domingo, 30 de janeiro de 2011

FICÇÕES

Escrevo por dinheiro. Um pouco de vaidade. Outro tanto de orgulho. E finalmente, pra vingar meu pai. E pra que um dia, minha filha possa dizer quem era o pai dela. Mesmo que ela continue a morar em uma cidade medíocre onde as pessoas, em pleno século XXI ainda lhe perguntam quem é você e não o que sabe fazer.
Daniel Dafoe disse que a necessidade transforma homens honestos em velhacos. A considerar Moll Flanders, o palhaço sabia exatamente o teor da graça.
Descobri o que significa a febre contínua e a urina cor de cana chupada cuspida na terra: infecção generalizada. Oh, glória, está no fim. Fiéis e abnegados meia dúzia de leitores, descansarei em paz. E vocês de mim. Brevemente. Isso não é mesmo maravilhoso!
Mas pretendo antes concluir a leitura do livro que conta a história do Tomáz Antonio Gonzaga, narrada por ele mesmo. Devo admitir. O cara era um afrescalhado. Não simpatizava com Tiradentes e morria de amores por uma tal Maria Dorotéia, mais conhecida nas cartas chilenas como Marília de Dirceu. Oh, quanta inspiração. Tomáz me faz recordar o Douglas, o primeiro travéco a se tornar popular por essas bandas de São João do ex-Ribeirão Claro. E que desfilava suas longas madeixas de Perla “índia seus cabelos” pela Rua 4 no sentido bairro centro, sempre ao final de tarde, pelos idos de 1970 e bolinhas. Douglas não era nenhuma Lea T., mas, segundo o porteiro do cine Tabajara dava pro gasto. Tomáz também tinha longas madeixas e olhar e mãos delicados. Por essas e outras, envergonha até hoje a grande dama do Oriente. Ele e seus amiguinhos comparsas conspiradores Paula Freire, Alvarenga, Mestre Lisboa e, meu mais ilustre ancestral o poeta: Claudio Manoel da Costa.
Lendo as confissões de Tomáz, aprendi que seu pai era coleguinha do polêmico Marques de Pombal. E que, entre suas amantes, Tomáz, vulgo Dirceu, possuía uma especial: Dejanira. Daí é que vêm a coisa então, irmãos? Dejanira, a meiga e fogosa negra escrava, sempre disposta a satisfazer aos caprichos e desejos do bode Dr. Tomáz, digo, Gonzaga. Tiveram uma filha: Dalva. Que não era estrela, mas já nasceu alforriada e recebeu instrução, o que naquele tempo, só era mesmo possível para alguém que tinha como pai um senhor doutor poeta de nome Tomáz, ainda que isso fosse um segredinho muito bem guardado entre as partes.
Se a febre não estourar o termômetro e meus miolos talvez eu atravesse as 380 páginas do tijolão, digo, livro. Estou na página cento e qualquer coisinha. Mas afinal de contas, porque cargas d’água alguém precisa consumir a paciência do leitor e trezentos, quatrocentos ou quinhentos tantas páginas para contar uma história. Gramática, senhores: Esta velha rabugenta, ao contrário de sua irmã de nome tão asqueroso quanto, trata de numeral e não de números.
Aderi ao Facebook, dia desses. Num piscar de olhos e eu tinha 53 novos amigos, que, juntados aos 2 ou 3 de até então... Ora, deixemos essa conta virtual pra lá. Engraçado que no Face todo mundo aparece com cara de alegre e se porta como se fosse o mais gente boa do mundo. Até a mentira tornou-se virtual. Adeus Dona Maróca da janela, a abelhuda da minha vizinha. Você está arruinada. Sua reputação foi para o saco de lixo que você coloca às escondidas no meu portão todos os dias. Pensa que não sei. Também entendo de janela. Câmera fotográfica. Luneta. E voyeurismo. É assim que se escreve isso? Mas não se iluda Maróca. Eu ainda fico com a Lu. 
Bem, minha amiga Rackel, do Autores.com, sugeriu dia desses, com aquela sua delicadeza fidalga, que eu ando escrevendo difícil. Engraçado, justo agora que parei de ler Kafka, Calvino, Bolaño... Bolaño é bom pra baixar a febre. Recomendo. Você fica na cama lendo 2666, fica lendo, lendo e lendo e não termina nunca e a febre desanima e vai embora. Trata-se, convenhamos de uma excelente estratégia.
Agora preciso arrumar mais ficções para ver se aquele maldito telefone para de tocar.
Mais ficções. Traga-me mais ficções Jorge Luis.
Quem? Ah, sim, Jorge Luis é o meu mordomo. Já está com a idade avançada, falta-lhe uma vista e agora deu pra ficar surdo. Quando lhe convém. Mordomos... Alguns se imaginam escritores.

