quarta-feira, 29 de junho de 2011

OUT

Já me cansei de dizer isso. Mas vivemos a era da mediocridade. Os medíocres, ícones das artes, da cultura e dos esportes, satisfazem o ego e as exigências de uma geração sem compromisso senão consigo mesmo, sem conteúdo senão aqueles que pode descartar já na manhã seguinte, no instante seguinte, a espera de outro que certamente virá. Basta acessar o Ipad, atender ao celular, ou perder um segundo do precioso tempo pra dar uma espiada na tevê aberta.
Talvez por isso essas pessoas se contentem com os atuais cantores (se existem), os escritores e artistas, da bola e dos palcos, e com o sertanejo universitário, os bailes de forró e a mulambada bela. Toda ela.
Mas para a geração anterior a esta a qual pertenço entreter-se ou adquirir conhecimento através da arte ou da cultura, encontrar satisfação em uma partida de futebol conforme os padrões de qualidade estabelecidos na atualidade para tais e quais é perda de tempo.
Não quero que o tempo volte que o mundo seja aquele de novo ou que a atual geração aprenda a apreciar a arte e a cultura, insira-se aí o futebol, de um tempo não muito distante, que se encontra facilmente registrado nas imagens e nos áudios de época.
Nesse mesmo instante em que rabisco estas linhas algum grupo de artistas, intelectuais ou coisa que o valha está se reunindo para definir diretrizes de um plano, cujo único objetivo é conseguir recursos públicos para ganharem dinheiro fazendo arte, escrevendo, ou pensando. Como se para fazer essas coisas fosse preciso bater o cartão todos os dias, e fazer horário, como fazem os realmente trabalhadores, empregados de uma firma qualquer, cônscios dos seus deveres.
Ora, parem de importunar o poder público e vão produzir a arte ou acrescentar ou modificar a cultura já existente da maneira como podem.
Acham o quê? Que se o dinheiro vier lá de cima, as coisas serão como pensam? Não. Será como os donos do dinheiro pensam. E querem. Simplesmente porque no sistema vigente manda quem pode e obedece quem tem juízo. Você só é bom enquanto for interessante e estiver a serviço daqueles que, de alguma forma, determinam o rumo da grande embarcação chamada humanidade.
Depender de recursos públicos pra viver da arte é uma afronta à inteligência, um tapa na cara das pessoas que realmente levam a vida a sério e derramam suor pra levar pra casa o sustento dos seus filhos.
E saibam, que o artista, o escritor, o pensador, ele não pode e não deve levar a vida a sério, porque ele tem que se submeter a todas as possibilidades que a loucura lúdica oferece. Ele tem que se entregar de corpo e alma ao caos. Jamais esperar a recompensa senão o castigo. Nunca o reconhecimento senão a indiferença. Porque, para ser de fato bom naquilo que faz ele deve estar além do seu tempo. Ele deve nascer sabendo. Ele deve conduzir e não ser conduzido. Ser condutor do seu próprio destino. Deve ludibriar Cerberus e atravessar o portão que leva ao vale das sombras para que conheça a morte e a dor, sem as quais jamais compreenderá nada, jamais tomará ciência da sua força. A mesma que o fará percorrer as montanhas e os penhascos sem precipitar-se nos braços da ilusão, ainda que deva se deitar com ela pra saber o que é o amor.
Democracia não combina com arte e cultura. Nivela a todos por baixo, porque satisfaz a vontade da maioria burra. Sempre burra, não é Seu Nelson?
É preciso que sobrevivam e se destaquem os melhores. Mas nos dias de hoje não é o que acontece. O mundo não conhece os realmente melhores. E receio mesmo que eles, os melhores, já se cansaram deste mundo.
No caso específico do futebol, que já foi uma forma de arte, paga-se hoje muito mais caro por um ingresso para assistir aquilo que há muito tempo deixou de ser espetáculo. Sem contar que os estádios de duas ou três décadas para cá não se tornaram mais confortáveis ou seguros, porque muita gente desprovida de um mínimo de inteligência acha que a capacidade para comportar o número de torcedores é mais importante do que os itens primordiais anteriormente citados.
Não receio cometer heresia. Mas, o que nos dias de hoje joga o craque da vez, qualquer camisa 10 de um time da Divisão Intermediária paulista nos finais dos anos 1970 jogava. Ou até mais.
Mas o craque de hoje teve a sorte que aqueles não tiveram. Nasceu na época do faz de conta. Hoje todo mundo é artista, escritor, jogador de futebol, jornalista, porque todo mundo faz de conta. E a macacada de auditório aplaude. Precisam acreditar em alguma coisa. Afinal, Deus está meio fora de moda. A Ciência explica tudo. Eles apenas esquecem que as leis da física que alguns tanto admiram devem ter sido inventadas por um princípio inteligente (dêem a ele o nome que quiserem), enfim, por alguém que pensa, e certamente, este alguém, não fui eu e muito menos você leitor. Mas eles é que são gênios não é mesmo? Nós, os inquietos, os questionadores, os sonhadores, nós não somos nada. Não nessa época cujo reinado pertence aos medíocres. Afinal, estes tempos durarão bem pouco e estão no fim, e aos pobres de cultura e inteligência ao menos as migalhas. Porque Deus é bom e não desampara ninguém, é o que nos ensinaram.  Mesmo os rotos têm direito a ser rei por um dia. E eles estão sendo.
Que devemos fazer? Contestar? Lutar? Nada disso. Os bravos soldados são aqueles que após darem o seu sangue e o melhor de suas forças e de sua inteligência por uma causa, sabem o momento de se afastar da luta e buscar novos horizontes e novas causas, e novas lutas.
Quando os medíocres, os rotos, alcançarem o castelo, já teremos partido, e eles finalmente conhecerão a História. Mas, o que farão com ela? Nada. Eles não sabem ler nas entrelinhas, não decifram os códigos porque não enxergam a um palmo de distância. Não possuem mente muito menos coração para sentir para onde o vento sopra e onde o sol se põe; eles não têm sangue nas veias porque jamais o derramaram em nome de uma causa, em nome de suas próprias vidas, em nome dos seus sonhos e dos seus familiares e amigos.
Então eles herdarão a terra porque são bons. Sim, eles realmente são. Não é o que dizem os jornais, as revistas, os sites e a televisão? Pois é.
Agora, esqueçam  finados leitores de tudo o que eu disse. Está começando a novela das 9. E ela espera por vocês.
Boa noite. Macacada.

Um comentário:

  1. Nossa ! Esse texto lavou minha alma. Parabéns, muitíssimo parabéns !

    Abraço

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