sexta-feira, 29 de outubro de 2010

EU NÃO VOTO EM DILMA

Eu não voto em Dilma. Por vários motivos.

Porque sou contra o aborto, porque repudio a intenção de colocar mordaça na boca da imprensa. Porque me causa dúvidas uma pessoa que ao longo do tempo muda tanto de cara e de opinião, ao que parece, conforme a conveniência. E porque deploro ser patrulhado pelos pirilampos, os sanguessugas vermelhos estrelados que atuam no silêncio e nas sombras, nos espreitam e levantam vozes, toda vez que nos dispomos a escrever algo que lhes incomoda porque diz a verdade.

Fosse Lula o candidato, sim, eu votaria nele. Mas Lula não é o candidato.

Se eleita, Dilma apenas estará esquentando uma cadeira que, naturalmente, pertenceria a José Dirceu, a eminência parda do poder petista, que, ao contrário do que muitos pensam e outros tantos afirmam, continua mais vivo e atuante do que nunca.

Sabe-se, afinal, o que pensam os marqueteiros que colocam pérolas e poesias na boca de Dilma. Mas o que ela realmente pensa ninguém sabe.

Dilma é o boneco ventríloquo do circo. Perdoem-me os palhaços, os realmente artistas que ganham a vida sob a lona e as luzes da ribalta.

Votar em Dilma, não significa votar em Lula. Bom seria se fosse, mas não é.

Se as viúvas do Lula se contentam com a cereja do pudim, eu não.

Chega-se ao final da campanha apontada por especialistas como a pior da história.

Mas não é só isso. O sistema já está estabelecido. Ele continua privilegiando uns poucos em detrimento de muitos. E os primeiros estão cada vez mais importantes, soberanos e ricos. Com que dinheiro? Com o nosso. Que até eles chegam, em boa parte, através dos impostos que pagamos. Em outra parte, com a especulação, porque já dizia a vovó, dinheiro faz dinheiro. Para nós, pobres, pobres mesmo, e mortais, restam migalhas da festa da qual nunca participamos e se depender da vontade deles, jamais participaremos. E o mais deprimente, feito os miseráveis que vagavam em torno do palácio de D. João VI em noites de banquete e festim, nos contentamos com estas migalhas que nos impede de morrer, e nos permite continuar sonhando. Sonhando... Enquanto eles vivem. E se deliciam.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

ÓTICA

O bem é uma mentira. Ninguém de fato é bom. Afinal, somos competidores entre nós, genuinamente guerreiros, vencedores e vencidos, e a vitória só existe aos nossos olhos se nos oferecer um oponente derrotado.

O bem até pode ser um sonho, porque isto é o que de melhor podemos fazer: sonhar. Mas jamais será realidade, enquanto existir a espécie humana sobre a terra.

Em guarda, soldado. Em guarda!

Tem sido assim quase diariamente. Toda vez que se propõe a fazer algo de bom na vida, a acrescentar um tijolinho na grande obra da evolução que atende pelos nomes de amor, esperança, fé, razão, há de se encontrar dificuldades. Muros se levantarão do nada diante de nós. Vozes contrárias ensurdecerão nossos ouvidos, pensamentos disseminarão a loucura, em nós e ao redor de nós. É claro. Há os que se contentam com as sombras. Acham que nada existe além delas. E querem que sob as sombras, ao lado deles, estejamos. Uns, porque gostam de nós. Outros, porque nos odeiam.

Se fracos, vacilantes, seguimos com eles. Terá sido nossa escolha. Errada, é verdade. Porém, mais uma escolha errada. Mais um caminho sem destino.
Cansados, chegará o momento em que nos lembraremos que além das sombras, existe a luz. E sentiremos saudade da paz que a luz proporciona. Desejaremos essa paz. E nesse instante, nesse exato instante, mãos se estenderão para nós. Mãos firmes; suaves, tranqüilas. E que escolha faremos? Continuar nas sombras? Ou nos abrigarmos sob a luz?

Aqueles que mais se elevam se tornam os alvos mais fáceis de serem atingidos. Podem ser vistos a qualquer distância por aqueles que lhe desejam o mal. Mas, a boa notícia: também por aqueles que lhe desejam o bem.

O caminho é longo, sinuoso, difícil, parece eterno, porque assim são as montanhas. Evoluir, crescer espiritualmente, fortalecer a fé é oportunidade que a vida dá a todos. Por isso é natural que, durante a subida, nos encontremos com outros, caídos, como nós. E com aqueles que estão retornando, e outros ainda, que, assim como nós, estão novamente refazendo o caminho.

