quarta-feira, 29 de junho de 2011

OUT

Já me cansei de dizer isso. Mas vivemos a era da mediocridade. Os medíocres, ícones das artes, da cultura e dos esportes, satisfazem o ego e as exigências de uma geração sem compromisso senão consigo mesmo, sem conteúdo senão aqueles que pode descartar já na manhã seguinte, no instante seguinte, a espera de outro que certamente virá. Basta acessar o Ipad, atender ao celular, ou perder um segundo do precioso tempo pra dar uma espiada na tevê aberta.
Talvez por isso essas pessoas se contentem com os atuais cantores (se existem), os escritores e artistas, da bola e dos palcos, e com o sertanejo universitário, os bailes de forró e a mulambada bela. Toda ela.
Mas para a geração anterior a esta a qual pertenço entreter-se ou adquirir conhecimento através da arte ou da cultura, encontrar satisfação em uma partida de futebol conforme os padrões de qualidade estabelecidos na atualidade para tais e quais é perda de tempo.
Não quero que o tempo volte que o mundo seja aquele de novo ou que a atual geração aprenda a apreciar a arte e a cultura, insira-se aí o futebol, de um tempo não muito distante, que se encontra facilmente registrado nas imagens e nos áudios de época.
Nesse mesmo instante em que rabisco estas linhas algum grupo de artistas, intelectuais ou coisa que o valha está se reunindo para definir diretrizes de um plano, cujo único objetivo é conseguir recursos públicos para ganharem dinheiro fazendo arte, escrevendo, ou pensando. Como se para fazer essas coisas fosse preciso bater o cartão todos os dias, e fazer horário, como fazem os realmente trabalhadores, empregados de uma firma qualquer, cônscios dos seus deveres.
Ora, parem de importunar o poder público e vão produzir a arte ou acrescentar ou modificar a cultura já existente da maneira como podem.
Acham o quê? Que se o dinheiro vier lá de cima, as coisas serão como pensam? Não. Será como os donos do dinheiro pensam. E querem. Simplesmente porque no sistema vigente manda quem pode e obedece quem tem juízo. Você só é bom enquanto for interessante e estiver a serviço daqueles que, de alguma forma, determinam o rumo da grande embarcação chamada humanidade.
Depender de recursos públicos pra viver da arte é uma afronta à inteligência, um tapa na cara das pessoas que realmente levam a vida a sério e derramam suor pra levar pra casa o sustento dos seus filhos.
E saibam, que o artista, o escritor, o pensador, ele não pode e não deve levar a vida a sério, porque ele tem que se submeter a todas as possibilidades que a loucura lúdica oferece. Ele tem que se entregar de corpo e alma ao caos. Jamais esperar a recompensa senão o castigo. Nunca o reconhecimento senão a indiferença. Porque, para ser de fato bom naquilo que faz ele deve estar além do seu tempo. Ele deve nascer sabendo. Ele deve conduzir e não ser conduzido. Ser condutor do seu próprio destino. Deve ludibriar Cerberus e atravessar o portão que leva ao vale das sombras para que conheça a morte e a dor, sem as quais jamais compreenderá nada, jamais tomará ciência da sua força. A mesma que o fará percorrer as montanhas e os penhascos sem precipitar-se nos braços da ilusão, ainda que deva se deitar com ela pra saber o que é o amor.
Democracia não combina com arte e cultura. Nivela a todos por baixo, porque satisfaz a vontade da maioria burra. Sempre burra, não é Seu Nelson?
É preciso que sobrevivam e se destaquem os melhores. Mas nos dias de hoje não é o que acontece. O mundo não conhece os realmente melhores. E receio mesmo que eles, os melhores, já se cansaram deste mundo.
No caso específico do futebol, que já foi uma forma de arte, paga-se hoje muito mais caro por um ingresso para assistir aquilo que há muito tempo deixou de ser espetáculo. Sem contar que os estádios de duas ou três décadas para cá não se tornaram mais confortáveis ou seguros, porque muita gente desprovida de um mínimo de inteligência acha que a capacidade para comportar o número de torcedores é mais importante do que os itens primordiais anteriormente citados.
Não receio cometer heresia. Mas, o que nos dias de hoje joga o craque da vez, qualquer camisa 10 de um time da Divisão Intermediária paulista nos finais dos anos 1970 jogava. Ou até mais.
Mas o craque de hoje teve a sorte que aqueles não tiveram. Nasceu na época do faz de conta. Hoje todo mundo é artista, escritor, jogador de futebol, jornalista, porque todo mundo faz de conta. E a macacada de auditório aplaude. Precisam acreditar em alguma coisa. Afinal, Deus está meio fora de moda. A Ciência explica tudo. Eles apenas esquecem que as leis da física que alguns tanto admiram devem ter sido inventadas por um princípio inteligente (dêem a ele o nome que quiserem), enfim, por alguém que pensa, e certamente, este alguém, não fui eu e muito menos você leitor. Mas eles é que são gênios não é mesmo? Nós, os inquietos, os questionadores, os sonhadores, nós não somos nada. Não nessa época cujo reinado pertence aos medíocres. Afinal, estes tempos durarão bem pouco e estão no fim, e aos pobres de cultura e inteligência ao menos as migalhas. Porque Deus é bom e não desampara ninguém, é o que nos ensinaram.  Mesmo os rotos têm direito a ser rei por um dia. E eles estão sendo.
Que devemos fazer? Contestar? Lutar? Nada disso. Os bravos soldados são aqueles que após darem o seu sangue e o melhor de suas forças e de sua inteligência por uma causa, sabem o momento de se afastar da luta e buscar novos horizontes e novas causas, e novas lutas.
Quando os medíocres, os rotos, alcançarem o castelo, já teremos partido, e eles finalmente conhecerão a História. Mas, o que farão com ela? Nada. Eles não sabem ler nas entrelinhas, não decifram os códigos porque não enxergam a um palmo de distância. Não possuem mente muito menos coração para sentir para onde o vento sopra e onde o sol se põe; eles não têm sangue nas veias porque jamais o derramaram em nome de uma causa, em nome de suas próprias vidas, em nome dos seus sonhos e dos seus familiares e amigos.
Então eles herdarão a terra porque são bons. Sim, eles realmente são. Não é o que dizem os jornais, as revistas, os sites e a televisão? Pois é.
Agora, esqueçam  finados leitores de tudo o que eu disse. Está começando a novela das 9. E ela espera por vocês.
Boa noite. Macacada.

