domingo, 2 de janeiro de 2011

EU TE AMO, SOLIDÃO!

Eram três horas da tarde quando o homem, vindo da estação ferroviária, atravessou o passeio central do Jardim Público. Os camelôs já haviam desmontado suas barracas, os guardas civis se retirado e o comércio fechado as portas, porque o 31 de dezembro daquele ano já se aproximava dos seus estertores.  Todavia, ainda era possível observar algumas pessoas caminhando apressadas em direção ao terminal de ônibus que ocupava o mesmo local aonde em 1876 a primeira locomotiva a vapor chegara apitando e trazendo àquela população, esperança e progresso que o tempo, a mesquinharia dos mais abastados, a omissão dos mais cultos e a falta de caráter de algumas autoridades, ou quase todas, trataram de levar para longe feito poeira ao vento.
O homem pretendia se sentar no banco ao lado do engraxate, mesmo local ocupado todos os anos pela feira do livro espírita, da qual, fora voluntário por diversas ocasiões.
Parou diante do banco, desviou por um instante os olhos em direção à imagem de Diana Caçadora que, finalmente ganhara havia pouco tempo uma habitação digna, nada mais que um lago com pedras, algas e peixinhos coloridos.  
Imbuído da timidez que lhe era peculiar, procurou no bolso de trás da calça do seu bom terno azul marinho, o lenço com o qual limparia o assento do banco antes de sentar-se. Era um hábito que, como tantos outros ele herdara do pai.
E de maneira repentina, a figura do pai no leito de morte, ocupara-lhe a mente. Queria lembrar-se do pai como o conhecera: jovem, bonito e saudável, a estender-lhe a mão, numa certa manhã nublada, no quintal da casa onde moravam. Mas, essa, como tantas outras imagens do pai melhores e mais bonitas não conseguiam prevalecer em sua memória, porque declinavam irremediavelmente diante da lembrança do pai no leito de morte: grisalho, magro, olhos fundos, quase sempre fechados, barba por fazer de muitos dias, o corpo decrépito, nu, coberto por um lençol.
Súbito, o homem percebeu que não era o lenço o que havia tirado do bolso, mas, o resultado do exame que pegara no laboratório minutos antes. Aquele pedaço de papel era apenas a primeira página da história do resto dos seus dias.
Lembrava-se com certo desconforto quando o médico lhe dissera dias antes que tinha nove vezes mais possibilidades de manifestar igual doença que tornara o pai um sujeito forte, decidido e valente, em um ser humano frágil, indeciso, inválido e desacreditado pela família e a sociedade.
Mas não era isto o que lhe preocupava naquele momento. Era não saber onde estavam a sua mulher e filha desde que lhes contara sobre os resultados dos exames. Onde?
Estava casado havia 14 anos, mas pelo menos dez se faziam que a vida a dois se resumira em discutir os valores da pensão e o comportamento da menina, ora um doce de anjo, ora, um barril de revolta preste a explodir. Capaz de acreditar em todas as histórias, por mais descabidas que fossem, desde que contadas por um estranho. Mas, completamente descrente dos ensinamentos que os pais tentavam lhe transmitir.
Marido e mulher, pai e filha, vivendo em cumplicidade, mas sob tetos diferentes. Ele, sozinho, em um quarto, na verdade, um aposento, quiçá um esconderijo, nos fundos da livraria onde trabalhava há 24 anos. Desde os tempos em que passava suas noites acordado em busca de uma palavra, uma frase, uma página, acreditando que se a estratégia tivera êxito com Flaubert, consigo não seria diferente.
Sentado no banco do Jardim, o homem buscou com os olhos entre os galhos das árvores pelo bem-te-vi cujo trinado, anunciava o final de mais um dia.
O tucano que fizera ninho na copa de uma figueira abandonara o recinto quando ao retornar para a casa, após mais um esforço tremendo por ganhar o sustento do dia, não encontrara mais o filhote no ninho. Fora encontrá-lo no chão, pisoteado, prensado, ao lado de um banco, exatamente aquele do qual o homem agora se levantava.
Tolo. Não encontrou o pássaro e muito menos a esperança que o levara, aos 19 anos, atravessar noites acordado diante da máquina de escrever portátil que pertencia ao pai, em busca de uma frase, uma palavra, um verso algo que fizesse sentido, que valesse o esforço e a ousadia de abandonar a realidade para seguir o incerto caminho, geralmente cinza, sujo e interminável de que são feitos os sonhos.
