sábado, 9 de outubro de 2010

OUTUBRO NEGRO

Atualmente, fanáticos religiosos, desprovidos de mínima coerência e racionalidade, acreditam queimar espíritos maus, na verdade espíritos ignorantes, desinformados e ludibriados que, em troca de alguma vantagem, atormentam a vida de encarnados, por sinal, nenhum pouco santinhos, como se imaginam.

O assunto merece reflexão se considerarmos que, no século XIX, queimavam-se, apenas livros. Em Barcelona, em 09 de outubro de 1861, cerca de 300 livros com temática espírita foram queimados, em praça pública, por ordem e graça do Bispo de Sevilha, episódio que passou à história como o Auto-de-fé de Barcelona.

Eram 10 e 30 da manhã, quando se deu o fato, na presença de, além do Bispo, um padre, um notário, um escrevente, e três funcionários da alfândega (onde os livros foram apreendidos), acompanhados de uma pequena multidão, que, para o desgosto de sua Eminência vaiava a todos estes, aos gritos de “Abaixo a Inquisição”.

O tiro saiu pela culatra, porque tal estupidez acabou despertando um interesse ainda maior das pessoas pelos assuntos espíritas dos quais tratavam os livros.

Sobre o episódio merece registro o livro Auto-de-fé de Barcelona de Florentino Barrera, onde é possível encontrar a citação do poeta alemão Henrich Heine de que “Onde se queimam livros acabam se queimando homens”. Caso da Espanha, em cujo solo se verificou cenas dramáticas e repugnantes ao tempo da Inquisição durante a Idade Média.

A Espanha, por sinal, é um país bonito, de cultura milenar, e que herdou à humanidade gênios das artes como Goya, Picasso e Cervantes, mas parece ter a sina de protagonizar aberrações como, por exemplo, as touradas, onde animais ingênuos são sacrificados sob os olhares do público extasiado, e, ainda, a festa de San Firmino, em que embriagados correm pelas ruas de Pamplona, perseguidos por touros ensandecidos, não porque esta seja a natureza animal – dos touros – mas, porque foram induzidos pela ignorância humana a se comportarem assim.

Episódio semelhante ao grotesco Auto-de-fé de Barcelona seria protagonizado na Alemanha, por Adolf Hitler, que, motivado pela insensatez que lhe era peculiar, mandou acender uma fogueira de livros, em Berlim, numa tentativa de, talvez, demonstrar a soberania intelectual da raça ariana.

Também merece registro o incêndio, que causara a destruição da Biblioteca de Alexandria, criada por Ptolomeu Sóter, comandante do Egito, após a morte, em 323 a.C, de Alexandre, o Grande. É conhecido um texto do dramaturgo e poeta alemão Berthold Brecht, intitulado “A Queima dos Livros”, onde ele escreve sobre um autor que vendo vários livros serem empilhados para formar uma fogueira, descobre que entre os quais não se encontre os seus e assim se exprime indignado, conforme a tradução de Paulo César de Souza: “Queimem-me! Não me façam uma coisa dessas. Não me deixem de lado. Eu não relatei sempre a verdade em meus livros? E agora me tratam como um mentiroso! Eu lhes ordeno: Queimem-me!”

Como se percebe, a humanidade parece viver atormentada por demônios de toda espécie, mesmo que na forma de livros. Mas os livros existem para esclarecer as mentes e não o contrário. O triste episódio do Auto-de-fé de Barcelona demonstra isso. Hoje, os livros com temática espírita estão entre os mais procurados e lidos e servem como base para obras cinematográficas de grande repercussão.

* Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, na edição de 09/10/2010, à pág.2.

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