Publicado na edição 93 do Jornal Cidade Livre
Fotos e ilustrações: Web 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O NOME DO AMOR

E já se vão duas semanas de janeiro do novo ano. Baixada a poeira da empolgação, revela-se o retrato em preto e branco da realidade. Hora de parar pra fazer as contas e se dar conta de quantas ficaram para trás, e quantas outras virão mais adiante. Contas. Vivemos em função delas nesse mundo modernoso, eletrônico, midiático, onde imagem é tudo. E conteúdo é zero. Ou quase.
Já reparou que todo começo de ano ocorre uma tragédia? É pra batizar com fogo o futuro que chegou? Ou será recadinho da natureza pro bicho homem: “Não me sujeito aos seus caprichos, Senhor Homem”.
Se é verdade que o calo do Armstrong pisou na lua e deixou impregnado o seu horrível chulé, as montanhas, algumas também conhecidas como serras, não se demonstram tão receptivas quanto a lua. Mas entre a fantasia da primeira e a realidade da segunda, há uma terrível distância e ela é feita de desabrigados, destroços, soterrados, órfãos, e uma multidão silenciosa que misturou suas lágrimas às chuvas que não desaparecem, preferem permanecer, à espreita, em densas e intermináveis e fantasmagóricas nuvens e pelos cantos do céu infinito, de onde vem a morte precedida por seu anjo, cuja foice, ceifou a alegria daquele povo bom de Teresópolis, Nova Friburgo e Petrópolis.
Se voltarão a sorrir aqueles homens e mulheres? Claro que sim. O sol também se levanta para todos, apesar da chuva. E depois dele, vem o arco-íris. Tudo passa. E talvez esse seja o grande barato da vida.
Pode se perder tudo, menos esperança. Quem a perde está morto. Ainda que veja, que ande e que respire.
De todas as derrotas que a vida nos impõe, sempre tiramos uma lição. A que fica desta terrível tragédia com o povo fluminense é de que o país precisa e muito, e para ontem, incrementar o programa habitacional implantado no governo Lula. Porque, exceto os bacanas que construíram nas serras ou ao pé delas suas luxuosas moradias de verão, a maioria das pessoas, lá construíram seus barracos, abrigos e moradias por absoluta falta de opção.
Também se desfez de vez aquele presunçoso mito de que o Brasil é um país onde não ocorrem tragédias coletivas em decorrência dos fenômenos da natureza. Ocorre, sim. E se bem observarmos, todos os anos. Vejamos se agora, as autoridades admitem o fato e tratem de elaborar e praticar ações preventivas que envolva toda a sociedade no intuito de que se não for possível evitar ao menos se amenize os efeitos de tragédias como esta.
É inadmissível que vultosos recursos da União empenhados para a prevenção de catástrofes não foram utilizados por absoluta falta de competência de municípios e estados, alguns dos quais, sequer foram capazes de elaborar projetos. Nada a estranhar, no caso específico dos municípios, quando se sabe que cargos técnicos são ocupados, em muitas ocasiões, por leigos despreparados, incapazes, portanto, de elaborarem trais projetos. Esse é o preço que se impõe ao cidadão pagar: o político mal-intencionado, metido a espertalhão, que vende a alma ao diabo pra ganhar eleição. Porque o sujeito, reza na velha e ultrapassada cartilha de que é preciso acomodar todo mundo na casa da mamãe, mais conhecida como governo.
Entretanto, em meio ao cenário de desolação, que em muito lembra as cidades arrasadas do pós-guerra na Europa, observa-se o espírito de solidariedade, que, por Deus do céu, não é privilégio do brasileiro, mas força motriz do sentimento humano, que desconhece nacionalidade.
A dor do vizinho é a dor de cada um. Porque se vive em sociedade, e se no dia a dia das atividades profissionais parecemos ilhas umas querendo engolir às outras, há, entretanto, algo que nos difere dos outros animais: a centelha de Deus que existe em nós, e que nos faz compreender e vivenciar o sofrimento alheio, e desejar que ele cesse.
O que faz um ser humano suportar horas, dias soterrado por escombros e a cara enfiada na lama, sem poder respirar, sem poder se mexer? O que faz outro ser humano ser arrastado por cerca de 4 quilômetros pela correnteza de um rio enfurecido, batendo durante o trajeto com a cabeça em pedras, até enroscar-se em algum detrito, no caso, uma pilha de telhas e tijolos de uma casa destruída? E, ainda assim, sobreviver. O quê, senão Deus?
Que cada um Lhe dê o nome que convenha. Inteligência suprema, força máxima, causa primária de todas as coisas. Eu, modestamente, o chamo de Amor.