Podemos sim levar nosso cajado, e este é a esperança, levar provisões, e estas são as virtudes morais, levar o cobertor, e este será a fé. Podemos e devemos levar a água e esta é o amor, sem o qual, nada podemos. Mas podemos e devemos orar e vigiar. Sempre. Como soldados do bom combate.

Esqueça, afinal, de pensar em Deus para questioná-lo. Pense nele para agradecer. Não apenas por tudo o que você já viu e possui. Mas pela vida que você tem. É algo que te pertence e ninguém pode tirar. É algo que você tem hoje e terá daqui a mil anos, um milhão de anos. Você existe! Compreenda realmente isso. Perceba e sinta isso! É o primeiro passo, e, ainda assim, o decisivo, para se começar a conhecer a felicidade.



domingo, 24 de outubro de 2010

E O VELÃO, O MAIS QUERIDO, VOLTOU!

Os 14 anos de sofrimento na Segunda Divisão do futebol paulista chegaram ao fim para a Associação Esportiva Velo Clube Rio-clarense.


Deus sabe quantas vezes escrevi este parágrafo e tive que mandá-lo à lixeira do computador. Dessa vez não. O sofrimento, o desgosto, a humilhação acabou.

Era injusto demais para um time centenário, tão querido e tradicional permanecer tanto tempo no Umbral do futebol de São Paulo.

A instituição Velo Clube se redimiu neste ano de sucessivos dissabores, pelas mãos de um presidente que, mais do que tudo, é velista de coração. Homem íntegro, cuja vida é um exemplo de superação e esforço, de crença inabalável no trabalho e na maneira de se conduzir, seja na área esportiva, profissional, social ou religiosa, com lisura, com ética, decência, com respeito ao semelhante, mas, igualmente, com competência. José Pedro de Paula Caraça, o filho do seu Paulo, o nosso tio Álvaro e da dona Suzana teve a ousadia de acreditar em um sonho que muitos davam por impossível. Expôs sua meta, agregou seus pares, pessoas possuidoras das mesmas virtudes que ele. Como João Marcondelli, Danilo Dezan, Braminha, Pimentel, Cerri, Ivo, Bertinho e outros. E antes de formar um time vencedor dentro de campo, outro fora formado fora dele: a Diretoria que hoje conduz os destinos do Velo Clube e seus colaboradores.

Depois, o tiro certeiro, na mosca, na contratação de uma comissão técnica, comandada pelo campeoníssimo técnico João Valim, o preparador físico Juliano, e os demais que trabalham em harmonia, de modo sério, determinado, e competente, sem os estrelismos tão próprios de alguns ilusionistas que ostentam imagem de profissionais, tão consistentes quanto uma porcelana. Uma comissão técnica que treina, orienta, comanda com respeito ao ser humano e ao profissional.

Um trabalho assim, tão bem planejado e conduzido só poderia mesmo resultar na formação de um bom elenco, uma ótima equipe, que, dentro de campo, foi dissipando desconfianças, dúvidas, e vencendo, e convencendo, atingindo objetivos, até triunfar como há muito tempo não se via o time da Rua 3, o time do Seu Benito, do Seu Álvaro Pinto Lopes.

Pudesse o leitor ver ou imaginar quantas vezes esse texto foi interrompido porque na medida em que vai sendo escrito, as mãos tremem e os olhos embaçam, saberia o amor que vai aqui dentro por esse time que é o mais querido, sim, da cidade de São João Batista.

Merece todo o aplauso também a imprensa de Rio Claro, que vestiu a camisa rubro-verde porque soube compreender a importância da instituição Velo Clube para a Cidade Azul que tem alma e sangue vermelha e verde.

Aqui, nestas linhas, não está um escritor de 39 anos, jornalista free-lance. Está um menino que nas tardes de domingo ia com seu pai, seu irmão, seus amigos e vizinhos pra ver o Velo jogar e vencer. Está o jovem de 22 anos, que dependurado no alambrado atrás do gol da Santa Casa, com seus amigos, vibrava a cada gol do Pirulito, acreditando que o sonho interrompido em 1979, pudesse ser revivido.

Talvez agora, tanto tempo depois, o sonho esteja recomeçando.

O primeiro passo foi dado. O grito de guerra não pode parar: Vamo subi Velo! Vamos sim. Até a Série A-1. O Gigante acordou.

