quarta-feira, 6 de outubro de 2010

É PRA ACABAR

Pra início de conversa, o Bahia foi campeão brasileiro naquele ano. Muita coisa aconteceu naquele ano que passou despercebida aos olhos da maioria das pessoas. Coisas importantes, você sabia? Muito importante. Não estou me referindo ao Bahia, evidentemente. Também não desejo mencionar o fato de que naquele ano assisti a Rain Man, com outros 6 ou 5 ou 4 eu não me lembro bem, espectadores, no extinto Cine Excelsior.

Por falar nisso, devo confessar: nunca sei se a grafia de espectador é realmente com “s” de sapo ou “x” de expectorante. E se extinto, é mesmo com “x” de x-miséria ou será com “s” mesmo, de mesmo. Entendeste né?

Ah! Que isso importa às 3 da manhã? Se ninguém sabe, ou não se lembra, eu não sei, eu... – espera aí vou tomar um golinho – sim, melhor agora. Pois bem. Eu dizia que nunca sei ao certo o que eu dizia. É isso, não? Diga-me que sim espelho!

Mas acontece que na verdade, naquele ano, foi naquele ano que as coisas mudaram. Sim, as coisas mudaram. Se eu tivesse 20 anos, eu escreveria que foi naquele ano que conheci aquele senhor bonito, envolvente, de nome pequeno e difícil de ser pronunciado; aquele senhor avassalador, que destrói tudo por onde passa. Mas aos 40 anos, eu escrevo sem nenhuma cerimônia que foi naquele ano que as coisas mudaram.

Porque as coisas evidentemente mudam. Eu percebo isso toda vez que olho no espelho a cada manhã.

Até de nome a gente muda. Abrevia o nome, exclui o prenome. Só ontem fui descobrir que meu último nome não é nome. Significa apenas: o mais novo. Mas acontece que ninguém me chama de: Oh, Mais Novo, por favor, quer pagar o que me deve? É mesmo muito cabuloso ser cobrado assim, na rua, com tanta veemência e nenhuma cortesia, enquanto os carros descem a Avenida 1 e sobem a Rua 8 em pleno meio-dia, aquela infinidade maldita de carros, naquelas ruas e avenida feitas para charrete.

O finado Oscar, amigo de longa data, dizia: Pode o homem perder tudo, até a dignidade, menos a pose. Do que se depreende que nenhuma vergonha leva o sujeito a passar fome, sentir dor, ser humilhado pelo tempo e as circunstâncias a cada instante, desde que se tenha um sorriso cínico e um olhar de altivez no rosto.

Naquele ano, ao qual me refiro... Tá lembrado né? Bem, naquele ano, Cazuza, o poeta, já estava doente. Senna seria campeão mundial, às tais horas e tantos minutos do dia tal, mês tanto, e ano qual, como fiz questão de anotar em uma das minhas agendas. Minha mãe ainda arrastava por este mundo, seu corpo frágil e carcomido. E a fortaleza Papai ainda não havia sido tomada pelo cupim da família. Eu ainda conversava com meus irmãos (não me faça rir), eu tinha amigos (alguns, como sempre), e meu mundo, devo dizer sem nenhum constrangimento era bem maior do que as quatro paredes de um quarto pintado de rosa e que agora me sufocam enquanto escrevo estas linhas. A DT 125, preta, era a moto que eu sonhava ter. E “Sob o Manto da Noite” era o livro que eu sonhava escrever. Escrevi. Vinte anos depois. Nada mal. Agora, sonho publicá-lo. Mais 20 anos. Tarefa para os herdeiros.

Mas volto a falar daquele senhor que conheci naquele ano que você, esperto e inteligente que é, estimado, digo, finado leitor, sabe do qual estou falando. Todo mundo, por exemplo, falava da perestroika da titia velha ou da vizinha, que logo faria cair o muro do alemão.

E em 5 de outubro daquele ano ao qual me refiro desde o início dessa nossa conversa, o doutor Ulisses, o rio-clarense (tá bom, me rendo aos súditos) o rio-clarense Doutor Ulisses Guimarães, diante de um plenário lotado do Congresso Nacional, disse: “Declaro promulgada o documento da liberdade, da dignidade, da democracia, da justiça social do Brasil”. E concluiu com a profética e assustadora frase: “Que Deus nos ajude que isso se cumpra”. Sabia ele da dificuldade de incutir valores sociais e democráticos, lei e ordem, na consciência de uma nação parida pela covardia e os interesses escusos de nobres arruinados e contaminada, desde seus primeiros dias, pelo vírus letal da corrupção como nos revelam Eduardo Bueno e Laurentino Gomes.

Mas volto a falar daquele outro senhor que conheci naquele ano. Embora pertencesse ao gênero masculino, ele tinha a imagem doce e bela que os homens tanto admiram e necessitam. E seu nome era...

Óh desculpe-me, infelizmente não posso. Por dever de ofício, e respeito à condição civil da ilustre dama, não posso declinar o seu nome. Posso, entretanto, afirmar que está gravado em meu coração. E ali permanecerá até que este pobre e desvalido coração vire, como diria Dos Anjos, banquete de vermes e baratas à luz de velas.

Certamente o leitor se veria livre destas linhas mal traçadas que a curiosidade ociosa o leva a percorrer, porque este cronista, estaria agora, exatamente às 13 e 26 da tarde, desta segunda-feira, 04 de outubro, entretido entre livros e relatórios contábeis, ou audiências públicas e tramites processuais, em um escritório ou perante o mui douto meritíssimo doutor juiz, não houvesse surgido esse senhor, digo essa dama, em sua vida há exatamente 22 anos, ou seja, o ano ao qual me refiro como o atento leitor já deve ter compreendido. Ela o trouxe de volta ao mundo. E o fez compreender que mais vale um coração tranqüilo que uma mente afortunada. Ela, que, para este cronista, atende simplesmente pelo nome de Amor. Esse senhor bonito, envolvente, de nome pequeno e difícil de ser pronunciado; avassalador e que destrói tudo por onde passa.

Entendeste né? Espero que sim.

*Texto publicado na edição No. 63 do Jornal Cidade Livre.
Foto ilustrativa: Humphrey Bogart e Ingrid Bergman em cena do filme Casablanca (1942) de Michael Curtiz.

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