Publicado na edição 91 do Jornal Cidade Livre e no Jornal Diário do Rio Claro de 29jan2011.
Fotos: Web

“Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um Novo Fim”. Chico Xavier

domingo, 9 de janeiro de 2011

PEQUENOS PERALTAS

Foi nos longínquos anos 70, época em que a televisão se tornou a opção de lazer mais acessível à maioria das pessoas, sobretudo, após o advento da TV em cores, que os desenhos animados, os programas de humor e os seriados, mostravam cenas de maldade, vingança e morte e maus hábitos e costumes, mas nem por isso os adolescentes saíam às ruas dando lampadada (se existe o termo) na cabeça dos outros. Não há registro até onde se sabe de algum adolescente que tenha se tornado assaltante ou criminoso porque assistia ao perverso Pica-Pau ou se deliciava com os “politicamente incorretos” Trapalhões. Não havia quem saísse destruindo o carro do pai ou da mãe, dando tiro em qualquer um que encontrasse pela frente, porque vira algo parecido nos seriados Bonanza, Starsky e Hutch ou no impagável Agente 86. Também não se soube até hoje que alguém se tornou maníaco sexual por apreciar as piadas de Ary Toledo, Costinha ou Barnabé.
E aquele era o período do regime militar no Brasil, em que o respeito às leis mais que preocupação, era obsessão, por parte das pessoas de bem. Havia ordem, embora não houvesse progresso, no aspecto social, principalmente.
Hoje, as coisas se inverteram. Há progresso social, mas não há respeito às leis, mas sempre a necessidade de interpretá-la conforme interesses próprios ou a busca por aproveitar-se das possíveis falhas das leis ou suas muitas contradições, nada a estranhar, em um país que tem código, estatuto, regulamento onde quer que se vá.
Entre os mais instruídos, os mais cultos, aqueles que ocupam alguma posição de destaque na sociedade, verifica-se a preocupação, mais que isso, obsessão em exercitar o famigerado politicamente correto, que, ao nosso ver, nada mais é que um belo tapete persa, sob o qual se esconde a hipocrisia dessa gente, para quem a imagem é tudo e franqueza deixou de ser virtude, para se tornar um comportamento inconveniente, senão intolerável.
Recentemente, no Brasil, um parecer do colegiado do Conselho Nacional de Educação (CNE) afirmou que o livro As Caçadas de Pedrinho tem conteúdo racista. Por sua vez, a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), através de nota técnica recomenda que o livro As Caçadas de Pedrinho só deve ser usado quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. O que, em outras palavras, é admitir que nem todos professores são preparados para tratar com seus alunos sobre o importante tema, o que é lamentável.
Mas a proeza vai além de nossas enormes fronteiras atlântica. Repete-se nos Estados Unidos. Justamente o país originário de duas significativas gerações da Literatura Universal. Uma delas a geração perdida, assim denominada pela poetisa Gertrude Stein (1874-1946 – Autobiografia de Alice B. Toklas) Esse grupo de escritores era formado por Sherwood Anderson, F. Scott Fitzgerald, Sinclair Lewis (Nobel de Literatura, 1930), Thorton Wilder e o mais famoso deles, Ernest Hemingway (Nobel, 1954). Vivendo na Europa, para onde foram após a 1ª. Guerra Mundial (1914-1918), eles romperam com suas raízes e o puritanismo dos autores compatriotas do século XIX.
A outra não menos significativa geração foi a dos adoráveis malucos que passaram a história como beatniks, em tradução livre: oprimido, rebaixado, espezinhado ou coisa que o valha. A turma de Jack Kerouac (On the Road), Allen Ginsberg (Howl), William Burroughs (Almoço Nu) e Lawrence Ferlinghetti (Coney Island of the Mind), buscavam inspiração no submundo da juventude inconformada de Nova York no final dos anos 40 e início dos 50, coincidentemente ou não um período também pós-guerra.
E não é que o eminente professor universitário Allan Gribben, achou por bem, dia desses, sugerir que a editora New South Books suprimisse da obra As Aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Mark Twain (1835-1910) as palavras “nigger” e “injun”, dois termos considerados vulgares que se referem a negros e índios, respectivamente, porque, segundo o professor, muito o incomodavam quando tinha que pronunciá-las diante de seus alunos.
