terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Adeus, Primavera

Sonhei com Allen Ginsberg lendo Howl para um bando de babacas abarrotando-se em um auditório. Acordei vomitando. Nada mal. Vera Fischer quase me levou ao suicídio dia desses. Descobri que ela já escreveu 10 livros. Dez? Sim. Mais do que eu. Não aceito.
Decepções. Tem sido rotina por esses dias de meu deus.
“I saw the best minds of my generation destroyed by madness, starving hysterical naked...” - Assim o guru Allen começa o seu célebre poema marco da Contracultura que, por sinal completa se não errei nos cálculos 50 anos. A tradução de Howl? Procurem-na. Mas lhes darei uma colher de chá, finados leitores. Diz mais ou menos o seguinte: Eu vi os melhores da minha geração destruídos pela loucura, famigerados, histéricos, nus, perdendo-se na aurora pelas ruas dos negros buscando uma dose violenta. Encontraram-na certamente. Afinal, busque e acharás. Vale pra todos. Ginsberg, menino oprimido dominado por estranhos, segundo o Google. Não assino embaixo. Não porque desconfio de tudo e de todos. Mas é que simplesmente não faz o tipo. Alguém consegue imaginar um menino debaixo daquele barbão, aqueles olhos ensandecidos de tão introspectivos, tímidos, inquisidores. Por Deus, o que não faz um par de óculos! Allen serviu-me de consolo, dia desses. Nem tanto por seu Howl, mas por seu barrigão. O meu não chega à mesma proporção, mas está a caminho. Pensei que se talvez voltasse aos bons e velhos Hollywood a coisa poderia mudar de ares e eu voltaria a aparentar aquela figura esbelta, esguia, espadaúda que mui bem combina com o par de olhos azuis tão cobiçados pela concorrência e o andar desleixado como quem vai adiante sem jamais ter desejado o primeiro passo. 
Gogol, Dostoiévski e Tolstói formam a trindade avassaladora da literatura russa. Sabiam? Eu também não. Aprendi dia desses. E não estava lendo jornal. Embora estivesse sentado no vaso. Gogol era o mais divertido. Lembrei-me dos finados porque estou lendo pela ducentésima qüinquagésima vez as agruras do Sr. Raskolnikóv (deve ter um “h” no meio disso tudo). Aquela parte sabe em que, logo no início ele vai tomar dinheiro emprestado da velha imunda e rabugenta. Rublo e meio. O preço do pecado. Do ódio contido. Aprendi com Fiódor, amigo umbralino de longa data a dizer eu odeio às pessoas com outras palavras. A esmurrá-las com afagos literários, a demonstrar-lhes com lirismos poéticos o quanto me são insignificantes e inoportunas em minha vida.
Não entregue tudo mastigadinho ao leitor, faça-o pensar e inquirir. O leitor deve odiar o autor, pra que a coisa faça sentido. Primeira lição de Química. Leiam as primeiras páginas das aventuras de Bandini e saberão do que estou falando. Se existe um papel social destinado ao escritor é o de promover escândalos. Perdoe-me Monsieur Dennis, perdoe-me o Esteta, perdoe-me Massenet. Entre suas teorias sublimes e o inferno de Dante eu fico com a poesia. E enfio pé na bunda bem dado em todos vocês.
Mas a coisa está ficando mesmo muito chata. A poesia saiu do papel e se perdeu na performance, no visual, no abstrato. A alma da poesia é a letra, o sangue é a força da palavra que ela contém. Que pulsa nas veias e oxigena o cérebro e faz viver. Entreguem-se aos demônios se querem escrever. Os anjos não conhecem o Inferno. Há de se pagar um preço pela ousadia da aventura humana. Há de se entregar a vida ao mármore se o que se busca é a verdade. Não aquela que está impregnada no papel, mas a que se agita na alma, no subconsciente, e aspira vida de carne e osso; aspira aplauso da platéia, formada por aqueles que querem, mas não podem ser. Uns, porque não tem coragem. Outros, porque simplesmente não são capazes. Outros ainda, porque não nasceram para isso. Batam palmas, por favor. O gelo derrete em meio a duas medidas do bom scotch. As costas doem e a cabeça gira, a respiração falta, os remédios acabaram e os demônios aqui estão. Outra vez. São persistentes. Olá, senhores, sejam bem-vindos.
Vou levantar-me. E botar de novo o pé na estrada. Meu nome é Jack.

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