terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CORREDOR

Para que a vida faça sentido é preciso ter saudade. Não sei por qual razão pensei justamente nisto quando arranquei do carro da máquina de escrever a última lauda daquela noite.
O dia passara sem que o telefone houvesse tocado uma única vez. Estranho. Não deveria ser assim. As pessoas que escrevem contos não se lembram desse detalhe. Qual? Mais adiante. Espere. Pague pra ver.
Geralmente ocorre quando se atravessa o corredor, até o fim e se depara com o espelho de moldura colorida. O final do caminho, surpresa, é você mesmo. Você começa e termina em você. Alguns chamam a isto de vida. Outros chamam de faca, cama e mesa. Só depende de quantos anos se tem. A quantidade de passos não importa. Ao final do corredor a conta não fecha e os passos não conferem, e a sensação é exatamente igual àquela do início da jornada.
Difícil? Não mais do que ler Malone Morre depois de Dostoiévski. Fica aquela sensação de vazio inabitável, vontade de quebrar o espelho, porque, afinal, tem-se a certeza de que alguma coisa existe atrás do espelho.  Alguma coisa. Parede, geralmente.
E elas me perseguem as paredes. Tão altas e tão extensas que já se tornaram muros de Jerusalém. E eu, Saladino, os encontro à noite, quando vou me deitar tentando dormir, e pela manhã, ao despertar, olhar moribundo, espírito atormentado a carregar nas costas um saco de carne e ossos e alguma porção de massa etérea cinzenta comumente conhecida como mente.
Lá estão os muros. Pichados como sempre. Frases de efeito moral. Ótimas para um escritor: 1) Você tudo pode. 2) Desde que seja diante desta máquina de escrever, e dentro da sua mente. 3) Você nada pode além destes muros. 4)Você pode ser todos que quiser ser, até a ponta dos seus dedos que coloca o teclado em movimento. 5) E nenhum, e ninguém, além destes muros.
Porque eles são os bons, os corretos, os que vestem sabedoria  e não me refiro aos muros. Cheios de pose, exímios esgrimistas na modalidade: técnicas de persuasão. Você não. Tem apenas o seu olhar. Quieto, imóvel, atento. Um olhar. Envolvido pelo silêncio eterno e imutável que provoca certo desconforto naqueles que, em cima do muro, disfarçados de amigos cordiais e benevolentes resolvem expiá-lo. Porque o consideram um ser estranho, hostil e, portanto, curioso e interessante para ser detalhadamente observado com ares de cobiça e inveja.
E eles o imaginam um ser inteligente. Consideram-no anjo. E se perdem na ternura do seu olhar quando ousam observá-lo à distância. Não sabem e sequer imaginam, por exemplo, quantos nomes você tem. Um para cada dia da semana. Um para acender o cigarro. E outro para sorver o gole do veneno prazeroso que mata pouco a pouco envolvido em dois cubos de gelo. Dois. Não mais.
Então já amanhece o dia. E se o caminho que o leva ao final do corredor já terminou resta-lhe outro. É feito de chão batido, alguns pedregulhos, coberto de primaveras mortas e folhas secas. Galhos e troncos de árvores, caídos e levados pela chuva a alguma distância, que você imagina percorrer, só, com o teu olhar sereno, quieto e imutável, porque lhe faltam pernas e vontade. E esperança. Imaginou que pudesse encontrá-la ao arrancar a última lauda da noite do carro da máquina de escrever. Mas, se havia se tornou cinzas com o toco do cigarro que o tempo consome sobre o cinzeiro. Onde seu olhar se perde, e suas esperanças agora são depositadas, como um cadáver baixado à sepultura.
É Natal e o que isso importa? Você se esqueceu mais uma vez de comprar os presentes. Inclusive o do aniversariante. Havia dinheiro e cartões de crédito e débito na sua carteira, talão de cheque em um dos bolsos da calça. Havia. Só não havia aquilo que você agora a pouco transformara em cinzas, que o vento arranca da eternidade do seu olhar quieto e leva para longe. Longe. Feito você quando deu o primeiro passo por aquele corredor em direção ao espelho. Mesmo sabendo o que encontraria ao final da trajetória. Algo que já neste instante está desfeito em mil pedaços no chão, enquanto sua mão está coberta de sangue.
Você esquece-se dos muros que o cercam e coloca outra lauda, nova, no carro da máquina de escrever. E então começa a primeira linha, a primeira frase, a mais verdadeira possível. E a palavra que vem à tona e se repete vezes e mais vezes é: saudade. Faz sentido. Faz?

Texto publicado na edição No. 85 do Jornal Cidade Livre, em 21/12/2010.


Um comentário:

  1. Feliz Natal!!!
    Tudo de melhor que houver nesta vida para vc.
    Um abraço.
    Alessandra

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