terça-feira, 28 de junho de 2011

METAMORFOSE AMBULANTE

A primeira vez em que ouvi falar do Raulzito foi no quarto lá de casa que eu e meu irmão dividíamos.
Era um sábado à tarde. 1975 ou 6, talvez. Lembro que o Carlão chegou com um disco debaixo do braço. Ele sempre trazia da rua algum disco debaixo do braço. Pôs pra tocar na sua pick-up com amplificador Gradiente e enquanto fumava um Minister encostado na janela do quarto ficava olhando para mim, talvez pensando como é que podia ter um irmão tão idiota feito eu.
Fiquei curtindo junto à ele, naquele silêncio diáfano e sepulcral tão habitual de nossa existência em comum, uma parte do baú do Raul.
Olha, olha o trem, vem chegando... e eu, naquela maldita mania minha, até hoje incurável,  de conceber em minha  mente fértil cada cena e cada movimento daquela poesia que Raul cantava como se o fizesse com o coração.
Meu irmão se foi pra sua casa ser gauche, cuidar da esposa e dos filhos e eu fiquei, eu sempre fico.
Reencontrei com o Raul numa daquelas baladas que a gente curte aos 17, 18, 19 anos, quando nem sabia exatamente o que eu queria da vida, e acho que continuo não sabendo.
Naquele tempo a doença incurável estava apenas no início. O câncer da Literatura ainda não havia sofrido o processo de metástase em minha alma, de modo que alguma lucidez meio hispânica, meio germânica, meio francesa, meio egípcia, italiana, jamais brasileira, um ranço dessa lucidez pra ser exato, eu ainda possuía.
Raul é o cara. Todo mundo dizia isso com umas doses de fogo paulista na cabeça. E uns pitacos da erva preciosa. Mas a gente segurava a onda. Bem, eu ao menos segurava. O que não se pode dizer o mesmo desse ou daquele amigo daquela época maluca e cheia de beleza.
Soube que Raul havia se tornado de fato uma metamorfose ambulante, da mesma forma como soube que Renato havia saído, enfim, à procura do tempo perdido, destino de todos nós que acreditamos algum dia de nossas vidas naquele sujeitinho mentiroso de nome tão bonito e misterioso quanto: O amor.
É... Completamente indiferente e fora de mim eu recebi ambas as notícias, que cheguei a rir e dizer bem feito pra ambos. Afinal haviam se fudido feito eu. Bem feito pra eles. Isso se chama revolta, sabe. Quando você não é feliz, não admite que ninguém seja. Mesmo que não admita isso, com palavras.
Foi assim.
Mais ou menos.
Raul faria hoje 66 anos humanos. Raul não morreu. Eternizou-se. Fundiu-se à sua obra. Tornou-se uma estrela. Uma dessas que a gente vê certas noites brilhando intensamente no céu, enquanto tenta se convencer a tentar outra vez.
Não sei se vale a pena. Raul talvez já saiba.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

VIAGEM

"Não é lendo, escrevendo ou meditando que se dissipa as trevas e se encontra a luz; é fazendo o Bem. E a felicidade só existe sob a luz, tudo o mais, que impressiona os sentidos e engana os olhos, é apenas ilusão". - gjcjr.

LÁPIS

"Escrever ficção é tremendamente fácil. Você vê a realidade e de repente imagina como as coisas poderiam ter sido diferentes.". - gjcjr.

