terça-feira, 23 de novembro de 2010

ETAPAS

Hoje acordei abraçado a uma convicção: pretendo dedicar-me mais àquilo que a Literatura pode de melhor oferecer: a leitura.

É que não tive tempo para isso durante todos esses anos, o que, aliás, considero uma grande injustiça, porque nada mais prazeroso do que viajar nas páginas de um bom livro. Desculpe mas o adjetivo se faz indispensável mesmo àquele que, como este reles escrevinhador despreza a categoria.

Engraçado que, para alguns especialistas, pretensos doutores em Literatura, ler muito contribui para se tornar um bom escritor. Ousei desmenti-los. Adoro fazer isso. O tempo, implacável Juiz decidirá se atingi ao meu objetivo.

Busquei obstinadamente a rara habilidade de conduzir a pena desde os meus 17 anos, desde que os miseráveis de Hugo e os crimes e castigos de Dostoievski fez estragos irremediáveis no pouco que restava de minha responsabilidade perante a vida.

Não há de se embrenhar pelo deserto ou pela floresta negra sem ao menos uma bússola. Quem disse isso? Eu. Claro, se ninguém já o dissera antes. Esta máxima é válida ao menos para aqueles que tenham vocação para o suicídio involuntário. E o norte que tal bússola oferece eu encontrei na técnica da qual o jornalismo se utiliza.

Saber, portanto, fazer a mira, apertar o gatilho e acertar o alvo me permitiu matar algumas codorninhas e estas me serviram de repasto durante minha juventude. Mas tudo, e mesmo a ousadia, a coragem e a vontade irresponsavelmente maravilhosa de provocar também. Então, aos 20 anos, eu percebi que precisava me afastar do jornalismo se quisesse mesmo ser um bom escritor que é alguma coisa completamente diferente de ser capaz de escrever bem. Às vezes me arrependo pela escolha que fiz. Podia hoje ganhar uns trocos bem mais generosos do que os que ganho atualmente.

Bem, devo admitir. Vou precisar de pelo menos mais uma dúzia de encarnações como esta para enfim conseguir ser um bom escritor. Daqueles que realmente fazem diferença entre os tantos que há por aí, por toda parte, e pra não exagerar, a cada centímetro quadrado de existência humana.

Tentei sim aceitar que as coisas podem ter o mesmo valor a partir de determinada época da vida. Mas, em verdade, isso não acontece. O tempo passa para todos. Para quem está na platéia o tempo até pode nunca passar. Mas o artista sabe quando a personagem e a mentira da qual vive passa a pesar sobre seus ombros.

Quando se senta à frente da tela de um computador e ao invés de se sair escrevendo o que vem à mente se pergunta: Por quê? É sinal de que a coisa toda não funciona mais como deveria.

Mas, por ora ainda funciona. Não a pleno vapor. Lentamente. Com a décima parte da sua potencialidade.

A Literatura é uma dama mundana parida pela mentira. E descobre-se com o tempo que ela é capaz de operar dois milagres em nossas vidas: a alegria por conhecê-la e a satisfação por abandoná-la. Fui agraciado com a primeira. Acabo ainda me convencendo da segunda.

O engraçado é que para ser admitido ao clube eu precisei consumir milhares de horas, dias e páginas, das quais restaram 97 e é onde está tudo aquilo que eu pretendia dizer. Acabo de receber o telegrama que traz a notícia há muito esperada por mim: Bem-Vindo ao Clube.


“A única coisa que justifica a existência humana é a capacidade que todos têm, ainda que adormecida, de transformar ódio em amor”. – J. Costa Jr.

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