domingo, 7 de novembro de 2010

SETE DIAS SEM VER A CONCHETTA

Os jornais anunciam: País perde 56 bilhões de reais por ano com má gestão dos recursos da educação. Outra: MEC aplica Enem com erros no cartão de resposta e perguntas repetidas. Pois é, não temos o que comemorar embora as estatísticas, as planilhas, os números, ah os números, nos desminta. Nada pode haver de pior que esse terrível diagnóstico. Não pode? Pode sim: “A livre expressão está sob ataque”, palavras de Alejandro Aguirre, presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa. Em entrevista, ele comenta sobre a morte de 123 jornalistas ocorridas este ano em países que não estão em guerra. Sobre a tentativa de controlar o trabalho da imprensa no Brasil, ele repudia a ideia e sugere que para corrigir os erros da imprensa é preciso mais liberdade e não mais controle do governo.

Como se vê, não demora e daqui algum tempo o que restará para os Costa e os Mariones da vida é escrever coisas assim: batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, o Juninho quando dorme põe a mão no coração. Ou melhor: eu te amo, a vida é bela, o mundo é lindo.

Bares e boates, botecos e afins, lá vamos nós. Feito Álvaro de Campos, passaremos nossas tardes, à sombra de uma parede, ao pé de uma porta que dá vista para o infinito. Olhar fito no horizonte poético, sentados à mesa e, acompanhados de um bom trago e um ótimo gole, a companhia agradável e insubstituível da solidão e do vento na cara, iremos buscar o inconformismo, a indignação e a revolta que nos move a vontade insana e doentia de escrever. A mesma que os patrulheiros ideológicos querem doutrinar e, quando se admitem incapazes (custa muito a eles fazê-los) querem reprimir e converter.

Aqui, banana pra vocês. Não me dobro. Tenho cara, RG. CPF, carteirinha do Círculo Operário, do Sinam, do Sudão (opa, SUS), que mais eu tenho? Ah, lembrei, algumas notas rotas de dois e de cinco, e parcas moedinhas escondidas nos bolsos furados das calças. Moedinhas de 5 e 10 cent’s que escorrem pelas pernas, feito aquela coisa nojenta e repugnante que acaba escapando no meio da noite quando fico mais de 7 dias sem ver a Conchetta.

Mais? Queres mais? Sim. Tenho uma usina de textos na mente pronto para serem gozados no papel, digo na tela, com o estilo jocoso, indigno, pejorativo e repudiado desse cronista maldito, aprendiz de poeta e fazedor de novelas jamais publicadas.

Devo, para a desgraça imaculada de Madeleusa aproveitar o tempo, porque tempo, jóia preciosa, é o que de menos tenho. Mônica sugere que vou até os 44, vencido finalmente pela hepatite e agora pelo diabetes. Má notícia, eu achava que iria até os 46. Mas talvez isso seja muito tempo considerando os presságios, as dores da carne, as decepções da alma. E o resultado do exame da próstata, leia-se e entenda-se: PSA, um tipo de exame de sangue que sai daqui alguns dias. Nada a temer. Tudo já estava no roteiro das encarnações compulsórias programada pelos insensíveis desafetos lá de cima, quando descemos, eu e a rempa que me acompanha a este inferno há 39 anos.

Acho que passarei a régua de vez na vida e nos sonhos, antes que alguém o faça por mim. A amiga Rosana informa em seu atencioso e-mail que os patrulheiros estrelados não satisfeitos com a Lei da Mordaça que apenas adormece nas gavetas palacianas do Planalto preparam para breve o despertar do monstro com sua cara bisonha, horrenda, seu fedor, e seus tentáculos. E, não satisfeitos, preparam mais uma: querem restringir o uso dos Blogs. Oh, cambada, como se isto fosse possível. Passem o ferrolho nessa porta, seus idiotas fantasiados de intelligentsia e, outras portas serão abertas porque não sei se já lhes disseram, mas, com o advento da Internet já não há mais como reprimir a liberdade de expressão como querem vossas sabedorias.

Este país tá ficando muito chato e se as partes não fumarem logo o cachimbo da paz caminhamos para nos tornamos um Irã mais cedo do que nosso profeta que se despede do poder gostaria ou imagina. Ao invés de nos unirmos estamos nos dividindo. Criando um abismo que separa: de um lado, os que acreditam em valores universais como o pensamento livre, a liberdade de ideias e opiniões que, admitamos, são expressadas, mas jamais consideradas. E de outro lado, a turma do Poder, cada vez maior e mais desprovida de humildade e lucidez, para o qual, fora da cartilha pregada por eles não há salvação. Fundamentalismo religioso, ainda não se vê. Mas, fundamentalismo político, é para onde se caminha. E isso é repugnante e temerário.

Vamos ver em que vai dar a coisa. Mas, adianto, se eu for obrigado desenterrar do porão o velho mimeógrafo não hesitarei em fazê-lo. Ou vou lá tirar os meus xérox com a Claudinha. Sem minhas ideias que na verdade não são minhas, mas de muitos que não tem coragem nem estímulo para aproveitar um espaço como este, a meia dúzia de fiéis leitores que me prestigiam não ficarão sem tais delícias gozopopéias. Prometo. Ainda tô muito novo pra ler Ubaldo. Vou continuar escrevendo. Mais um pouco. Um pouco menos. Mas, sempre escrevendo.

Pra encerrar o papo porque já são 5 da manhã, os galos cantam e os olhos ardem, lembro-lhes que há duas maneiras de se fazer Literatura: Uma é escrever para os leitores de sua geração, para os críticos da próxima e para os historiadores de todo sempre, como dizia o finado Scott. A outra é escrever para o patrão. Exatamente por isso, há duas maneiras de se fazer jornal: uma, é fazendo jornalismo. A outra é redigir, fotografar, noticiar, informar e opinar. Para quem? Sabes a resposta.



* Texto publicado na edição No. 73 do Jornal Cidade Livre

2 comentários:

  1. Olá, J.!
    Passei para agradecer a visita ao meu blog e descobri opiniões em comum... Gostei muito do seu blog e já sou seguidora.
    Abraço.

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  2. Pois é, meu amigo !
    "Que as nuvens escuras, sejam nuvens passageiras"
    Abraços

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