domingo, 9 de janeiro de 2011

PEQUENOS PERALTAS

Foi nos longínquos anos 70, época em que a televisão se tornou a opção de lazer mais acessível à maioria das pessoas, sobretudo, após o advento da TV em cores, que os desenhos animados, os programas de humor e os seriados, mostravam cenas de maldade, vingança e morte e maus hábitos e costumes, mas nem por isso os adolescentes saíam às ruas dando lampadada (se existe o termo) na cabeça dos outros. Não há registro até onde se sabe de algum adolescente que tenha se tornado assaltante ou criminoso porque assistia ao perverso Pica-Pau ou se deliciava com os “politicamente incorretos” Trapalhões. Não havia quem saísse destruindo o carro do pai ou da mãe, dando tiro em qualquer um que encontrasse pela frente, porque vira algo parecido nos seriados Bonanza, Starsky e Hutch ou no impagável Agente 86. Também não se soube até hoje que alguém se tornou maníaco sexual por apreciar as piadas de Ary Toledo, Costinha ou Barnabé.
E aquele era o período do regime militar no Brasil, em que o respeito às leis mais que preocupação, era obsessão, por parte das pessoas de bem. Havia ordem, embora não houvesse progresso, no aspecto social, principalmente.
Hoje, as coisas se inverteram. Há progresso social, mas não há respeito às leis, mas sempre a necessidade de interpretá-la conforme interesses próprios ou a busca por aproveitar-se das possíveis falhas das leis ou suas muitas contradições, nada a estranhar, em um país que tem código, estatuto, regulamento onde quer que se vá.
Entre os mais instruídos, os mais cultos, aqueles que ocupam alguma posição de destaque na sociedade, verifica-se a preocupação, mais que isso, obsessão em exercitar o famigerado politicamente correto, que, ao nosso ver, nada mais é que um belo tapete persa, sob o qual se esconde a hipocrisia dessa gente, para quem a imagem é tudo e franqueza deixou de ser virtude, para se tornar um comportamento inconveniente, senão intolerável.
Recentemente, no Brasil, um parecer do colegiado do Conselho Nacional de Educação (CNE) afirmou que o livro As Caçadas de Pedrinho tem conteúdo racista. Por sua vez, a Secretaria de Alfabetização e Diversidade do Ministério da Educação (MEC), através de nota técnica recomenda que o livro As Caçadas de Pedrinho só deve ser usado quando o professor tiver a compreensão dos processos históricos que geram o racismo no Brasil. O que, em outras palavras, é admitir que nem todos professores são preparados para tratar com seus alunos sobre o importante tema, o que é lamentável.
Mas a proeza vai além de nossas enormes fronteiras atlântica. Repete-se nos Estados Unidos. Justamente o país originário de duas significativas gerações da Literatura Universal. Uma delas a geração perdida, assim denominada pela poetisa Gertrude Stein (1874-1946 – Autobiografia de Alice B. Toklas) Esse grupo de escritores era formado por Sherwood Anderson, F. Scott Fitzgerald, Sinclair Lewis (Nobel de Literatura, 1930), Thorton Wilder e o mais famoso deles, Ernest Hemingway (Nobel, 1954). Vivendo na Europa, para onde foram após a 1ª. Guerra Mundial (1914-1918), eles romperam com suas raízes e o puritanismo dos autores compatriotas do século XIX.
A outra não menos significativa geração foi a dos adoráveis malucos que passaram a história como beatniks, em tradução livre: oprimido, rebaixado, espezinhado ou coisa que o valha. A turma de Jack Kerouac (On the Road), Allen Ginsberg (Howl), William Burroughs (Almoço Nu) e Lawrence Ferlinghetti (Coney Island of the Mind), buscavam inspiração no submundo da juventude inconformada de Nova York no final dos anos 40 e início dos 50, coincidentemente ou não um período também pós-guerra.
E não é que o eminente professor universitário Allan Gribben, achou por bem, dia desses, sugerir que a editora New South Books suprimisse da obra As Aventuras de Tom Sawyer e Huckleberry Finn, de Mark Twain (1835-1910) as palavras “nigger” e “injun”, dois termos considerados vulgares que se referem a negros e índios, respectivamente, porque, segundo o professor, muito o incomodavam quando tinha que pronunciá-las diante de seus alunos.
Ou seja, não se considera o contexto histórico em que foram produzidas as mencionadas obras literárias do brasileiro Lobato e do norte-americano Twain. Esquecem que se trata de literatura de ficção, portanto, sem nenhum compromisso histórico, porque, em ficção, por mais que a realidade sirva de pano de fundo ou inspiração deve prevalecer o lúdico, a fantasia que é justamente o que espera encontrar o leitor quando, no silêncio do seu quarto ou da natureza, abre um livro.
