domingo, 30 de janeiro de 2011

FICÇÕES

Escrevo por dinheiro. Um pouco de vaidade. Outro tanto de orgulho. E finalmente, pra vingar meu pai. E pra que um dia, minha filha possa dizer quem era o pai dela. Mesmo que ela continue a morar em uma cidade medíocre onde as pessoas, em pleno século XXI ainda lhe perguntam quem é você e não o que sabe fazer.
Daniel Dafoe disse que a necessidade transforma homens honestos em velhacos. A considerar Moll Flanders, o palhaço sabia exatamente o teor da graça.
Descobri o que significa a febre contínua e a urina cor de cana chupada cuspida na terra: infecção generalizada. Oh, glória, está no fim. Fiéis e abnegados meia dúzia de leitores, descansarei em paz. E vocês de mim. Brevemente. Isso não é mesmo maravilhoso!
Mas pretendo antes concluir a leitura do livro que conta a história do Tomáz Antonio Gonzaga, narrada por ele mesmo. Devo admitir. O cara era um afrescalhado. Não simpatizava com Tiradentes e morria de amores por uma tal Maria Dorotéia, mais conhecida nas cartas chilenas como Marília de Dirceu. Oh, quanta inspiração. Tomáz me faz recordar o Douglas, o primeiro travéco a se tornar popular por essas bandas de São João do ex-Ribeirão Claro. E que desfilava suas longas madeixas de Perla “índia seus cabelos” pela Rua 4 no sentido bairro centro, sempre ao final de tarde, pelos idos de 1970 e bolinhas. Douglas não era nenhuma Lea T., mas, segundo o porteiro do cine Tabajara dava pro gasto. Tomáz também tinha longas madeixas e olhar e mãos delicados. Por essas e outras, envergonha até hoje a grande dama do Oriente. Ele e seus amiguinhos comparsas conspiradores Paula Freire, Alvarenga, Mestre Lisboa e, meu mais ilustre ancestral o poeta: Claudio Manoel da Costa.
Lendo as confissões de Tomáz, aprendi que seu pai era coleguinha do polêmico Marques de Pombal. E que, entre suas amantes, Tomáz, vulgo Dirceu, possuía uma especial: Dejanira. Daí é que vêm a coisa então, irmãos? Dejanira, a meiga e fogosa negra escrava, sempre disposta a satisfazer aos caprichos e desejos do bode Dr. Tomáz, digo, Gonzaga. Tiveram uma filha: Dalva. Que não era estrela, mas já nasceu alforriada e recebeu instrução, o que naquele tempo, só era mesmo possível para alguém que tinha como pai um senhor doutor poeta de nome Tomáz, ainda que isso fosse um segredinho muito bem guardado entre as partes.
Se a febre não estourar o termômetro e meus miolos talvez eu atravesse as 380 páginas do tijolão, digo, livro. Estou na página cento e qualquer coisinha. Mas afinal de contas, porque cargas d’água alguém precisa consumir a paciência do leitor e trezentos, quatrocentos ou quinhentos tantas páginas para contar uma história. Gramática, senhores: Esta velha rabugenta, ao contrário de sua irmã de nome tão asqueroso quanto, trata de numeral e não de números.
Aderi ao Facebook, dia desses. Num piscar de olhos e eu tinha 53 novos amigos, que, juntados aos 2 ou 3 de até então... Ora, deixemos essa conta virtual pra lá. Engraçado que no Face todo mundo aparece com cara de alegre e se porta como se fosse o mais gente boa do mundo. Até a mentira tornou-se virtual. Adeus Dona Maróca da janela, a abelhuda da minha vizinha. Você está arruinada. Sua reputação foi para o saco de lixo que você coloca às escondidas no meu portão todos os dias. Pensa que não sei. Também entendo de janela. Câmera fotográfica. Luneta. E voyeurismo. É assim que se escreve isso? Mas não se iluda Maróca. Eu ainda fico com a Lu. 
Bem, minha amiga Rackel, do Autores.com, sugeriu dia desses, com aquela sua delicadeza fidalga, que eu ando escrevendo difícil. Engraçado, justo agora que parei de ler Kafka, Calvino, Bolaño... Bolaño é bom pra baixar a febre. Recomendo. Você fica na cama lendo 2666, fica lendo, lendo e lendo e não termina nunca e a febre desanima e vai embora. Trata-se, convenhamos de uma excelente estratégia.
Agora preciso arrumar mais ficções para ver se aquele maldito telefone para de tocar.
Mais ficções. Traga-me mais ficções Jorge Luis.
Quem? Ah, sim, Jorge Luis é o meu mordomo. Já está com a idade avançada, falta-lhe uma vista e agora deu pra ficar surdo. Quando lhe convém. Mordomos... Alguns se imaginam escritores.

Publicado na edição 93 do Jornal Cidade Livre
Fotos e ilustrações: Web 

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