domingo, 14 de novembro de 2010

CONFESSIONÁRIO

Não há colorido em minhas lembranças. Há o cinza, o opaco, o sépia, o transparente. Há o que não se vê embora se sinta, e por essa razão, atormenta. É como a dor contida da qual se busca fugir, em desespero, pelas ruas molhadas de chuva e de sangue, entre mortalhas, escombros e esperança destruída. Minha vida é uma aspiração interrompida no engano de que são feitos os sonhos. É um adágio de Albinoni ao cair da noite.

Do apartamento onde morrera Verlaine eu vi os alemães desfilarem. Seus rostos pintados de palidez, seu destemor e arrogância saltando dos olhos. Minha mente está cansada e meu espírito anseia por liberdade. Não me pergunte meu nome. Que importam os nomes? Os nomes se perdem na comunhão de indiferenças de que é feito a última morada o merecido descanso, seja ele Père Lachaise ou o Batistinha.

Já não perco mais as minhas noites de sono a me perguntar se não conheci nada nesta vida que não seja as letras e os livros. Desisti da ideia que durante muito tempo me convenceu de que de fato não existo porque não sou único, todavia, muitos, espalhados na dor, na revolta, no inconformismo e na súplica sufocada das muitas vidas com as quais me deparei, e de tantas outras que vieram me visitar e acabaram ficando. Dê-se a elas o nome que quiserem. Eu as chamo de personagens. Sou aquele que viveu da arte e nela se perdeu. O italiano, o francês, o judeu, o americano e o português... o búlgaro. Sou todos eles, cada um a seu tempo. Hoje, neste país do Cruzeiro não sou nada. Desci da montanha que muitos chamam de orgulho. Vim buscar o que nunca tive dentro de mim: o amor à vida e o devido valor das coisas que realmente importam porque são verdadeiras e eternas, as únicas, as virtudes morais. Sou como um afresco de Michelangelo descolado do teto. Caído no chão e pisado pela indiferença daqueles que outrora o admiravam. E o amavam. Sou Jean que veio a procura do seu dia de liberdade. Alma miserável, que um dia se acreditou bonita e perfumada. Ainda que, de fato, por alguns momentos, alguns, tenha sido.

*Trecho de Bem-Vindo ao Clube, romance deste autor em fase de revisão. (Todos os direitos reservados ao autor).

Um comentário: