sexta-feira, 24 de junho de 2011

RIO CLARO, ONDE AS RUAS NÃO TEM NOME

Moro numa cidade em que as ruas não têm nome, onde as árvores ainda não disputam espaço com enormes fortalezas de aço e concreto; onde os trens atravessam ruas e avenidas, sem serem molestados, e os pedestres, pacientes, não se importam de esperar. 


Na cidade onde moro, as pessoas conversam nas calçadas, ouvem música no rádio, à noite, enquanto esperam pelo sono. Minha cidade é progressista, uma das mais desenvolvidas do estado, os médicos são atenciosos, e os farmacêuticos não se importam de atender à noite, em meio à madrugada, mesmo que chova. 


Há ruas de paralelepípedos, no centro, por onde circulam charretes ornamentadas. Cinemas são três, e todos bem localizados, limpos e perfumados, e grandes. Há bares noturnos e boates pra quem gosta de dançar e ouvir boa música. 


Os funcionários públicos nos atendem com sorriso no rosto, seguido de bom dia, boa tarde, boa noite, pois não? Em minha cidade se produz a melhor cerveja do mundo, sem exagero. Afinal, nos ensinaram na escola, que o mundo, primeiro é o chão que pisamos, depois vem o resto. Cantamos o hino nacional, perfilados no pátio da escola, toda sexta-feira, em continência à bandeira, e sabe, isso não é frescura ou idiotice, é patriotismo, e respeito. 


Na rua onde moro, todos os vizinhos se falam, e a criançada brinca, assim, no meio da rua, porque quase não há motocicletas, e as que existem, longe, anunciam sua aproximação, buzinando. Quase todo mundo tem uma bicicleta. 


Ao meio dia, em ponto, ouve-se o apito estridente, porém, indispensável, da maior e melhor oficina ferroviária de que se tem notícia. Tem dois jornais, apenas, mas há o que se ler, todos os dias. E deixemos as polêmicas para outra ocasião. 


Quero falar de minha cidade. Dizer que, há trezentos metros do centro, temos um preservado horto de eucaliptos, onde se tem um lago bonito e habitado por marrecos e patos, e até um restaurante tem, e um trenzinho que nos leva a passear pelo horto e adjacências, ouvindo o gorjeio dos pássaros silvestres, jamais vistos, porém, não menos encantadores. 


Aqui, cidade onde moro, se tem o hábito de pedir a benção quando se cruza na rua com algum religioso ou alguma religiosa. E eles nos acolhem com alegria e satisfação. Costuma-se ir à missa, aos domingos, e, a procissão da sexta-feira santa, em todas as paróquias, é bastante concorrida. Há quermesses, em meados de Junho e Julho. E jogos de futebol, aos domingos, no estádio mais charmoso, do time mais querido da cidade, e que veste vermelho e verde. 


Ia me esquecendo do coreto da praça central, a praça tão bem freqüentada, por trabalhadores que por ali passam a caminho da labuta ou do descanso, e por famílias a passeio, aos finais de semana. Esta é minha cidade, e enquanto escrevo estas linhas, ouço o tropel do cavalo anunciando a chegada do padeiro. 


São seis horas da manhã. Bengala fresquinha, meia-lua com o açúcar derretendo por cima, leite de saquinho, indaiá, melhor não há. Hoje tenho prova na segunda aula. Estudo numa escola pública que é vocacional e modelo de ensino para todo o país e de prestígio que atravessa as fronteiras. Bem, aqui me despeço, desejando um bom dia a todos. Rio Claro, 10 de fevereiro de 1975; meu irmão Junior, hoje, completa 6 anos. E eu me chamo Carlos Alberto.


Parabéns Rio Claro, pelos seus 184 anos. Um dia você foi assim. E eu não me esqueço.

3 comentários:

  1. Essa, é a segunda vez que tenho o privilégio de ler esse belo texto e de sonhar com essa cidade queé um encanto, imaginar cada detalhe aqui descrito, J. meus parabéns, por sua excelente escrita e por seu patriotismo que emociona.
    ''Rio Claro'' ai vou eu...
    Abraços paz e bem.

    ResponderExcluir
  2. Belo texto e descrição de uma cidade que você ama e que vê mudando em seu dia a dia.
    Me encanto com sua narrativa, eu moro em uma cidade do interior e que ainda tem momentos como o que você descreveu.
    Parabéns por sua cidade e á você por tão belo texto.
    Abraços.

    ResponderExcluir
  3. Que saudade de tudo isso !
    Conforme meus olhos corriam essas linhas, eu voltava no tempo...que saudades !!!
    Parabéns pelo texto ! De fato nossa cidade já foi assim um dia.
    Abraço

    ResponderExcluir