É comum que acadêmicos e jornalistas especializados, professores, enfim, gente do meio literário que ganha dinheiro com literatura, o que, normalmente não é o caso do escritor, tratem do espinhoso tema da importância social da obra literária.
Pessoalmente, duvido que haja um maluco que se propõe a escrever um romance ou uma novela com objetivos sociais ou políticos. O que se pretende, quero acreditar, é contar uma história. Ou, em última instância, traduzir em palavras o que se sente ou o que não se sente, o que se deseja ou o que não se deseja e o que se vive ou o que não se vive, assim, feito Beckett.
Desfraldar a bandeira da ética, da moralidade, do famigerado politicamente correto na Literatura de ficção é querer ultrajá-la, suprimir-lhe a liberdade, destruí-la.
 Todavia, nos últimos anos, independentemente da Literatura de ficção, a violência se disseminou em todos os setores e classes sociais. O que explica esse fenômeno? Não é certamente os desenhos do Pica-Pau, as peripécias do Agente 86, as malcriações do Chaves ou as peraltices dos Pedrinhos e Huck Finn ou Tom Sawyer de Lobato e Twain.
É resposta que falta aos pedagogos, psicólogos, orientadores religiosos que, no desejo de justificar seus diplomas e salários, apresentam mais suposições que conclusões.
Tal resposta não cabe à Literatura de ficção.
É de se perguntar, sim, se a cultura e a arte, através das suas diversas formas de se expressar e as múltiplas mídias eletrônicas hoje disponíveis influencia no comportamento do adolescente, da mesma maneira como alguns especialistas em educação afirmam convictos.
Ou seria a falta de jeito dos pais e responsáveis em lidar com a forma de ser e vivenciar a liberdade da geração atual de adolescentes a resposta que se busca.
A ausência dos pais do convívio filial, por razões profissionais favorece também a ocorrência desse fenômeno. Os filhos, deliberadamente, já não buscam nos pais a referência para decidir entre o certo e o errado e nem escolher entre o que é bom e não é bom, o que pode e o que não pode. E se optam pelo que não convém não temem pelas conseqüências. 
Não se verifica atualmente por parte dos adolescentes, o devido respeito para com a figura importante e indispensável à sociedade do professor, da autoridade policial, judicial, religiosa, enfim. Respeitar não é temer. E talvez justamente aí esteja o fosso de incompreensão que separa uma coisa da outra. 
Naqueles anos de 1970, ao qual nos referimos no início desse artigo, o respeito às leis e às autoridades, dentre elas, a patriarcal e a maternal, se devia mais em razão do medo do que da razão.
Os adolescentes daquela época são agora os pais dos adolescentes de hoje. É natural que se preocupem em não transmitir aos filhos a mesma sensação de medo que experimentaram em seu tempo. Daí, talvez, a liberdade sem limites que proporcionam aos filhos e que vai desembocar na falta de respeito ao semelhante e em si mesmo. E na competitividade exacerbada, onde, para não ser derrotado não se admite o erro, esquecendo-se de que a derrota e o erro fazem parte da vida e é apenas o primeiro passo do acerto e da vitória. Somos imperfeitos, porque somos seres humanos, somos cúmplices, porque vivemos em sociedade, e, portanto, a paz começa onde reina a tolerância. E sob tal aspecto, os Pedrinhos, Hucks e Tom’s da vida nos ensinam muito mais que certas pessoas feitas de carne e ossos.

"Vamos agradecer aos idiotas não fosse por eles não faríamos tanto sucesso" - Mark Twain.

* Texto publicado em 09/01/2011 no site www.autores.com.br, onde recebeu até o momento mais de 180 acessos e 19 comentários elogiosos dos leitores e escritores participantes do site, oriundos das mais diversas regiões do país, e aos quais agradecemos e dedicamos este artigo. O mesmo texto foi rejeitado pela imprensa escrita de Rio Claro/SP, minha cidade, defensora pérpetua do moralismo, a serviço da igreja católica, sempre preocupada em manter as aparências e entusiasta do politicamente correto.

* Fotos e ilustrações: Web. 

2 comentários:

  1. Parabéns !
    Concordo muitíssimo com tudo o que foi dito.
    Onde foram parar os valores ?

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  2. A população brasileira muitas vezes rejeita a autenticidade dos fatos, querendo tampar o sol com a peneira e modificar o que está escrito não somente nos livros mas, na alma do escritor.
    Estamos vivendo num país de leis contraditórias que andam com passos neutros a vivacidade que esperamos para o futuro.
    Grande abraço!

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