Fotos: Time de 2010 que conquistou o Acesso à Série A-3; Torcedores na Geral do Velão;  Técnico João Vallim; Time de 1978, que conquistou o Acesso à Divisão Especial (A-1).

* Artigo publicado na edição No. 69 do Jornal Cidade Livre.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

ROCK FEMININO - CONCURSO LITERÁRIO

Já estão abertas as inscrições para o concurso literário Rock Feminino.

Acesse: www.rockfeminino.org/literario.php  e saiba mais sobre o assunto.

sábado, 16 de outubro de 2010

PORQUE NÃO ME ILUDO

Fácil. Estamos a dias de eleger não um novo presidente da república, muito menos um projeto político. Mas um jingle. Qual será o melhor? O de Serra? Ou o de Dilma?

Estava ouvindo o jogo do meu Palmeiras, quando, no intervalo, as ondas do rádio foram invadidas por mensagens idiotas, mentirosas, depreciativas e digo mais, ultrajante à consciência e aos ouvidos do ouvinte.

Culpa da emissora? Não. Culpa da indiferença da sociedade brasileira para com o seu direito de dizer simplesmente NÃO.

Não ao dinheiro na cueca, às eminências pardas do poder, né Dirceu? Não à educação pública medíocre. Não às CPIs da Saúde que terminam em nada, sinal que todos devem, e menosprezam a confiança dos eleitores. Não às reportagens motivadas sabe-se lá por quais outros interesses senão o de iludir, publicadas em revistas de credibilidade.

Não às promessas de campanha, baseadas no fio do bigode.

Discute-se a prática do aborto. Como se este fosse o único assunto importante em pauta no país.

Estamos no segundo turno das eleições presidenciais. Alguém sabe o que pretendem fazer os candidatos, se eleitos, além das epifanias e utopias criadas pelas mentes diabólicas de seus marqueteiros? Não. Porque nem eles sabem. Porque na verdade não são eles que fazem as coisas acontecerem, embora sejam os que apareçam para ser pedra e para ser vidraça conforme a situação e a conveniência.

Pessoas de boa-fé se iludem com histórias mal-contadas, boatos, estatísticas de melhores e piores, porque precisam acreditar em alguma coisa.

A expressiva abstenção de eleitores, no primeiro turno, que teve a merecida atenção por parte dos cientistas políticos e parte da imprensa é um indicativo de que considerável parcela da população brasileira já se deu por vencida.

Nós estamos no mato sem cachorro. Literalmente. Seja qual for o eleito, o que precisa mudar não irá mudar. As reformas tributárias, trabalhistas e judiciárias, pra citar algumas, jamais sairão da gaveta. A população continuará pagando o que não deve, e, portanto, financiando a roubalheira promovida pelos corruptos. Trabalhadores e empresas continuarão separados por um abismo de diferenças inconciliáveis. E a sociedade continuará se vendo obrigada a garantir os direitos de quem não cumpre com seus deveres, ou seja, transformando, pela inoperância e contradição das leis, marginais em vítimas. Tudo para o bandido, nada para as pessoas de bem.

Candidatos a presidente da república são farinhas do mesmo saco. Ponta de um iceberg monstruoso e horroroso de feio, e, pior, destruidor. Candidatos à presidente da república são, embora não pareçam exatamente iguais. Diferentes apenas no modo de vestir e falar. E mentir.

Projeto de poder não combina, por natureza, com projeto de nação. Porque o primeiro exige a submissão do segundo, algo inaceitável porque significa que poucos continuarão mandando em muitos, ao invés de representá-los.

* Artigo publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 16/10/2010.

Foto e ilustração: Reprodução.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

VIVA AS CRIANÇAS

Eu me lembro com alegria e lágrimas nos olhos. Não é preciso ser escritor para construir uma frase como esta sabendo o que ela significa. Afinal todos nós, jovens idealistas e cheios de sonhos e convicções, adultos pragmáticos e senhores de si, idosos sapientes e donos de olhar calmo e palavras confortadoras nas horas mais necessárias, tem uma história pra contar. Verdade? Sim. Todos um dia foram crianças.

Escrevi certa ocasião: Nasci chorando e vou morrer fedendo. Que glória pode haver nisso? O tempo, ah, sempre ele, me fez descobrir e compreender o outro lado da moeda. O de que é preciso valorizar cada fase desse milagre o único que jamais será compreendido: a vida. Nesse dia da criança, bom seria se nós adultos, fossemos buscar a criança que trazemos guardada em alguma gaveta de nossa memória, nosso arquivo espiritual.