Descrente, julgava-se incapaz de se ver livre da rotina a que se sujeitara. Enquanto amara os livros, o trabalho lhe despertara prazer e interesse. Aos 42 anos, um livro se lhe tornara apenas um objeto sem valor. Algo que algumas pessoas compram, mas não utilizam. Porque agora, enquanto admirava os halos de luz que atravessavam a copa da figueira, onde semanas atrás o tucano fizera um ninho, ele, o homem, compreendia finalmente que livro na estante é alma morta, e livro comprado, mas não lido, é profeta surdo e mudo, e cego.
Levara muitas primaveras para entender e aceitar o inverno de que é feito a vida daqueles que ousam abandonar a realidade. E daqueles que atravessam o mar de incertezas e fracassos, os algozes insaciáveis dos que sonham, imaginando algum dia encontrar terra firme.
Convencera-se ao final daquele ano que, num país de analfabetos funcionais ser um escritor é uma afronta à esperança que a vida concede ao insano que opta por esse caminho desde o seu primeiro contato com o mundo. Desafios sem limites: escrever, escrever bem, escrever algo que interesse conforme as pesquisas de mercado encomendadas pelas editoras, periodicamente, e ser publicado, aceito, vendido, rentável, à editora, é claro. E finalmente ser entendido e reconhecido. O que extrapola e insulta qualquer mínimo bom senso. Em um país de analfabetos funcionais, evidentemente. Onde bons escritores não escrevem porque não são publicados. Onde os bons livros custam 40, 50, 60 reais, o que equivale, segundo as contas feitas de cabeça por aquele homem sentado no banco, mais ou menos, umas vinte ou vinte e duas refeições. Quase um mês, descontados os finais de semana, com a barriga a não reclamar do vazio existencial a que é submetida pelos fracos de coração e de bolso, feito ele.
Sim, caro leitor. Não preste atenção às palavras ditas até agora. Devo apresentar-me: Sou o homem do banco. Do lenço, dos livros, do tucano e do bem-te-vi; do pai, velho e moribundo, e da esposa e filha que partiram sem dar notícias.
Ainda hoje volto a este lugar, onde, desejaria, houvessem sido atiradas as minhas cinzas. Mas a história da minha vida se resume a uma inscrição eternizada numa placa de bronze, acomodada no espaço reduzido de um gramado onde os gatos da vizinhança acham de fazer as suas necessidades. Eu que sempre amei os gatos.
A propósito, esta manhã, alguém colocou uma garrafa de Almadén sobre a placa de bronze onde meu nome está eternizado. Uma vela, também acompanha uma rosa, que ainda não desabrochou. Até parece a minha esperança, que sei existir, mas continua escondida em algum canto escuro do meu coração, sedenta por luz. Ela é tímida a minha esperança. Feito eu. Deseja conhecer a felicidade, mas tem medo dela.
Você deve agora se perguntar, porque esse sujeito esquisito resolveu se meter na história que parecia, enfim, tão interessante.
Simples. Trata-se da minha história o que vai aqui retratado. Sim. Ei-lo eu mesmo. De carne e osso. Ou quase. Durante muito tempo, depois que saí fugido, do hospital, necessitei da prestimosa colaboração de nosso amiguinho o qual na melhor das boas intenções aceitou transcrever estas linhas. Mas ele está cansado, doente, entregue ao desânimo. Todos os dias, feito Rigaut vai dormir, ou tentar fazê-lo com o auspicioso objeto libertador debaixo do travesseiro, na esperança de que, em uma de suas idas ao banheiro, ele finalmente se convença da idéia que o atormenta desde os três anos de idade. E ponha fim a sua rotina. Mas receio que lhe falta coragem, afinal, ele não a teve nem mesmo para mudar de emprego. Feito eu, ele preferiu apodrecer em meio aos ácaros e a ignorância dos aspirantes a cultos, os consumidores de livros, espécime rara, mas que talvez um dia se tornem leitores.
Muito bem. Cai a noite e eu já não preciso mais de quem ponha no papel as minhas lembranças. Preciso sair à procura de alguém que me permita uma boa tragada. Não é tão simples quanto pareça. É preciso haver afinidade. Como diria o bom velhinho Pedro: coincidir meridiano com paralelo.