domingo, 26 de junho de 2011

GÊNIO E LOUCO, ADORÁVEL FASSBINDER

Quarenta e três filmes, trinta e sete anos de vida. Não mais. Os números surpreenderiam se o autor da proeza não se chamasse Rainer Werner Fassbinder. Nascido em Bad Wörishofen, na região da Baviera, em 31 de maio de 1945, falecido em 10 de junho de 1982, em Munique, Alemanha.
Homossexual assumido, genial diretor, Fassbinder também atuou no cinema como ator, editor, produtor, além de administrador de teatro. Na extensa filmografia desse cineasta alemão, Berlin Alexanderplatz (1980) é um caso à parte. O filme, baseado na obra literária de Alfred Döblin (1878-1957) tem nada menos que 15 horas e meia de duração. No Brasil, foi exibido ao final da década de 80 pela TV Cultura de São Paulo em episódios diários. Berlin Alexanderplatz narra estória de Franz Biberkof que ao sair da prisão após cumprir pena de quatro anos se depara com as dificuldades e humilhações porque passa a derrotada Alemanha ao término da Primeira Guerra Mundial. Para sobreviver, Biberkof vive de trabalhos temporários, enquanto mantém relacionamento amoroso com uma prostituta que lhe trará vários problemas e decepções.
Estrelado por Günter Lamprecht no papel do personagem principal, o filme traz ainda no elenco Hanna Schygulla, Barbara Sukowa e Gottfried John, entre outros. Em 2006, a película, que retrata um painel primoroso da Alemanha dos anos 20 passou por processo de remasterização e voltou ao mercado cinematográfico disponível em DVD.
Como diretor de cinema, Fassbinder bebeu na água de todas as fontes. Em seus filmes encontram-se elementos clássicos, barrocos, realistas, modernos, alegóricos e expressionistas.
Era um ótimo diretor de cena, que merecia dele, minuciosa atenção com objetivo de atingir um contundente impacto estético. Sua constante pareceria com o cameraman Michael Ballhaus lhe permitiu cometer ousadias nas filmagens como se verifica em Martha (1973) e Roleta da China (1976).
Fassbinder foi fortemente influenciado pela obra do cineasta norte-americano Raoul Walsh considerado um dos mestres do melodrama hollywoodiano.
Percebe-se nos filmes de Fassbinder a busca por um retrato muito próximo à realidade alemã, o que salta aos olhos do telespectador quando o cineasta aborda temas como a história, a cultura, a sociedade e a geografia germânica. Várias classes sociais alemãs foram representadas em seus filmes: o proletariado, os intelectuais, os comerciantes, os burgueses e até os jornalistas. Sem fugir à realidade do seu tempo, Fassbinder tratou também de assuntos como o terrorismo. E nem o nazismo escapou do seu olhar aguçado como mostram os filmes O Desespero de Veronika Voss (1981) e Lili Marlene (1980).
Os personagens de Fassbinder, em geral, sofrem de crise de identidade. São pessoas que buscam de maneira desesperada reinventar-se até que se descobrem incapazes, o que os leva a uma situação extrema.
O homossexualismo está presente na obra de Fassbinder. Em 1982 o cineasta filmou Querelle, baseado no romance homônimo do escritor francês Jean Genet.
Fassbinder tinha predileção por personagens rejeitados pelo convencionalismo da sociedade alemã. São, em geral, fracos, sonhadores e derrotados. E a maneira de fazê-los se expressar são exatamente aquelas do padrão comercial do melodrama. Com uma diferença. Ou duas. Fassbinder escrevia e filmava as estórias de seus personagens com a febre da convicção de que melhor viver pouco, mas intensamente. E mais, a essa alucinante maneira de criar à luz e ao som da realidade adicionava a medida às vezes correta, às vezes exagerada de intelectualidade.
A mulher tem significativa importância nos filmes do cineasta. Tornaram-se célebres os personagens vividos por Hanna Schygulla, Irm Hermann, Ingrid Caven, Brigitte Mira e Margit Carstensen.
As lágrimas amargas de Petra Von Kant (1971) são também as de Fassbinder. Seu modo de olhar a vida e o mundo era um modo feminino e estimagtizado pela revolta inerente a todos aqueles que se deparam obrigados a viver uma realidade que repudiam.
Ao lado de Wim Wenders e Werner Herzog, Fassbinder é considerado um dos expoentes do novo cinema alemão (1962-1989), movimento cujo objetivo era recriar a cinematografia do país a partir do zero.
Era filho de pais separados, gostava de futebol, dizia que só poderia dormir quando estivesse morto. Morreu aos 37 anos, de overdose provocada por mistura de álcool e barbitúricos. E sem assistir a estréia de seu último filme: “Querelle” (1982). Seus herdeiros, ainda hoje, disputam sua herança. Talvez não compreendam que a maior herança de Fassbinder foi entender o que disse Emile Zola: “Entre não fazer nada e fazer alguma coisa é sempre preferível fazer alguma coisa”. E Fassbinder fez. Em tão pouco tempo. De maneira apaixonada e autodestrutiva. Fez muito. Pelo cinema. E por aqueles que apreciam a sétima arte.
CURIOSIDADES:
As lágrimas amargas de Petra Von Kant, que aborda o tema do amor lésbico foi encenada no Brasil, em 1984, por Fernanda Montenegro e Renata Sorrah nos papéis principais, em montagem da Companhia Teatro dos Quatro sob a direção de Celso Nunes.


A produção de Berlin Alexanderplatz (1980) teve 100 atores, 3000 figurantes e 01 ano de filmagem.


Na opinião da escritora e teórica norte-americana Susan Sontag, Fassbinder era um dos mais extraordinários talentos do século 20.


O último trabalho de Fassbinder no cinema foi no filme “Kamikaze” (1982) em que atua como ator.


Legendas das Fotos (Reprodução):
1) Fassbinder no set de filmagens de Lili Marlene (1980),
2) Filmando;
3) No set de Berlin Alexanderplatz (1980), ao lado de Günter Lamprecht (Franz Biberkof) e Barbara Sukowa;
4) Cartaz do Festival Fassbinder;
5) O olhar cínico e faceiro do genial diretor.


(Publicado na edição No. 7 da Revista do Cinema Caipira editada pelo Grupo Kino Olho, Set./2009)

sábado, 25 de junho de 2011

A ARTE DE CONTAR HISTÓRIAS - (Entrevista) -

Pedagoga, formada há 9 anos, em Artes Visuais pela Universidade Castelo, ela se define como professora de vocação e artista pelo amor às artes. Contadora de Histórias, desde 2006, escritora de poesias e contos. Além de apresentadora do Programa Contando Histórias e Fazendo Artes na TV Cinec. Patricia Ferraz da Silva, que integra o cast de escritores do site Autores.com.br com o sugestivo pseudônimo de Contadora de Histórias  nos concedeu esta entrevista em 2010 para a edição No. 02 da Revista Virtual Letras Com Arte que não foi editada. Assim, publicamos o trabalho aqui no Passa a Régua.

Como a atividade lúdica de contar histórias surgiu em sua vida? Foi por opção ou necessidade? 

Surgiu em um momento difícil de minha vida. Para não cair em depressão fui buscar ajuda nos livros. Foi por necessidade, pois as crianças não liam e nem havia interesse então sai da professora para me tornar a Contadora de Histórias.

Quais virtudes e quais técnicas deve dominar o contador de histórias?

Entusiasmo, emoção, prontidão, gostar do que faz e ler muito. Postura Vocal, troca rápida de figurino também são essenciais.

Em um mundo dominado pela tecnologia digital, a infinidade de informações e a força da imagem, ainda há espaço para o lúdico, na sua avaliação?

Há muito espaço para o lúdico, apesar da alta velocidade da informação.

Como quem ouve uma estória contada por você pode mudar a vida pra melhor?

Entrando comigo na história e deixando se envolver pela história contada, pois cada história tem sua moral e seu fundo de verdade.


Na condição de professora infantil que recursos você utiliza para convencer seus alunos a se interessar por Literatura?

Trago recursos diferentes para cada história contada para chamar atenção deles. Por exemplo: abordo diversos gêneros literários e faço leituras compartilhadas, que é quando os alunos lêem junto da professora e com os colegas também.
       
Você costuma inventar histórias pra contar ou se utiliza daquelas já existentes?

Utilizo-me das histórias já existentes e também as modifico e as reconto. Um exemplo disso é o “Conto Africano”, que é do livro: “As Narrativas Preferidas de Contar Histórias” de Ilan Brenmam. Este conto, hoje, eu reconto com minhas palavras e minha emoção.

O que não pode faltar nas estórias que você conta?

Um pouco de suspense para entreter o interlocutor.

Como você vê o interesse das crianças nas estórias que você conta?

Elas começaram se interessar muito mais a partir do momento que perceberam que saiu a professora e entrou a personagem Contadora de histórias. Pois no começo não havia interesse algum por leitura e depois de conhecerem a biblioteca da escola e ao conhecerem os livros mais próximos deles surgiu o interesse pela leitura.

No seu entendimento ouvir estórias pode ser fator determinante para que a criança venha a se interessar pelos livros? E como estimular ainda mais esse interesse?

Sim. Falo isso de camarote e como Contadora de Histórias, pois é com esse recurso que as estimulo e faço com que elas tenham interesse de ler. Certa ocasião, eu trabalhei com os alunos um livro chamado “Semente da Verdade”. E as crianças me procuraram depois para comentar que o livro falava sobre o menino que ganha a semente e tem que plantá-la, contar a verdade.


Em que aspectos podem fazer bem às crianças ouvir histórias?

Ajuda na maneira de falar e escrever corretamente.  Depois de ouvirem as histórias, eles as recontam. Os menores de 6 e7 anos por meio de desenhos e os maiores reescrevem a história e passam a ler e escrever melhor.

Durante sua atividade de contar estórias algum fato já lhe surpreendeu? Conte-nos.

Já, sim. Vários. Pois ficam maravilhados com as histórias. Li um conto chamado: “Lixo” de Luís Fernando Veríssimo que é a história de um casal de vizinhos que se encontra em uma lixeira de um condomínio e no final os comentários das crianças foram: As pessoas se viram no conto porque o lixo do outro se torna público ao ser jogado, colocado para fora.

Que importância tem para você o ato de escrever?

É extremamente importante, pois, ao escrever eu me liberto de amarras, coloco para fora meus medos, sonhos e desejos.

Como você se define enquanto escritora? Intuitiva, do tipo senta e escreve? Ou metódica, daquelas que anota, pesquisa, elabora, define e só depois se dedica ao ofício da escrita?

Intuitiva extremamente, porque quando “baixa” a escritora, tenho que escrever naquele momento. Pesquisa só para artigos.

Fale-nos sobre sua participação na Bienal do Livro de São Paulo no ano passado.

Surgiu de um convite da Poiesis e Fundação Volkswagen (leia em Saiba Mais) para atuar como Contadora de Histórias.  Eu participava na época do II Seminário Internacional de Bibliotecas Públicas e Comunitárias e do II Fórum Prazeres da Leitura, realizado entre 12 a 14 de novembro do ano passado. E, no dia 12, aconteceu um coquetel de lançamento e me descobriram e foi aonde eu fiz a minha apresentação no Museu da Língua Portuguesa. E lá estava a diretora da Poiesis, que, este ano veio a me fazer o convite. Pois faço um curso chamado “Entre na Roda”, e fui a primeira a ser chamada. As apresentação aconteceram no dia 14/08/2010 no stand da Fundação Wolkswagen.

Você participou de uma publicação da USP (Universidade de São Paulo). Como foi isto?

Participei através de um convite da comissão científica para produzir um resumo e dar uma palestra de 15 minutos para falar de meu trabalho. O título da obra é a Arte de Contar Histórias - e foi publicado no caderno de resumo online da Faculdade de Educação da USP pela editora da própria universidade em Outubro de 2009. O reflexo em minha vida é que tendo resumos e artigos científicos para escrever posso concorrer a vagas de Mestrado e Doutorado em instituições de ensino superior. Além de melhorar meu currículo.

O que não pode faltar na sua ilha? Um livro? Ou alguém pra você contar uma estória?

Um Livro que tenha uma boa história.

Passa a Régua, Patrícia:

Eu me descobri como escritora e poetisa há dois anos. Estou me surpreendendo como tal e quando cheguei ao site Autores, eu passava por uma situação ruim em minha vida, mas descobri amigos que se tornaram amigos de coração. E agradeço imensamente pela força e pelo estímulo que tenho recebido. É claro que não me esqueço de minha família e amigos que me apóiam nessa carreira de escritora e poetisa. Aos amigos das escolas em que trabalho e sou grata ao meu público que lê meus artigos.


SAIBA MAIS:
A Poiesis, citada pela entrevistada é uma Organização Social de Cultura que mantém projetos em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura. Já a Fundação Volkswagen é uma entidade da empresa que mantêm vários projetos culturais com objetivo de proporcionar renda às famílias.


A Revista Virtual Letras com Arte, projeto idealizado e conduzido por Adriana Lima, ex-moderadora do site Autores.com.br, teve apenas as edições de número 0 e 1. Tratava-se de um projeto ambicioso e ousado que tinha como objetivo abordar assuntos da área cultural e artística através das novas mídias. Tivemos a satisfação de, a convite, participarmos das duas edições. 

PERFIL:
Patrícia Ferraz da Silva nasceu em São Paulo/SP, tem 30 anos, e mora atualmente em Itaquera, zona Leste da capital paulista. Não tem filhos, é solteira e trabalha na Escola Estadual João Camargo e na Escola Estadual Eng. Octávio Marcondes Ferraz como professora de Artes.


Legendas das Fotos:
1) A professora Patrícia em sala de aula;
2) Contando histórias;
3) Entre amigos;
4) Promocional 

sexta-feira, 24 de junho de 2011

RIO CLARO, ONDE AS RUAS NÃO TEM NOME

Moro numa cidade em que as ruas não têm nome, onde as árvores ainda não disputam espaço com enormes fortalezas de aço e concreto; onde os trens atravessam ruas e avenidas, sem serem molestados, e os pedestres, pacientes, não se importam de esperar. 


Na cidade onde moro, as pessoas conversam nas calçadas, ouvem música no rádio, à noite, enquanto esperam pelo sono. Minha cidade é progressista, uma das mais desenvolvidas do estado, os médicos são atenciosos, e os farmacêuticos não se importam de atender à noite, em meio à madrugada, mesmo que chova. 


Há ruas de paralelepípedos, no centro, por onde circulam charretes ornamentadas. Cinemas são três, e todos bem localizados, limpos e perfumados, e grandes. Há bares noturnos e boates pra quem gosta de dançar e ouvir boa música. 


Os funcionários públicos nos atendem com sorriso no rosto, seguido de bom dia, boa tarde, boa noite, pois não? Em minha cidade se produz a melhor cerveja do mundo, sem exagero. Afinal, nos ensinaram na escola, que o mundo, primeiro é o chão que pisamos, depois vem o resto. Cantamos o hino nacional, perfilados no pátio da escola, toda sexta-feira, em continência à bandeira, e sabe, isso não é frescura ou idiotice, é patriotismo, e respeito. 


Na rua onde moro, todos os vizinhos se falam, e a criançada brinca, assim, no meio da rua, porque quase não há motocicletas, e as que existem, longe, anunciam sua aproximação, buzinando. Quase todo mundo tem uma bicicleta. 


Ao meio dia, em ponto, ouve-se o apito estridente, porém, indispensável, da maior e melhor oficina ferroviária de que se tem notícia. Tem dois jornais, apenas, mas há o que se ler, todos os dias. E deixemos as polêmicas para outra ocasião. 


Quero falar de minha cidade. Dizer que, há trezentos metros do centro, temos um preservado horto de eucaliptos, onde se tem um lago bonito e habitado por marrecos e patos, e até um restaurante tem, e um trenzinho que nos leva a passear pelo horto e adjacências, ouvindo o gorjeio dos pássaros silvestres, jamais vistos, porém, não menos encantadores. 


Aqui, cidade onde moro, se tem o hábito de pedir a benção quando se cruza na rua com algum religioso ou alguma religiosa. E eles nos acolhem com alegria e satisfação. Costuma-se ir à missa, aos domingos, e, a procissão da sexta-feira santa, em todas as paróquias, é bastante concorrida. Há quermesses, em meados de Junho e Julho. E jogos de futebol, aos domingos, no estádio mais charmoso, do time mais querido da cidade, e que veste vermelho e verde. 


Ia me esquecendo do coreto da praça central, a praça tão bem freqüentada, por trabalhadores que por ali passam a caminho da labuta ou do descanso, e por famílias a passeio, aos finais de semana. Esta é minha cidade, e enquanto escrevo estas linhas, ouço o tropel do cavalo anunciando a chegada do padeiro. 


São seis horas da manhã. Bengala fresquinha, meia-lua com o açúcar derretendo por cima, leite de saquinho, indaiá, melhor não há. Hoje tenho prova na segunda aula. Estudo numa escola pública que é vocacional e modelo de ensino para todo o país e de prestígio que atravessa as fronteiras. Bem, aqui me despeço, desejando um bom dia a todos. Rio Claro, 10 de fevereiro de 1975; meu irmão Junior, hoje, completa 6 anos. E eu me chamo Carlos Alberto.


Parabéns Rio Claro, pelos seus 184 anos. Um dia você foi assim. E eu não me esqueço.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

A MAL RESOLVIDA ESTÓRIA DO SR. K.

O vento forte e o céu nublado prometendo chuva pra qualquer momento geralmente impede que caras como eu saiam de casa. A menos que não se importem de tomar chuva no rosto e se apresentar devidamente ensopado diante da namorada. O vento forte geralmente impede outras coisas como acender ao cigarro e mantê-lo aceso na boca, enquanto se cata milhos no teclado com a mão esquerda, porque com a direita, claro, vai se segurando o cigarro com aquela pose de bicha virgem às 4 da manhã.
Bom, assim se inicia um parágrafo do que se pretende ser uma estória. Que, já vou adiantando, aos mais sensíveis, sujeitos a lágrimas e soluços, suicidas em potencial, a estória que aqui se pretende contar, bem entendida, depois não reclamem, ela é toda baseada em fatos verídicos. Por isso, menores de idade, deixem a sala, ou melhor, fechem o e-book, e vão se masturbar diante da madame Internet que espera ansiosa por vocês.
Ora, não se assustem! Esta é sim, uma estória verídica, mas até a página dois. Ou até que a tentação irresistível se imponha de maneira absoluta e definitiva e leve este aprendiz de autor a abrir um período durante a narrativa que aqui se inicia para, entrementes, falar daquele sujeitinho.
Dirão os entendidos: Senhoras e senhores, amantes da boa leitura, reneguem este abusado rapaz que pensa ser um novo Shakespeare. Mas eles pensam isso de mim! Deus!
Não sei por que razão toda vez que Sergio vem me visitar eu pego para ouvir Cindy Lauper pelo resto da tarde e noite adentro, passo o café, logo pela manhã, ouvindo Cindy Lauper. Luciene chega e pergunta: De novo, ouvindo Cindy Lauper, baby? Sim, baby. De novo. De novo por quê? Sergio me visita duas ou três vezes por ano. Ano houve que ele me visitava quase todos os dias. É por isso que eu fico coçando a pontinha da orelha. Da direita ou da esquerda? Sabe que ainda não parei pra observar isso? Prefiro acender ao cigarro. Porque, neste exato momento, não venta, não chove, e me desculpe você leitor, mas a estória verdadeira e emocionante que eu tinha pra lhe contar vai ficar pra outra oportunidade.
Mentiroso, eu? Claro, afinal, sou escritor. Ou não? Você decide. Mas só depois de destruir a tela do seu computador. 

sábado, 18 de junho de 2011

Unknown Pleasures, Mr Hook

O capitão Hook aterrissou em Sampa e fez a platéia delirar. Do que estou falando, pirralhos? Bem, de um sujeito, hoje com 55 anos, mas, com cara de 60 (como todo bom roqueiro) que fez parte de uma das melhores bandas pós punk surgida até o momento. O baixista Hook virou também vocalista e, segundo Thales de Menezes do jornal Folha de S. Paulo, ele mandou bem. Foi o primeiro de dois shows que Peter Hook, ex-baixista da Banda Joy Division que depois virou New Order, fará em São Paulo, na Estúdio Emme. O primeiro foi na sexta, 17, e o segundo acontece na madrugada de hoje para amanhã. No repertório, as músicas de Unknown Pleasures (1979) o primeiro disco do JD, produzido pela gravadora independente Factory de Martin Hannett, responsável pelo ar sombrio e visual meio germânico anos 1930 da banda de Manchester, Inglaterra, e que durou pouco (1979-1980), gravou apenas dois discos (Substance é o outro), mas escreveu uma página à parte na histórica do rock.
 Vale a pena pegar a lata velha ou o cavalinho envenenado e dar uma esticada até a gélida terra do faroeste contemporâneo, ex-terra da garoa, hoje terra do pó, apesar das ruas asfaltadas e da selva de concreto.
Falando um pouco mais sobre Hook, ele era, digamos, o bom moço do JD. Ian era o maluco talentoso, tanto que acabou seus dias pendurado pelo pescoço numa corda, aos 23 anos, em maio de 1980. Bernard Summer tocou a coisa adiante, com Hook e o baterista mais doido ainda, Stephen Morris, e o que sobrou da JD virou New Order. E não é que os caras não decepcionaram. O Order invadiu as pistas de dança do mundo em meados dos 80 e início dos 90 com hits como Bizarre Love Triangle.
Bom, não vou ficar aqui torrando a paciência de ninguém me excitando à custa de reminiscências. Melhor é curtir o som dos caras, o que eu recomendo. Fica valendo e serve de consolo pra quem não pode ir até Sampa logo mais assistir ao show de Peter Hook.

Legendas das fotos:
1) Peter Hook na atualidade;
2) Banda Joy Division (Peter Hook é o segundo, a partir da direita);
3) Capa do disco Unknow Pleasures (Joy Division, 1979, Factory).


quinta-feira, 16 de junho de 2011

OS FILHOS DE DEUS

Então, eu me pergunto, se nós, seres humanos, reles mortais, passageiros, realmente merecemos este mundo tão lindo? A cada dia acredito mais nas palavras do Chefe Seatlle respondendo ao presidente dos EUA, em 1852. Depois, nós é que somos instruídos, cultos, inteligentes. Como? Se sequer aprendemos a respeitar o chão em que pisamos. E não pedimos licença, nunca, para entrar e estar naquilo que não nos pertence: O planeta Terra.

"Se a natureza é tão bela, por que encerra tanto sofrimento ?". E.Hemingway.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Amedeo, antes de pintar, escrevia

Suporte a sua dor
Seja um guerreiro
Sangre até o fim
Se preciso for
Vá mais adiante
Atrás depois do fim
Onde o sol se põe
Onde a lágrima assim
Cai
Sem alcançar o chão

Enfrente o inimigo
Olhe-se nos olhos
Ele está a sua frente
É preciso derrotá-lo
Pra que surja o novo
De dentro de você

Sua estrada é longa
Seu destino certo
Além de Damasco
Cegos não conduzem cegos
Dê-se aos vermes
Pra que possas ressurgir
Reluzente
Em tua volta
Uma luz
Em tua mente

Ela há de te guiar
Revelar-te no vale
À noite, entre sombras
Daqueles que pereceram
Antes de ti
E não podem renascer
Porque não acreditam

Se tais palavras não lhe tocam
Se tais versos nada lhe dizem
Esqueça
Siga em frente
Você está entre os chamados
Mas não foi escolhido
Porque não quis.