Vivenciam-se as primeiras experiências, experimentam-se as primeiras sensações, fazem-se as primeiras descobertas, têm-se as primeiras decepções, enfim, descobre-se um pouco, só um pouco, o que é viver, enquanto crianças. E elas podem ser levadas, porém ternas e generosas, como Tom Sawyer ou Huckleberry Fin do titio Mark Twain, escritor excepcional tão copiado até hoje pelos autores infanto-juvenis.

O educador Piaget e sua Teoria Cognitiva devem ter contribuído de alguma forma para que indivíduos da estirpe de Sawyer e Fin, pra ser sincero, caro leitor, como esteve que vos escreve, se livraram de reguadas na cabeça e da temida palmatória. Piaget estudou os próprios filhos para propor a existência de quatro estágios do desenvolvimento cognitivo do ser humano que são o sensório-motor, o pré-operacional, o operatório concreto e o operatório formal. Bendito Piaget.

No campo religioso, duas definições sobre a infância despertam a atenção e curiosidade. Na primeira delas, a mais tradicional e, portanto, mais aceita, crianças são anjos, livres do pecado através do batismo. Bom seria fosse verdade. Porque a teoria espírita diz exatamente o contrário: crianças são espíritos, que já possuem uma bagagem intelectual e moral e, portanto, possuidoras de virtudes e defeitos, adquiridos em vidas anteriores.

O que diz a razão? Ora, ela diz que uma criança que vem a falecer não possuiu tempo o suficiente para ser boa ou má, e, portanto, qual seria o seu mérito para merecer o céu ou o seu demérito para merecer o inferno. Do mesmo modo, uma criança, como a filhinha deste que vos escreve, estimado leitor, que faleceu aos 4 meses de vida, o que teria feito ela de ruim nesta sua tão efêmera vida pra sofrer tanto como sofreu em virtude dos seus inúmeros e insanáveis problemas de nascença?

Mas vamos nos ater no sonho que a criança é capaz de produzir na cabeça de um ser humano antenado com as coisas boas da vida, com as causas que realmente mereçam valor e atenção. Refiro-me a Monteiro Lobato. Esse ícone, referência positiva da cultura brasileira tão esquecida como tantos outros. Nas páginas do seu Sítio do Pica-Pau Amarelo, as peripécias de Viscondes Sabugosianos que ensinam o bem através da ciência, e as más-criações de uma boneca que mostra como evitar o mal.

Lembro-me a primeira vez em que saí a brincar. Tinha 5 anos. E ficava pendurado na janela da sala que dava para a rua, olhando com inveja e interesse os outros meninos maiores que eu a correr, a pular e a gritar felizes. Meu pai, entretido com livros contábeis em seu expediente na Casa Farani, e, portanto, algum anjo bom deve ter soprado ao ouvido de minha mãe: “Deixe-o ir”. E ela deixou. Ainda que preocupada com o filhinho doente que tomava todas as noites generosa dose de Comital.

Criança é assim. Às vezes demora a ver seu sonho realizado. E, algumas vezes, por mãos inesperadas, como a de Dona Maísa que, diferentemente de todos os demais professores, acreditou que aquele seu aluno, de olhar perdido, lento no raciocínio e completamente disperso do mundo à sua volta, fosse capaz de aprender a escrever. Conseguiu. Hoje ele escreve. Acabou de fazê-lo mais uma vez.



sábado, 9 de outubro de 2010

OUTUBRO NEGRO

Atualmente, fanáticos religiosos, desprovidos de mínima coerência e racionalidade, acreditam queimar espíritos maus, na verdade espíritos ignorantes, desinformados e ludibriados que, em troca de alguma vantagem, atormentam a vida de encarnados, por sinal, nenhum pouco santinhos, como se imaginam.

O assunto merece reflexão se considerarmos que, no século XIX, queimavam-se, apenas livros. Em Barcelona, em 09 de outubro de 1861, cerca de 300 livros com temática espírita foram queimados, em praça pública, por ordem e graça do Bispo de Sevilha, episódio que passou à história como o Auto-de-fé de Barcelona.

Eram 10 e 30 da manhã, quando se deu o fato, na presença de, além do Bispo, um padre, um notário, um escrevente, e três funcionários da alfândega (onde os livros foram apreendidos), acompanhados de uma pequena multidão, que, para o desgosto de sua Eminência vaiava a todos estes, aos gritos de “Abaixo a Inquisição”.