Enquanto não surge a oportunidade, fico eu sentado no banco onde até pouco tempo nosso amigo homem estava sentado. Ele esqueceu o seu lenço branco e perfumado. Talvez volte para buscá-lo.
Interessante a vida. Ontem, no passeio central do jardim, havia um palco instalado. E nele, um intérprete, a cantar músicas do passado e uma orquestra a acompanhá-lo. Havia a lua e as estrelas, depois o vento, as nuvens e a chuva, e as pessoas, em vão, procurando abrigo. Era noite.
E hoje, final de tarde, não há mais nada. Mais um dia termina e com ele o ano. E o espírito da despedida, sai das páginas do calendário e pára diante de mim. E receio que deseja me acompanhar. Deseja muito. Tal o modo como me olha.
Mas não o quero como companhia. Prefiro a solidão. Que é mais calma, menos exigente e possui a virtude que se faz ausente na maioria dos homens: a fidelidade.
O que espera que eu faça, senhora? Conceda-lhe a mão e a conduza para mais um passeio por este jardim? Onde admiraremos e seremos admirados pelas árvores, as folhagens, a calçada portuguesa, a caçadora Diana e seu lago com peixinhos coloridos; o guerreiro Indaiá, chefe sem tribo, o poeta Gervásio e sua lira, o anjo da Concórdia, aprisionado pela falta de respeito e lucidez de sonegadores de impostos e boas intenções e autoridades. Todos eles a nos acompanhar por este passeio, onde cruzamos e cumprimentamos o poeta Bilac e seu terno e eterno olhar em direção ao sol poente, o garboso Barão, o humilde contabilista Carlos e o irmão Bonifácio. Enquanto o maestro Fábio, no coreto, rege sua orquestra, sob a admiração do esquecido Siqueira.
De onde caminhamos, ouvimos o apito do trem das 18 horas que chega, trazendo alguns elementos da banda dos ferroviários, que irão se juntar à outros que o esperam na plataforma.
Porém, são distantes alguns quarteirões de onde estamos que se acha a Igreja Matriz de São João Batista. E o silêncio que este Jardim e você querida, agora me proporcionam, permitem que eu ouça os sinos dobrarem seis vezes, como já o fazia a 54 anos, anunciando o Ângelus. Mais alguns minutos, um jovem virá pela Rua do Comércio e cruzará o Jardim onde agora estamos, caminhará mais um pouco, passará pela Toca, comprará balas e doces na padaria Zoéga, com as quais presenteará o amor de sua vida que o espera ansiosa na esquina da Igreja Matriz do João. Seu nome não importa. Ele é o pai do nosso bom amigo homem, cuja placa de bronze fica ao lado da minha no cemitério que leva o nome do seu time do coração. Conversamos algumas vezes. Quando nos encontramos nesse Jardim. Ele vem aqui todas as manhãs, comprar jornais, e matar as saudades do seu filho.
Feliz Ano Novo, querida, antes que eu me esqueça. É por essas e outras, que eu te amo, Solidão.

  


4 comentários:

  1. J, obrigada por partilhar de sua solidão, ler seu texto foi maravilhoso, resgatar a memória, embora o susto de saber que és o protagonista. Foi sem dúvida, o encontro que eu esperava e precisava, não para amanhã, mas para hoje, nesse agora.
    Minha eterna admiração, um conteúdo maravilhoso duplamente, pela escrita e por sair da sua alma.

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  2. Concordo intensamente com a nossa colega. Estou emocionada. Achamos que a solidão, as amarguras do "homem do banco", batem apenas na nossa porta.
    Obrigada por compartilhar sua história. Todos com histórias diferentes, mas com a essência igual.
    Hoje você não ganhou apenas uma pessoa que segue o seu blog, e sim, uma amiga que ficou emocionada e não se sentiu sozinha no mundo.
    Obrigada

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  3. Que texto sábio! Parabéns!!!!
    A Solidão é nossa melhor amiga e fiel companheira sempre!!!
    Valeu por postar seus textos na Net para podermos ter o prazer de lê-los!!!!!
    Abraço

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  4. Meu caro amigo que texto emocionante, você me levou as lágrimas.
    Admiro você e sua obra.
    Abraços.

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