terça-feira, 28 de junho de 2011

METAMORFOSE AMBULANTE

A primeira vez em que ouvi falar do Raulzito foi no quarto lá de casa que eu e meu irmão dividíamos.
Era um sábado à tarde. 1975 ou 6, talvez. Lembro que o Carlão chegou com um disco debaixo do braço. Ele sempre trazia da rua algum disco debaixo do braço. Pôs pra tocar na sua pick-up com amplificador Gradiente e enquanto fumava um Minister encostado na janela do quarto ficava olhando para mim, talvez pensando como é que podia ter um irmão tão idiota feito eu.
Fiquei curtindo junto à ele, naquele silêncio diáfano e sepulcral tão habitual de nossa existência em comum, uma parte do baú do Raul.
Olha, olha o trem, vem chegando... e eu, naquela maldita mania minha, até hoje incurável,  de conceber em minha  mente fértil cada cena e cada movimento daquela poesia que Raul cantava como se o fizesse com o coração.
Meu irmão se foi pra sua casa ser gauche, cuidar da esposa e dos filhos e eu fiquei, eu sempre fico.
Reencontrei com o Raul numa daquelas baladas que a gente curte aos 17, 18, 19 anos, quando nem sabia exatamente o que eu queria da vida, e acho que continuo não sabendo.
Naquele tempo a doença incurável estava apenas no início. O câncer da Literatura ainda não havia sofrido o processo de metástase em minha alma, de modo que alguma lucidez meio hispânica, meio germânica, meio francesa, meio egípcia, italiana, jamais brasileira, um ranço dessa lucidez pra ser exato, eu ainda possuía.
Raul é o cara. Todo mundo dizia isso com umas doses de fogo paulista na cabeça. E uns pitacos da erva preciosa. Mas a gente segurava a onda. Bem, eu ao menos segurava. O que não se pode dizer o mesmo desse ou daquele amigo daquela época maluca e cheia de beleza.
Soube que Raul havia se tornado de fato uma metamorfose ambulante, da mesma forma como soube que Renato havia saído, enfim, à procura do tempo perdido, destino de todos nós que acreditamos algum dia de nossas vidas naquele sujeitinho mentiroso de nome tão bonito e misterioso quanto: O amor.
É... Completamente indiferente e fora de mim eu recebi ambas as notícias, que cheguei a rir e dizer bem feito pra ambos. Afinal haviam se fudido feito eu. Bem feito pra eles. Isso se chama revolta, sabe. Quando você não é feliz, não admite que ninguém seja. Mesmo que não admita isso, com palavras.
Foi assim.
Mais ou menos.
Raul faria hoje 66 anos humanos. Raul não morreu. Eternizou-se. Fundiu-se à sua obra. Tornou-se uma estrela. Uma dessas que a gente vê certas noites brilhando intensamente no céu, enquanto tenta se convencer a tentar outra vez.
Não sei se vale a pena. Raul talvez já saiba.

Um comentário:

  1. Nas primeiras vezes que ouvi Raulzito, muitas das coisas que ele dizia não faziam sentido para mim. Hoje eu as entendo perfeitamente.
    Que saudades !
    Parabéns pelo texto.
    Abraço

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