O tiro saiu pela culatra, porque tal estupidez acabou despertando um interesse ainda maior das pessoas pelos assuntos espíritas dos quais tratavam os livros.

Sobre o episódio merece registro o livro Auto-de-fé de Barcelona de Florentino Barrera, onde é possível encontrar a citação do poeta alemão Henrich Heine de que “Onde se queimam livros acabam se queimando homens”. Caso da Espanha, em cujo solo se verificou cenas dramáticas e repugnantes ao tempo da Inquisição durante a Idade Média.

A Espanha, por sinal, é um país bonito, de cultura milenar, e que herdou à humanidade gênios das artes como Goya, Picasso e Cervantes, mas parece ter a sina de protagonizar aberrações como, por exemplo, as touradas, onde animais ingênuos são sacrificados sob os olhares do público extasiado, e, ainda, a festa de San Firmino, em que embriagados correm pelas ruas de Pamplona, perseguidos por touros ensandecidos, não porque esta seja a natureza animal – dos touros – mas, porque foram induzidos pela ignorância humana a se comportarem assim.

Episódio semelhante ao grotesco Auto-de-fé de Barcelona seria protagonizado na Alemanha, por Adolf Hitler, que, motivado pela insensatez que lhe era peculiar, mandou acender uma fogueira de livros, em Berlim, numa tentativa de, talvez, demonstrar a soberania intelectual da raça ariana.

Também merece registro o incêndio, que causara a destruição da Biblioteca de Alexandria, criada por Ptolomeu Sóter, comandante do Egito, após a morte, em 323 a.C, de Alexandre, o Grande. É conhecido um texto do dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht, intitulado “A Queima dos Livros”, onde ele escreve sobre um autor que vendo vários livros serem empilhados para formar uma fogueira, descobre que entre os quais não se encontre os seus e assim se exprime indignado, conforme a tradução de Paulo César de Souza: “Queimem-me! Não me façam uma coisa dessas. Não me deixem de lado. Eu não relatei sempre a verdade em meus livros? E agora me tratam como um mentiroso! Eu lhes ordeno: Queimem-me!”

Como se percebe, a humanidade parece viver atormentada por demônios de toda espécie, mesmo que na forma de livros. Mas os livros existem para esclarecer as mentes e não o contrário. O triste episódio do Auto-de-fé de Barcelona demonstra isso. Hoje, os livros com temática espírita estão entre os mais procurados e lidos e servem como base para obras cinematográficas de grande repercussão.

* Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, na edição de 09/10/2010, à pág.2.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

É PRA ACABAR

Pra início de conversa, o Bahia foi campeão brasileiro naquele ano. Muita coisa aconteceu naquele ano que passou despercebida aos olhos da maioria das pessoas. Coisas importantes, você sabia? Muito importante. Não estou me referindo ao Bahia, evidentemente. Também não desejo mencionar o fato de que naquele ano assisti a Rain Man, com outros 6 ou 5 ou 4 eu não me lembro bem, espectadores, no extinto Cine Excelsior.

Por falar nisso, devo confessar: nunca sei se a grafia de espectador é realmente com “s” de sapo ou “x” de expectorante. E se extinto, é mesmo com “x” de x-miséria ou será com “s” mesmo, de mesmo. Entendeste né?

Ah! Que isso importa às 3 da manhã? Se ninguém sabe, ou não se lembra, eu não sei, eu... – espera aí vou tomar um golinho – sim, melhor agora. Pois bem. Eu dizia que nunca sei ao certo o que eu dizia. É isso, não? Diga-me que sim espelho!

Mas acontece que na verdade, naquele ano, foi naquele ano que as coisas mudaram. Sim, as coisas mudaram. Se eu tivesse 20 anos, eu escreveria que foi naquele ano que conheci aquele senhor bonito, envolvente, de nome pequeno e difícil de ser pronunciado; aquele senhor avassalador, que destrói tudo por onde passa. Mas aos 40 anos, eu escrevo sem nenhuma cerimônia que foi naquele ano que as coisas mudaram.

Porque as coisas evidentemente mudam. Eu percebo isso toda vez que olho no espelho a cada manhã.

