domingo, 26 de junho de 2011

GÊNIO E LOUCO, ADORÁVEL FASSBINDER

Quarenta e três filmes, trinta e sete anos de vida. Não mais. Os números surpreenderiam se o autor da proeza não se chamasse Rainer Werner Fassbinder. Nascido em Bad Wörishofen, na região da Baviera, em 31 de maio de 1945, falecido em 10 de junho de 1982, em Munique, Alemanha.
Homossexual assumido, genial diretor, Fassbinder também atuou no cinema como ator, editor, produtor, além de administrador de teatro. Na extensa filmografia desse cineasta alemão, Berlin Alexanderplatz (1980) é um caso à parte. O filme, baseado na obra literária de Alfred Döblin (1878-1957) tem nada menos que 15 horas e meia de duração. No Brasil, foi exibido ao final da década de 80 pela TV Cultura de São Paulo em episódios diários. Berlin Alexanderplatz narra estória de Franz Biberkof que ao sair da prisão após cumprir pena de quatro anos se depara com as dificuldades e humilhações porque passa a derrotada Alemanha ao término da Primeira Guerra Mundial. Para sobreviver, Biberkof vive de trabalhos temporários, enquanto mantém relacionamento amoroso com uma prostituta que lhe trará vários problemas e decepções.
Estrelado por Günter Lamprecht no papel do personagem principal, o filme traz ainda no elenco Hanna Schygulla, Barbara Sukowa e Gottfried John, entre outros. Em 2006, a película, que retrata um painel primoroso da Alemanha dos anos 20 passou por processo de remasterização e voltou ao mercado cinematográfico disponível em DVD.
Como diretor de cinema, Fassbinder bebeu na água de todas as fontes. Em seus filmes encontram-se elementos clássicos, barrocos, realistas, modernos, alegóricos e expressionistas.
Era um ótimo diretor de cena, que merecia dele, minuciosa atenção com objetivo de atingir um contundente impacto estético. Sua constante pareceria com o cameraman Michael Ballhaus lhe permitiu cometer ousadias nas filmagens como se verifica em Martha (1973) e Roleta da China (1976).
Fassbinder foi fortemente influenciado pela obra do cineasta norte-americano Raoul Walsh considerado um dos mestres do melodrama hollywoodiano.
Percebe-se nos filmes de Fassbinder a busca por um retrato muito próximo à realidade alemã, o que salta aos olhos do telespectador quando o cineasta aborda temas como a história, a cultura, a sociedade e a geografia germânica. Várias classes sociais alemãs foram representadas em seus filmes: o proletariado, os intelectuais, os comerciantes, os burgueses e até os jornalistas. Sem fugir à realidade do seu tempo, Fassbinder tratou também de assuntos como o terrorismo. E nem o nazismo escapou do seu olhar aguçado como mostram os filmes O Desespero de Veronika Voss (1981) e Lili Marlene (1980).
Os personagens de Fassbinder, em geral, sofrem de crise de identidade. São pessoas que buscam de maneira desesperada reinventar-se até que se descobrem incapazes, o que os leva a uma situação extrema.
O homossexualismo está presente na obra de Fassbinder. Em 1982 o cineasta filmou Querelle, baseado no romance homônimo do escritor francês Jean Genet.
Fassbinder tinha predileção por personagens rejeitados pelo convencionalismo da sociedade alemã. São, em geral, fracos, sonhadores e derrotados. E a maneira de fazê-los se expressar são exatamente aquelas do padrão comercial do melodrama. Com uma diferença. Ou duas. Fassbinder escrevia e filmava as estórias de seus personagens com a febre da convicção de que melhor viver pouco, mas intensamente. E mais, a essa alucinante maneira de criar à luz e ao som da realidade adicionava a medida às vezes correta, às vezes exagerada de intelectualidade.
A mulher tem significativa importância nos filmes do cineasta. Tornaram-se célebres os personagens vividos por Hanna Schygulla, Irm Hermann, Ingrid Caven, Brigitte Mira e Margit Carstensen.
As lágrimas amargas de Petra Von Kant (1971) são também as de Fassbinder. Seu modo de olhar a vida e o mundo era um modo feminino e estimagtizado pela revolta inerente a todos aqueles que se deparam obrigados a viver uma realidade que repudiam.
Ao lado de Wim Wenders e Werner Herzog, Fassbinder é considerado um dos expoentes do novo cinema alemão (1962-1989), movimento cujo objetivo era recriar a cinematografia do país a partir do zero.
Era filho de pais separados, gostava de futebol, dizia que só poderia dormir quando estivesse morto. Morreu aos 37 anos, de overdose provocada por mistura de álcool e barbitúricos. E sem assistir a estréia de seu último filme: “Querelle” (1982). Seus herdeiros, ainda hoje, disputam sua herança. Talvez não compreendam que a maior herança de Fassbinder foi entender o que disse Emile Zola: “Entre não fazer nada e fazer alguma coisa é sempre preferível fazer alguma coisa”. E Fassbinder fez. Em tão pouco tempo. De maneira apaixonada e autodestrutiva. Fez muito. Pelo cinema. E por aqueles que apreciam a sétima arte.
CURIOSIDADES:
As lágrimas amargas de Petra Von Kant, que aborda o tema do amor lésbico foi encenada no Brasil, em 1984, por Fernanda Montenegro e Renata Sorrah nos papéis principais, em montagem da Companhia Teatro dos Quatro sob a direção de Celso Nunes.


A produção de Berlin Alexanderplatz (1980) teve 100 atores, 3000 figurantes e 01 ano de filmagem.


Na opinião da escritora e teórica norte-americana Susan Sontag, Fassbinder era um dos mais extraordinários talentos do século 20.


O último trabalho de Fassbinder no cinema foi no filme “Kamikaze” (1982) em que atua como ator.


Legendas das Fotos (Reprodução):
1) Fassbinder no set de filmagens de Lili Marlene (1980),
2) Filmando;
3) No set de Berlin Alexanderplatz (1980), ao lado de Günter Lamprecht (Franz Biberkof) e Barbara Sukowa;
4) Cartaz do Festival Fassbinder;
5) O olhar cínico e faceiro do genial diretor.


(Publicado na edição No. 7 da Revista do Cinema Caipira editada pelo Grupo Kino Olho, Set./2009)

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