Dou voz aos mudos, luz aos cegos, ouvidos aos surdos. Recolho a dor espargida como nuvens negras no céu agonizante da vida daqueles que partiram antes, sem compreender. Sou intermediário. Eis o que sou. Nada mais. – gjcjr.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A GRANDE ILUSÃO

Está no Portal G1:

O consagrado escritor britânico Terry Pratchett, 63 anos, afirmou ter dado início ao processo que pode levar a seu suicídio assistido em uma clínica na Suíça. Segundo o site do jornal britânico "The Telegraph", o autor recebeu formulários para escolher a data e o lugar de sua morte.
Terry Pratchett, responsável pela série "Discworld" (já vendeu 65 milhões de livros), tem uma forma rara de Alzheimer com um início precoce. (...)

Suicídio. O maior equívoco que um ser humano pode cometer. A vida não está no corpo humano, está no espírito que é o que nós somos, e não o que temos. Quem abdica da vida esperando encontrar solução para o problema com o qual ainda não consegue conviver, vive, do lado de lá, uma grande decepção, por se surpreender ainda vivo, e, em situação bem pior que a anterior. A fé e o amor à vida são as mais potentes armas de que dispomos para enfrentarmos os problemas aos quais todos nós estamos sujeitos. E problemas não são eternos, passam. E como ensina Emmanuel, são oportunidades para o nosso crescimento espiritual,  que, em resumo, é a finalidade principal de nossa existência. – gjcjr.

O curioso é que obtive essa informação e redigi esse post, enquanto ouvia “The Eternal” da banda JD. Também havia um corvo no beiral do telhado aqui de casa, que, de repente, bateu asas. O que, a meu ver, significa: somos chamados à realidade quando nos perdemos em devaneios, porque os ventos mudam de direção, e ninguém permanece na escuridão por muito tempo. Thank you very much, Ian. Good luck!”.

CLOSER

Então, sento-me à sombra da árvore de Santa Cruz, e fico pensando nas coisas que não tenho. Naquelas que nunca tive e nas outras que jamais terei. Dá vontade de escrever. Mas isso, em princípio se parece uma estupidez. Porque aos 20 anos, é preciso ter asas para voar, e, aos 40, chão onde pisar. O remédio não funciona mais. 

domingo, 12 de junho de 2011

PARDAL NA ÁRVORE, ESCONDE-SE DA CHUVA

Hoje é um dia especial. Vejam: Um grupo de leitores, conforme o e-mail da Cia. das Letras, rejeitou para publicação os originais de "Cerimônia". Idiotas, não sabem o que estão perdendo. Mas vá lá né, hoje  é domingo e resolvi ser piegas. Em toda mentira há um fundo de verdade na vida de quem escreve. Sério.
Tudo o que desejei e tudo em que acreditei, tudo o que imaginei fosse possível, nada se realizou. Nada se confirmou para mim. Tudo se perdeu num redemoinho de mentiras. Toda a esperança, levada pelo vento, feito as penas delicadas das aves mortas. Feito as vísceras expostas dos animais insepultos que a chuva desfaz. E faz. Misturar-se nas entranhas da terra, disputada a cada palmo pela ganância daqueles que desconhecem a importância e o significado do chão que pisam.
Todas as minhas referências foram deixando o palco, pouco a pouco, desfazendo o cenário da vida a cada instante. As the word falls down. Sentado na calçada em frente de casa. Esperando o primeiro dos amigos da rua sair ao portão, pra dar um sentido especial àquela tarde de domingo. Fria e chuvosa como esta. Aos 11 anos, os meus amigos. Distantes, intocáveis, irrecuperáveis 11 anos.
As pessoas que eu mais amava me fazem falta. Elas se foram. Não retornam. O meu lado humano ausentou-se. Faz tempo. E até agora, nada de voltar. Nada.
Todas as respostas a seu tempo. Mas quando se tem todas elas, nada faz sentido. Preciso de esperança. Da possibilidade do erro, pra tentar sem medo, abrir a porta que se acha à frente. E que sei, me levará ao destino.
De todas as coisas que se perderam e de todas que não se realizaram, o que mais incomoda é o amanhã, que já não existe mais, além da janela para onde olho a cada manhã, a espera da primeira nuvem que passa. Passa. Desfazendo-se.
Desisti de tentar ver tudo a minha volta com outros olhos. Eu só tenho esses. E não posso enxergar coisa alguma com os olhos de outros.
Desisti de achar que dentro de meu coração corre rápida e quente, feito sangue, a esperança. Não. Não corre.
A luz de um poste não foi feita para mim. Não dessa vez. A sombra do vão da ponte, sim. É onde nasci para viver. E tudo o que eu tenha feito em forma de palavras há de perecer. Cobrindo meu corpo da vergonha, aquecendo-o do frio, fazendo que meu espírito volte à sua insignificância. Existo. Pertence à horda dos perdedores. É, também, uma forma de existir. Sem dúvida, a menos apreciável. Dêem-me lápis e papel. Enquanto o Cadillac, vermelho, 69, não pára em frente ao portão.