Ou seja, não se considera o contexto histórico em que foram produzidas as mencionadas obras literárias do brasileiro Lobato e do norte-americano Twain. Esquecem que se trata de literatura de ficção, portanto, sem nenhum compromisso histórico, porque, em ficção, por mais que a realidade sirva de pano de fundo ou inspiração deve prevalecer o lúdico, a fantasia que é justamente o que espera encontrar o leitor quando, no silêncio do seu quarto ou da natureza, abre um livro.
É comum que acadêmicos e jornalistas especializados, professores, enfim, gente do meio literário que ganha dinheiro com literatura, o que, normalmente não é o caso do escritor, tratem do espinhoso tema da importância social da obra literária.
Pessoalmente, duvido que haja um maluco que se propõe a escrever um romance ou uma novela com objetivos sociais ou políticos. O que se pretende, quero acreditar, é contar uma história. Ou, em última instância, traduzir em palavras o que se sente ou o que não se sente, o que se deseja ou o que não se deseja e o que se vive ou o que não se vive, assim, feito Beckett.
Desfraldar a bandeira da ética, da moralidade, do famigerado politicamente correto na Literatura de ficção é querer ultrajá-la, suprimir-lhe a liberdade, destruí-la.
 Todavia, nos últimos anos, independentemente da Literatura de ficção, a violência se disseminou em todos os setores e classes sociais. O que explica esse fenômeno? Não é certamente os desenhos do Pica-Pau, as peripécias do Agente 86, as malcriações do Chaves ou as peraltices dos Pedrinhos e Huck Finn ou Tom Sawyer de Lobato e Twain.
É resposta que falta aos pedagogos, psicólogos, orientadores religiosos que, no desejo de justificar seus diplomas e salários, apresentam mais suposições que conclusões.
Tal resposta não cabe à Literatura de ficção.
É de se perguntar, sim, se a cultura e a arte, através das suas diversas formas de se expressar e as múltiplas mídias eletrônicas hoje disponíveis influencia no comportamento do adolescente, da mesma maneira como alguns especialistas em educação afirmam convictos.
Ou seria a falta de jeito dos pais e responsáveis em lidar com a forma de ser e vivenciar a liberdade da geração atual de adolescentes a resposta que se busca.
A ausência dos pais do convívio filial, por razões profissionais favorece também a ocorrência desse fenômeno. Os filhos, deliberadamente, já não buscam nos pais a referência para decidir entre o certo e o errado e nem escolher entre o que é bom e não é bom, o que pode e o que não pode. E se optam pelo que não convém não temem pelas conseqüências. 
Não se verifica atualmente por parte dos adolescentes, o devido respeito para com a figura importante e indispensável à sociedade do professor, da autoridade policial, judicial, religiosa, enfim. Respeitar não é temer. E talvez justamente aí esteja o fosso de incompreensão que separa uma coisa da outra. 
Naqueles anos de 1970, ao qual nos referimos no início desse artigo, o respeito às leis e às autoridades, dentre elas, a patriarcal e a maternal, se devia mais em razão do medo do que da razão.
Os adolescentes daquela época são agora os pais dos adolescentes de hoje. É natural que se preocupem em não transmitir aos filhos a mesma sensação de medo que experimentaram em seu tempo. Daí, talvez, a liberdade sem limites que proporcionam aos filhos e que vai desembocar na falta de respeito ao semelhante e em si mesmo. E na competitividade exacerbada, onde, para não ser derrotado não se admite o erro, esquecendo-se de que a derrota e o erro fazem parte da vida e é apenas o primeiro passo do acerto e da vitória. Somos imperfeitos, porque somos seres humanos, somos cúmplices, porque vivemos em sociedade, e, portanto, a paz começa onde reina a tolerância. E sob tal aspecto, os Pedrinhos, Hucks e Tom’s da vida nos ensinam muito mais que certas pessoas feitas de carne e ossos.

