domingo, 12 de junho de 2011

PARDAL NA ÁRVORE, ESCONDE-SE DA CHUVA

Hoje é um dia especial. Vejam: Um grupo de leitores, conforme o e-mail da Cia. das Letras, rejeitou para publicação os originais de "Cerimônia". Idiotas, não sabem o que estão perdendo. Mas vá lá né, hoje  é domingo e resolvi ser piegas. Em toda mentira há um fundo de verdade na vida de quem escreve. Sério.
Tudo o que desejei e tudo em que acreditei, tudo o que imaginei fosse possível, nada se realizou. Nada se confirmou para mim. Tudo se perdeu num redemoinho de mentiras. Toda a esperança, levada pelo vento, feito as penas delicadas das aves mortas. Feito as vísceras expostas dos animais insepultos que a chuva desfaz. E faz. Misturar-se nas entranhas da terra, disputada a cada palmo pela ganância daqueles que desconhecem a importância e o significado do chão que pisam.
Todas as minhas referências foram deixando o palco, pouco a pouco, desfazendo o cenário da vida a cada instante. As the word falls down. Sentado na calçada em frente de casa. Esperando o primeiro dos amigos da rua sair ao portão, pra dar um sentido especial àquela tarde de domingo. Fria e chuvosa como esta. Aos 11 anos, os meus amigos. Distantes, intocáveis, irrecuperáveis 11 anos.
As pessoas que eu mais amava me fazem falta. Elas se foram. Não retornam. O meu lado humano ausentou-se. Faz tempo. E até agora, nada de voltar. Nada.
Todas as respostas a seu tempo. Mas quando se tem todas elas, nada faz sentido. Preciso de esperança. Da possibilidade do erro, pra tentar sem medo, abrir a porta que se acha à frente. E que sei, me levará ao destino.
De todas as coisas que se perderam e de todas que não se realizaram, o que mais incomoda é o amanhã, que já não existe mais, além da janela para onde olho a cada manhã, a espera da primeira nuvem que passa. Passa. Desfazendo-se.
Desisti de tentar ver tudo a minha volta com outros olhos. Eu só tenho esses. E não posso enxergar coisa alguma com os olhos de outros.
Desisti de achar que dentro de meu coração corre rápida e quente, feito sangue, a esperança. Não. Não corre.
A luz de um poste não foi feita para mim. Não dessa vez. A sombra do vão da ponte, sim. É onde nasci para viver. E tudo o que eu tenha feito em forma de palavras há de perecer. Cobrindo meu corpo da vergonha, aquecendo-o do frio, fazendo que meu espírito volte à sua insignificância. Existo. Pertence à horda dos perdedores. É, também, uma forma de existir. Sem dúvida, a menos apreciável. Dêem-me lápis e papel. Enquanto o Cadillac, vermelho, 69, não pára em frente ao portão.

Um comentário:

  1. Você é demais, amo seus escritos, me deu uma dor tão grande dentro de mim.

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