Até de nome a gente muda. Abrevia o nome, exclui o prenome. Só ontem fui descobrir que meu último nome não é nome. Significa apenas: o mais novo. Mas acontece que ninguém me chama de: Oh, Mais Novo, por favor, quer pagar o que me deve? É mesmo muito cabuloso ser cobrado assim, na rua, com tanta veemência e nenhuma cortesia, enquanto os carros descem a Avenida 1 e sobem a Rua 8 em pleno meio-dia, aquela infinidade maldita de carros, naquelas ruas e avenida feitas para charrete.

O finado Oscar, amigo de longa data, dizia: Pode o homem perder tudo, até a dignidade, menos a pose. Do que se depreende que nenhuma vergonha leva o sujeito a passar fome, sentir dor, ser humilhado pelo tempo e as circunstâncias a cada instante, desde que se tenha um sorriso cínico e um olhar de altivez no rosto.

Naquele ano, ao qual me refiro... Tá lembrado né? Bem, naquele ano, Cazuza, o poeta, já estava doente. Senna seria campeão mundial, às tais horas e tantos minutos do dia tal, mês tanto, e ano qual, como fiz questão de anotar em uma das minhas agendas. Minha mãe ainda arrastava por este mundo, seu corpo frágil e carcomido. E a fortaleza Papai ainda não havia sido tomada pelo cupim da família. Eu ainda conversava com meus irmãos (não me faça rir), eu tinha amigos (alguns, como sempre), e meu mundo, devo dizer sem nenhum constrangimento era bem maior do que as quatro paredes de um quarto pintado de rosa e que agora me sufocam enquanto escrevo estas linhas. A DT 125, preta, era a moto que eu sonhava ter. E “Sob o Manto da Noite” era o livro que eu sonhava escrever. Escrevi. Vinte anos depois. Nada mal. Agora, sonho publicá-lo. Mais 20 anos. Tarefa para os herdeiros.

Mas volto a falar daquele senhor que conheci naquele ano que você, esperto e inteligente que é, estimado, digo, finado leitor, sabe do qual estou falando. Todo mundo, por exemplo, falava da perestroika da titia velha ou da vizinha, que logo faria cair o muro do alemão.

E em 5 de outubro daquele ano ao qual me refiro desde o início dessa nossa conversa, o doutor Ulisses, o rio-clarense (tá bom, me rendo aos súditos) o rio-clarense Doutor Ulisses Guimarães, diante de um plenário lotado do Congresso Nacional, disse: “Declaro promulgada o documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça social do Brasil”. E concluiu com a profética e assustadora frase: “Que Deus nos ajude que isso se cumpra”. Sabia ele da dificuldade de incutir valores sociais e democráticos, lei e ordem, na consciência de uma nação parida pela covardia e os interesses escusos de nobres arruinados e contaminada, desde seus primeiros dias, pelo vírus letal da corrupção como nos revelam Eduardo Bueno e Laurentino Gomes.

Mas volto a falar daquele outro senhor que conheci naquele ano. Embora pertencesse ao gênero masculino, ele tinha a imagem doce e bela que os homens tanto admiram e necessitam. E seu nome era...

Óh desculpe-me, infelizmente não posso. Por dever de ofício, e respeito à condição civil da ilustre dama, não posso declinar o seu nome. Posso, entretanto, afirmar que está gravado em meu coração. E ali permanecerá até que este pobre e desvalido coração vire, como diria Dos Anjos, banquete de vermes e baratas à luz de velas.

Certamente o leitor se veria livre destas linhas mal traçadas que a curiosidade ociosa o leva a percorrer, porque este cronista, estaria agora, exatamente às 13 e 26 da tarde, desta segunda-feira, 04 de outubro, entretido entre livros e relatórios contábeis, ou audiências públicas e tramites processuais, em um escritório ou perante o mui douto meritíssimo doutor juiz, não houvesse surgido esse senhor, digo essa dama, em sua vida há exatamente 22 anos, ou seja, o ano ao qual me refiro como o atento leitor já deve ter compreendido. Ela o trouxe de volta ao mundo. E o fez compreender que mais vale um coração tranqüilo que uma mente afortunada. Ela, que, para este cronista, atende simplesmente pelo nome de Amor. Esse senhor bonito, envolvente, de nome pequeno e difícil de ser pronunciado; avassalador e que destrói tudo por onde passa.

Entendeste né? Espero que sim.

*Texto publicado na edição No. 63 do Jornal Cidade Livre.
Foto ilustrativa: Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em cena do filme Casablanca (1942) de Michael Curtiz.