NOITE CELESTE

Apontar o lápis, amassar a folha. Recomeçar. Faz tempo. Agora não é mais assim. Basta deletar. A palavra, a frase, o arquivo, pessoas. Não, pessoas não se deletam. Ainda não. Mas quem sabe um dia.
Solidão. Anote aí copidesque: Dois pontos. Solidão dois pontos. Assim, por extenso. Fica mais bonitinho. SOLIDÃO. Caixa alta para o horror do revisor. Adoro ele. O revisor, não a Solidão. Esta é minha namorada, eterna companheira, único amor.
Maceió me espera. Ao menos nos meus sonhos. Inútil. Terminarei meus dias numa casa de campo, à beira de um lago. Tuviras, tilápias... Piranha. Barba crescida, Marlboro amassado no canto da boca, camisa xadrez, desabotoada, amassada, remendada; camisa xadrez e camiseta branca, por baixo. Johnnie Walker, Gordon, White Horse, Ballantine’s 12, Old Eight 65, a patota toda. E, claro, servido, pelo Jaime – De manhã, de tarde, e de noite. On the rock’s. Ok? All right.
 Na praça, final de tarde, folhas mortas eu pisotearei imaginando vingar-me... De quem?
Passos. Duros e incertos... Levam-me ao destino. Desde os nove anos ele me espera. O momento sublime: recolher-me em seus braços, querida. Como então me verá? Garoto? Homem? Velho?
Não sei. É o que digo quando me olho no espelho. Nada.
Eu me apresentarei perante o tribunal de Madame Consciência como folha em branco. Sem pauta. Não houve quem a preenchesse. E me recusei a fazê-lo.
Promessas? Pra quê?
Sorrir? Como?
Ser feliz? Onde?
Eu!
Quem? De quem está falando, rapaz?
Espere, espere! Quando a noite chegar, ouça:
Dormirei aqui. Bunda no chão, encostado no poste.
Entrada de parágrafo, dois pontos:
Chuva que não cessa. Asfalto molhado, andorinha defecando sobre minha cabeça. Seis horas e os trovões abafam os sinos da Matriz do João. Bicicletas no quintal de casa. Ruas vazias. Céu escuro carregado de nuvens. Onde as estrelas? Dalva está muda no centro da praça. E o Museu virou carvão. Nem parece Rio Claro. Sem os trilhos.

I... I wish you could swim, David, I-I will be king. Pode acreditar.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

59 SEGUIDORES

Nós trabalhamos muito, acreditando construir uma vida melhor, um mundo melhor. Nós temos cada vez menos tempo para nós. E a cada instante, somos levados a acreditar que o inferno de nossas vidas são os outros. Cada vez mais somos mais individualistas e, portanto, mais orgulhosos. O mundo se expande e nós nos encolhemos. Vemos tudo adiante e em torno de nós, entretanto, somos incapazes de olharmos dentro de nós.

Há quem veja nisto o progresso. Eu vejo a perdição. E não me chamo Camilo, desta vez. Embora, algumas vezes, bem poucas, eu ame a vida. Por um instante. Mas não o suficiente, talvez, para continuar...

O mundo está saturado. Há gente demais (embora, alguns, não mereçam essa denominação), há veículos demais, sonhos demais, ambições demais, expectativas demais. O tempo urge, a vida reclama um instante de atenção, e o espírito, em vão, espera pelo carinho, que dedicamos ao cachorrinho da madame, ao cantor no palco, ao artista da novela, ao texto, que, por absoluta falta de sintonia, de nossa parte, custa a sair.

A roda da vida humana gira célere e seremos em algum momento cuspidos para fora. Voltaremos a ser em realidade o que sempre fomos e jamais deixamos de ser: espíritos.

Então voltaremos a pensar e agir, e não o contrário. Porque o pensamento, depois da ação, geralmente é remorso.

E quem sabe, voltaremos a ser parte da natureza, por nós, vilipendiada, ultrajada, esquecida. Voltaremos, talvez, a amar.

Afinal, Deus existe. Até a página 2.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

DA JANELA LATERAL

Há coisas que nos faltam dentro de nós, como se nos faltasse um membro do corpo humano que habitamos. Por exemplo: A capacidade de dizer eu te amo. A certeza de ter esperança. De encontrá-la, ao pé da porta, a nos esperar, logo pela manhã, quando o sol, antes de nós se levanta.
Se longe se vai o dia em que, peito estufado de orgulho, você dizia: o único amor da minha vida, então, você se junta aos milhões que, espalhados pelos cantos do mundo, também se lembram com saudade desse dia.
Dentro do seu quarto, abraçado à solidão, o olhar em direção à janela, em um princípio de noite, um final de tarde, você pensa, e repensa, e acredita que amanhã, tudo será diferente. Mas, basta que você abandone o seu recolhimento, ponha o pé pra fora do quarto, ganhe a rua, pra que o mundo de concreto e de luzes lhe desminta, e triture as suas boas intenções, e o faça se sentir ridículo, porque, afinal, bons são os fortes, e belos os vencedores. E você entre eles não está.
Esqueça. Não se importe com a realidade. Construa a sua. E a preserve do veneno dos olhares e sentimentos alheios, que outra coisa não fazem senão invejá-lo.
Há um Deus pra cada um de nós. E ele não está nos livros, no altar, em nenhuma crença filosófica ou religiosa. Porque é grande e poderoso demais pra caber nestas pequenas coisas. Ele está no seu coração. E o sangue que põe esse coração em movimento se chama amor. Quando ele pára de circular você está morto. E o único modo de não morrer nessa história é ter vontade. Vontade de continuar. E você precisa continuar. Porque o destino não conhece o ontem. E o destino é a felicidade.

Trecho de “Conteúdo Zero”, de nossa autoria, em fase de redação.