"Vamos agradecer aos idiotas não fosse por eles não faríamos tanto sucesso" - Mark Twain.

* Texto publicado em 09/01/2011 no site www.autores.com.br, onde recebeu até o momento mais de 180 acessos e 19 comentários elogiosos dos leitores e escritores participantes do site, oriundos das mais diversas regiões do país, e aos quais agradecemos e dedicamos este artigo. O mesmo texto foi rejeitado pela imprensa escrita de Rio Claro/SP, minha cidade, defensora pérpetua do moralismo, a serviço da igreja católica, sempre preocupada em manter as aparências e entusiasta do politicamente correto.

* Fotos e ilustrações: Web. 

domingo, 2 de janeiro de 2011

EU TE AMO, SOLIDÃO!

Eram três horas da tarde quando o homem, vindo da estação ferroviária, atravessou o passeio central do Jardim Público. Os camelôs já haviam desmontado suas barracas, os guardas civis se retirado e o comércio fechado as portas, porque o 31 de dezembro daquele ano já se aproximava dos seus estertores.  Todavia, ainda era possível observar algumas pessoas caminhando apressadas em direção ao terminal de ônibus que ocupava o mesmo local aonde em 1876 a primeira locomotiva a vapor chegara apitando e trazendo àquela população, esperança e progresso que o tempo, a mesquinharia dos mais abastados, a omissão dos mais cultos e a falta de caráter de algumas autoridades, ou quase todas, trataram de levar para longe feito poeira ao vento.
O homem pretendia se sentar no banco ao lado do engraxate, mesmo local ocupado todos os anos pela feira do livro espírita, da qual, fora voluntário por diversas ocasiões.
Parou diante do banco, desviou por um instante os olhos em direção à imagem de Diana Caçadora que, finalmente ganhara havia pouco tempo uma habitação digna, nada mais que um lago com pedras, algas e peixinhos coloridos.  
Imbuído da timidez que lhe era peculiar, procurou no bolso de trás da calça do seu bom terno azul marinho, o lenço com o qual limparia o assento do banco antes de sentar-se. Era um hábito que, como tantos outros ele herdara do pai.
E de maneira repentina, a figura do pai no leito de morte, ocupara-lhe a mente. Queria lembrar-se do pai como o conhecera: jovem, bonito e saudável, a estender-lhe a mão, numa certa manhã nublada, no quintal da casa onde moravam. Mas, essa, como tantas outras imagens do pai melhores e mais bonitas não conseguiam prevalecer em sua memória, porque declinavam irremediavelmente diante da lembrança do pai no leito de morte: grisalho, magro, olhos fundos, quase sempre fechados, barba por fazer de muitos dias, o corpo decrépito, nu, coberto por um lençol.
Súbito, o homem percebeu que não era o lenço o que havia tirado do bolso, mas, o resultado do exame que pegara no laboratório minutos antes. Aquele pedaço de papel era apenas a primeira página da história do resto dos seus dias.
Lembrava-se com certo desconforto quando o médico lhe dissera dias antes que tinha nove vezes mais possibilidades de manifestar igual doença que tornara o pai um sujeito forte, decidido e valente, em um ser humano frágil, indeciso, inválido e desacreditado pela família e a sociedade.
Mas não era isto o que lhe preocupava naquele momento. Era não saber onde estavam a sua mulher e filha desde que lhes contara sobre os resultados dos exames. Onde?
Estava casado havia 14 anos, mas pelo menos dez se faziam que a vida a dois se resumira em discutir os valores da pensão e o comportamento da menina, ora um doce de anjo, ora, um barril de revolta preste a explodir. Capaz de acreditar em todas as histórias, por mais descabidas que fossem, desde que contadas por um estranho. Mas, completamente descrente dos ensinamentos que os pais tentavam lhe transmitir.
Marido e mulher, pai e filha, vivendo em cumplicidade, mas sob tetos diferentes. Ele, sozinho, em um quarto, na verdade, um aposento, quiçá um esconderijo, nos fundos da livraria onde trabalhava há 24 anos. Desde os tempos em que passava suas noites acordado em busca de uma palavra, uma frase, uma página, acreditando que se a estratégia tivera êxito com Flaubert, consigo não seria diferente.
