quinta-feira, 18 de novembro de 2010

AS ALMAS NUAS DE MODIGLIANI

Há dois tipos de artistas: Os que são artistas e os que são geniais artistas. Há dois tipos de injustiça que se comete contra os geniais artistas, uma vez que são eles que permanecem na história. Cobrar-lhes coerência quanto às suas convicções, seu trabalho e sua opção política, religiosa ou mesmo a ausência destas. E, ainda, buscar em sua condição humana a perfeição encontrada na arte que produzem.

Não por acaso, é raríssimo encontrar felicidade nas pessoas inteligentes. A frase é atribuída ao escritor Ernest Hemingway, ele também, inteligente, incompreendido e infeliz. Sabia do que estava falando.

Por sua vez, Amedeo Modigliani (Livorno/ITA 1884 – Paris/FRA 1920) também sabia ao afirmar que “quando conhecer sua alma pintarei seus olhos”.

De fato, a forma, a condição, a aparência humana apenas exprime, traduz, reflete, como queiram, a alma, do que ela é feita, como é, como se sente, se chora ou se ri, em que acredita ou desacredita. Porque a alma tem vida. E a vida é de fato a alma. O corpo é apenas expressão desta vida.

Note-se que Modigliani compreendia bem isso. E era um amante inveterado, viciado em haxixe, alcoólatra, e gênio da pintura.

Um iluminado depravado. Tal contradição é insuportável para os que não entendem nada da arte da vida. Porque viver é também uma arte. É a Arte Real, em sua pura essência, de modo que pintar um quadro, escrever um romance, elaborar um poema, ou muitos, não é senão pincelar e rabiscar um instante que se eterniza da arte de viver. Que será admirado por muitos e odiado por outros, e passará indiferente aos olhos e ao coração da maioria.

Intolerável também para alguns é a certeza de que nem todos podem ser artistas e outros muito menos podem ser geniais. Porque se todos o fossem não haveria a platéia, a crítica e o artista e a arte perderia o sentido. Os sinos dobram para todos, sim, mas quem os coloca em movimento são apenas os que sabem chegar até ele.

Se não amasse como amou, se não vivesse como viveu, Modigliani não teria sido o artista que foi. Porque só se é capaz de mudar a vida quando se aceita a pagar o preço que isso exige.

Talvez por esse motivo, o Maior dentre todos morreu pendurado em uma cruz sob o olhar indiferente daqueles que deveriam amá-lo e agradecê-lo. Morreu assim, talvez, para demonstrar que nesta vida e neste mundo não há vitória possível sem dor e sofrimento. A vida exige esforço, dedicação e respeito para consigo e para com o semelhante. A genialidade exige sacrifício e renúncia. E justamente essa disposição, essa aceitação é que faz diferença entre uns e outros.

Modigliani já nasceu humilhado devido à perseguição sofrida por sua família de origem judia e arruinada em dívidas. E, enquanto criança viveu sérios problemas de saúde, dentre eles, tifo, pleurisia e tuberculose que o acompanharia a vida toda, e essa foi uma das razões para que a família se mudasse para Paris, onde o filho poderia ser mais bem tratado. O menino Amedeo já fazia desenhos e pinturas desde muito cedo, o que demonstraria o seu talento nato adquirido em existências anteriores. Ou alguém ainda acredita na história do aqui começa aqui termina?
Todavia, o menino cresceu, e a necessidade de pintar era maior que a de ganhar dinheiro com a pintura. Uma tela de Modigliani custava a vender,  apesar de todos os esforços de seu marchand, o poeta polonês Leopold Zborowski. Recentemente, “A Bela Romana” óleo sobre tela de 1917 de sua autoria, foi arrematada em Nova York por US$68 milhões, superando uma anterior, cujo preço alcançou as cifras de US$43 milhões. Mais uma demonstração de que os artistas de gênio estão sempre à frente do seu tempo. Oportuno lembrar que por ocasião da 1ª. Guerra mundial (1914-1918), a cidade de Paris, na França reuniu no bairro de Montparnasse, o que havia de melhor e mais interessante na cena cultural e artística do mundo no século XX. Ali estavam Modigliani, Picasso, Utrillo, Kisling, Miró, dentre outros da pintura, assim como, da Literatura, nomes como Joyce, Cocteau, Pound, Breton, Hemingway, o casal Zelda e Scott Fitzgerald e um tal Valentin Louis, mais conhecido como Marcel Proust.

Esperar que pessoas assim tivessem uma vida normal é perda de tempo. Porque elas amam mais do que podem e vivem para a arte mais do que devem. Modigliani não foi diferente. Amou Jeanne Hébuterne, sua musa inspiradora que, ao se dar conta de que ele jamais seria como ela sonhava e como exigia a sociedade da época, o aceitou como de fato ele era. E mais do que ninguém desejou que ele fosse feliz ao seu lado; fosse um vitorioso como, por exemplo, Picasso. Mas o espanhol não ia além do que seus olhos podiam ver. Modigliani, sim. Por isso, pintava almas. Nuas.

*Publicado no Jornal Cidade Livre, edição 77, no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 28/11/2010 e no site http://www.autores.com.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário