quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A CULTURA. OU A FALTA DELA.

Por iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura de Rio Claro foi realizada na sexta-feira (28), no Centro Cultural Roberto Palmari, a 1ª. Pré-Conferência da Cultura. Em pauta, apresentação e discussão sobre o Sistema Nacional de Cultura já em andamento por todo o Brasil. Ao menos é o que informa o press release distribuído aos participantes. O que vem a ser o dito cujo Sistema Nacional de Cultura, é algo que precisa ser mais bem explicado.
Todavia, como é possível por em prática tão ambicioso projeto se a maioria dos brasileiros define a cultura como atividades artísticas e intelectuais. Quando, melhor definição, mais próxima à realidade seria o conjunto de costumes e tradições de um povo, que, se expressa ludicamente, em determinados segmentos através das artes.
O que todos os artistas alijados do mercado e das luzes da ribalta - seja por falta de oportunidade ou de talento mesmo estão atrás, embora não admitam, são de uns trocos pra ganhar a vida através da arte.
Kafka e Modigliani dariam boas risadas ou morreriam de vergonha se soubessem da história. O primeiro sequer publicou um livro enquanto vivo. E o segundo, vendeu meia dúzia de telas, porque lhe importava muito mais que a arte, as mulheres e os vinhos. E de bobo, o italiano de Livorno não tinha nada.
O Sistema Nacional de Cultura, pelo pouco que se conseguiu entender durante a Pré-Conferência, nada mais é do que o grande cueiro de ração, nem sempre de boa qualidade e quantidade suficiente, através do qual o Estado pretende aconchegar sobre as suas asas poderosas os menos favorecidos da classe artística. Os cheios da grana e influentes – ainda que nada talentosos – são absorvidos pelo mercado quando convém ao mesmo, e vendidos sob o rótulo de gênios ou algo perto disso.
O Poder Executivo, que administra receitas e despesas de grande monta, e me refiro à federação, estados e municípios, manda o recado: Vem cá filhinho que a mamãe vai lhe dar o biscoitinho, contanto, que você jamais deixe de pedir a bençinha pra mamãe. De todo modo, é colocar a coleira no cão. Pra bom entendedor um pingo é letra.
 Ou pra ser explícito, como queiram: O artista que se sujeita, não merece ser chamado de artista. Porque este enfrenta a realidade, e a desmente e a transgride e a transforma. Enfim, é o que se imola para o êxtase da platéia que o assiste depois de saciada com a ilusão que lhe é oferecida. O artista não teme a fome. Ele a encara como meio de obter disciplina. O artista não teme o relento, faz do firmamento a sua lona e o seu cobertor. O artista é o espírito em essência: livre, leve, solto. Sopra, anda e voa onde quer. Desconhece o muro da lamentação e o sentimento da vergonha. Jamais pede para entrar. E não avisa quando vai sair de cena. Para o seu espírito, o aplauso é o sangue que corre em suas veias ou o oxigênio que o faz respirar, o alimento que sacia a fome, a água que mata a sede. E se não é capaz de compreender, aceitar e vivenciar isso em toda a sua plenitude, sem medo, rancor ou revolta, então não é artista. É, quando muito, um aspirante a tal.
O artista deve provar a si mesmo que sabe e depois, submeter-se ao crivo do olhar, da opinião e do pensamento alheio. Quando domina a si mesmo e a sua arte, ele, naturalmente, interfere na sociedade a qual pertence. Ele a serve. E não se serve dela.
Antes de conhecer o music hall, os microfones das rádios e os palcos do mundo, Piaff cantava nas ruas. Porque amava cantar. E não podia viver sem cantar.
A Pré-Conferência pretendia também discutir um Plano de Cultura para Rio Claro com abrangência para os próximos 10 anos, além da criação do Fundo de Cultura, e a ativação do Conselho Municipal de Cultura, uma vez que o mesmo já existe, mas que, por falta de lei que o regulamente está inativo. Por que será?
Mas o encontro perdeu entusiasmo e importância a partir do momento em que o membro do Ministério da Cultura, presente justamente para orientar e esclarecer os pontos principais do complexo Sistema Nacional de Cultura desculpou-se dizendo que precisaria se ausentar em razão de outros compromissos.
A tarefa de conduzir e mediar o encontro coube ao diretor de cultura popular do município, o Curinga, que o fez de maneira democrática dando a palavra a todos que quisessem se manifestar. E aí meu velho, inúmeras tentativas frustradas de demonstrar conhecimento e erudição da parte de alguns dos fazedores de arte de Rio Claro. Opa, perdão, de cultura.
Conclusão, eu acho: Nenhum sistema ou nenhuma boa vontade em fomentar a cultura neste país será bem sucedido enquanto a educação pública for tratada como lixo não reciclável.
É preciso investir e dar oportunidade àqueles que chegam à sociedade agora – as crianças e os adolescentes – preocupar-se com estes, porque os que nela já estão – jovens, adultos e idosos – só resta dizer adeus. Ou continuar passando a sacolinha. Estão acostumados.

*Publicado na edição 95 do Jornal Cidade Livre. 
Fotos e ilustrações: Web. 

2 comentários:

  1. Belas palavras! Adorei!
    Aindo acredito que o ser humano que diz conseguir viver sem Arte, não vive, vegeta! E o poder que fecha os olhos para esta Arte já se petrificou a muito tempo.Afinal, a Arte está em todo lugar, é a cultura que conta a história de um povo, e, lhe confesso que ainda sinto uma grande liberdade para voar, mesmo com as asas cortadas pelos fatos da realidade.
    Grande abraço!!!

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  2. Muito bom !
    Eu pinto porque esta é minha poesia, pinto para agradar a mim e aos pedidos de minha alma e não para seguir tendências. Porque acredito que o artista que se vende enjaulou-se, perdeu sua alma, sua criatividade.
    Como disse o amigo, a nós adultos, só nos resta prosseguir. Que as futuras gerações de artistas tenham mais sorte do que nós.

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