Sentado no banco do Jardim, o homem buscou com os olhos entre os galhos das árvores pelo bem-te-vi cujo trinado, anunciava o final de mais um dia.
O tucano que fizera ninho na copa de uma figueira abandonara o recinto quando ao retornar para a casa, após mais um esforço tremendo por ganhar o sustento do dia, não encontrara mais o filhote no ninho. Fora encontrá-lo no chão, pisoteado, prensado, ao lado de um banco, exatamente aquele do qual o homem agora se levantava.
Tolo. Não encontrou o pássaro e muito menos a esperança que o levara, aos 19 anos, atravessar noites acordado diante da máquina de escrever portátil que pertencia ao pai, em busca de uma frase, uma palavra, um verso algo que fizesse sentido, que valesse o esforço e a ousadia de abandonar a realidade para seguir o incerto caminho, geralmente cinza, sujo e interminável de que são feitos os sonhos.
Descrente, julgava-se incapaz de se ver livre da rotina a que se sujeitara. Enquanto amara os livros, o trabalho lhe despertara prazer e interesse. Aos 42 anos, um livro se lhe tornara apenas um objeto sem valor. Algo que algumas pessoas compram, mas não utilizam. Porque agora, enquanto admirava os halos de luz que atravessavam a copa da figueira, onde semanas atrás o tucano fizera um ninho, ele, o homem, compreendia finalmente que livro na estante é alma morta, e livro comprado, mas não lido, é profeta surdo e mudo, e cego.
Levara muitas primaveras para entender e aceitar o inverno de que é feito a vida daqueles que ousam abandonar a realidade. E daqueles que atravessam o mar de incertezas e fracassos, os algozes insaciáveis dos que sonham, imaginando algum dia encontrar terra firme.
Convencera-se ao final daquele ano que, num país de analfabetos funcionais ser um escritor é uma afronta à esperança que a vida concede ao insano que opta por esse caminho desde o seu primeiro contato com o mundo. Desafios sem limites: escrever, escrever bem, escrever algo que interesse conforme as pesquisas de mercado encomendadas pelas editoras, periodicamente, e ser publicado, aceito, vendido, rentável, à editora, é claro. E finalmente ser entendido e reconhecido. O que extrapola e insulta qualquer mínimo bom senso. Em um país de analfabetos funcionais, evidentemente. Onde bons escritores não escrevem porque não são publicados. Onde os bons livros custam 40, 50, 60 reais, o que equivale, segundo as contas feitas de cabeça por aquele homem sentado no banco, mais ou menos, umas vinte ou vinte e duas refeições. Quase um mês, descontados os finais de semana, com a barriga a não reclamar do vazio existencial a que é submetida pelos fracos de coração e de bolso, feito ele.
Sim, caro leitor. Não preste atenção às palavras ditas até agora. Devo apresentar-me: Sou o homem do banco. Do lenço, dos livros, do tucano e do bem-te-vi; do pai, velho e moribundo, e da esposa e filha que partiram sem dar notícias.
Ainda hoje volto a este lugar, onde, desejaria, houvessem sido atiradas as minhas cinzas. Mas a história da minha vida se resume a uma inscrição eternizada numa placa de bronze, acomodada no espaço reduzido de um gramado onde os gatos da vizinhança acham de fazer as suas necessidades. Eu que sempre amei os gatos.
A propósito, esta manhã, alguém colocou uma garrafa de Almadén sobre a placa de bronze onde meu nome está eternizado. Uma vela, também acompanha uma rosa, que ainda não desabrochou. Até parece a minha esperança, que sei existir, mas continua escondida em algum canto escuro do meu coração, sedenta por luz. Ela é tímida a minha esperança. Feito eu. Deseja conhecer a felicidade, mas tem medo dela.
Você deve agora se perguntar, porque esse sujeito esquisito resolveu se meter na história que parecia, enfim, tão interessante.
