquanto humanos, somos um ser temporário, enquanto espírito nós não somos. E espírito é o que somos e não o que temos. Complicado? Não. Ao contrário, bem simples. Basta entender que Humana é a nossa condição momentânea. Espírita é a nossa realidade imutável. Pois é o que somos: Espíritos.
Orgulho à parte é mais consoladora, justa e racional a idéia de que surgimos para a vida espiritual todos iguais e ignorantes, e sujeitos a evolução conforme nossos esforços e merecimento.
Lágrimas deixariam de ser derramadas, tivéssemos a exata compreensão do que nos ensina o eminente espírito Emmanuel “o tempo não passa por nós, ao contrário, nós é que passamos pelo tempo” Ou seja, desde que criados, vivemos na eternidade.
Mas, em olhando a natureza, nós veremos que as folhas caem no outono, levadas pelo vento, mas a árvore é sempre a mesma. Veremos também, que as gramas são cortadas e nascem de novo, mais fortes e abundantes. O sol nasce e se põe, e o faz todos os dias, apesar de eventuais densas nuvens. As sementes são semeadas, mas o pedaço de chão que as recebe em suas entranhas, é o mesmo. As ondas beijam a praia e se afastam depois, e faz isso a todo instante, e não se cansam. As águas descem rio abaixo, mas o leito do rio é o mesmo.
As coisas se repetem. E disto deduz-se que há uma causa inteligente que concebe, organiza e movimenta esses eventos.
Se tudo se repete, por que não a vida? A nossa vida, espírito que somos. O que há de impossível que todo o processo, da concepção ao nascimento, passando pela condição humana e culminando com a morte, possa se repetir? Qual a dificuldade de entender e aceitar isso? Medo? Do quê, se como espíritos, que é o que somos, somos eternos? Orgulho, para quê? Permaneçamos na condição humana, cem anos, não permaneceremos duzentos por mais gloriosa e favorável que essa condição seja.
Vivemos um tempo de transição. Idéias surgem por toda parte proporcionando um embate intelectual e de diferentes pontos de vista. Mas ainda que os olhos mirem em várias direções e a maneira de enxergar a vida e o mundo seja de muitas formas, tudo acaba convergindo para um ponto único que é a energia maior do Criador do qual tudo emana. Caminharemos adiante, como sempre fizemos, e, independentemente das circunstâncias. Caindo, levantando, e seguindo em frente. Porém, mais aliviados, em paz, confiantes e mais próximos da felicidade – essa aspiração que muitos confundem com satisfação momentânea e prazer efêmero. Felicidade, que desconhecemos porque o Cristo nos ensinou que ela não é uma coisa deste mundo. Ainda não. Mas será em algum tempo, certamente, quando, espíritos que somos nós compreendermos e aceitarmos a nossa realidade. Essa realidade não é decepcionante, senão para aquele que se contenta com o pouco que o orgulho e o egoísmo pode lhe proporcionar. Afinal, para um espírito, que é o que somos e que tem consciência da infinitude de sua existência, o que são cem anos desfrutando de poder e riqueza, neste mundo? Conquistas que desaparecerão na poeira do tempo. Porque já dizia Sócrates: “O homem é o que imagina ser”. Em nossa pesada mochila onde ainda carregamos orgulho e egoísmo, ao concluirmos uma jornada de aprendizado neste mundo o que levamos conosco é aquilo que somos em se tratando de virtudes e defeitos morais e conhecimento adquirido que jamais se perdem. O espírito estaciona se renitente em seus vícios, se descrente de Deus, se incapaz de compreender a mensagem consoladora e esclarecedora do Cristo, se orgulhoso e egoísta a ponto de acreditar que pode tudo, apenas porque tem braços e pernas pra fazer e mente pra pensar. Mas o espírito, nós, avança, todas as vezes que olha adiante e encara a estrada que é sua vida. Todas as vezes que se levanta depois de cair, e feito Paulo pergunta: Deus, o que queres que eu faça? O espírito, nós, encontra forças para continuar, não importa a dificuldade em que se encontre, todas as vezes que abre seu coração e percebe que dali de dentro sai o amor. Houve quem nos disse um dia: “Basta uma fresta para que a luz entre. E esta luz é o amor”.

Um comentário:

  1. A ilusão domina a maioria das mentes humanas, nessas, o véu que impede a luz de entrar ainda precisa ser removido.
    Parabéns !

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