Simples. Trata-se da minha história o que vai aqui retratado. Sim. Ei-lo eu mesmo. De carne e osso. Ou quase. Durante muito tempo, depois que saí fugido, do hospital, necessitei da prestimosa colaboração de nosso amiguinho o qual na melhor das boas intenções aceitou transcrever estas linhas. Mas ele está cansado, doente, entregue ao desânimo. Todos os dias, feito Rigaut vai dormir, ou tentar fazê-lo com o auspicioso objeto libertador debaixo do travesseiro, na esperança de que, em uma de suas idas ao banheiro, ele finalmente se convença da idéia que o atormenta desde os três anos de idade. E ponha fim a sua rotina. Mas receio que lhe falta coragem, afinal, ele não a teve nem mesmo para mudar de emprego. Feito eu, ele preferiu apodrecer em meio aos ácaros e a ignorância dos aspirantes a cultos, os consumidores de livros, espécime rara, mas que talvez um dia se tornem leitores.
Muito bem. Cai a noite e eu já não preciso mais de quem ponha no papel as minhas lembranças. Preciso sair à procura de alguém que me permita uma boa tragada. Não é tão simples quanto pareça. É preciso haver afinidade. Como diria o bom velhinho Pedro: coincidir meridiano com paralelo.
Enquanto não surge a oportunidade, fico eu sentado no banco onde até pouco tempo nosso amigo homem estava sentado. Ele esqueceu o seu lenço branco e perfumado. Talvez volte para buscá-lo.
Interessante a vida. Ontem, no passeio central do jardim, havia um palco instalado. E nele, um intérprete, a cantar músicas do passado e uma orquestra a acompanhá-lo. Havia a lua e as estrelas, depois o vento, as nuvens e a chuva, e as pessoas, em vão, procurando abrigo. Era noite.
E hoje, final de tarde, não há mais nada. Mais um dia termina e com ele o ano. E o espírito da despedida, sai das páginas do calendário e pára diante de mim. E receio que deseja me acompanhar. Deseja muito. Tal o modo como me olha.
Mas não o quero como companhia. Prefiro a solidão. Que é mais calma, menos exigente e possui a virtude que se faz ausente na maioria dos homens: a fidelidade.
O que espera que eu faça, senhora? Conceda-lhe a mão e a conduza para mais um passeio por este jardim? Onde admiraremos e seremos admirados pelas árvores, as folhagens, a calçada portuguesa, a caçadora Diana e seu lago com peixinhos coloridos; o guerreiro Indaiá, chefe sem tribo, o poeta Gervásio e sua lira, o anjo da Concórdia, aprisionado pela falta de respeito e lucidez de sonegadores de impostos e boas intenções e autoridades. Todos eles a nos acompanhar por este passeio, onde cruzamos e cumprimentamos o poeta Bilac e seu terno e eterno olhar em direção ao sol poente, o garboso Barão, o humilde contabilista Carlos e o irmão Bonifácio. Enquanto o maestro Fábio, no coreto, rege sua orquestra, sob a admiração do esquecido Siqueira.
De onde caminhamos, ouvimos o apito do trem das 18 horas que chega, trazendo alguns elementos da banda dos ferroviários, que irão se juntar à outros que o esperam na plataforma.
Porém, são distantes alguns quarteirões de onde estamos que se acha a Igreja Matriz de São João Batista. E o silêncio que este Jardim e você querida, agora me proporcionam, permitem que eu ouça os sinos dobrarem seis vezes, como já o fazia a 54 anos, anunciando o Ângelus. Mais alguns minutos, um jovem virá pela Rua do Comércio e cruzará o Jardim onde agora estamos, caminhará mais um pouco, passará pela Toca, comprará balas e doces na padaria Zoéga, com as quais presenteará o amor de sua vida que o espera ansiosa na esquina da Igreja Matriz do João. Seu nome não importa. Ele é o pai do nosso bom amigo homem, cuja placa de bronze fica ao lado da minha no cemitério que leva o nome do seu time do coração. Conversamos algumas vezes. Quando nos encontramos nesse Jardim. Ele vem aqui todas as manhãs, comprar jornais, e matar as saudades do seu filho.
Feliz Ano Novo, querida, antes que eu me esqueça. É por essas e outras, que eu te amo, Solidão.