terça-feira, 26 de julho de 2011

SUICÍDIO INVOLUNTÁRIO, O OUTRO LADO DA MOEDA

O escritor norte-americano Sidney Sheldon, relata em sua autobiografia (1), o episódio em que, ainda garoto, tomara a decisão de se suicidar, algo que seu pai, hábil vendedor à época, impedira, usando argumento bastante convincente.
Há dois modos de se interromper a vida por conta própria. O mais impactante é o ato tresloucado, desprovido de qualquer razão, em que o indivíduo usando de arma ou procedimento letal dá cabo à própria vida. O outro é praticado ao longo do tempo, através de atitudes que comprometem a saúde física e mental do sujeito. Exemplos: o uso de drogas, lícitas e ilícitas, de medicamentos sem a orientação médica e além do necessário, do alcoolismo, da promiscuidade sexual, da alimentação inadequada e exagerada, da poluição mental, por intermédio de ideias destrutivas, da submissão sem resistência ao pessimismo, da crença permanente de que se é um derrotado, porque não se consegue atingir metas para as quais tanto se trabalha e se luta.
Em o livro Nosso Lar (2), o personagem principal André Luiz, se surpreende quando é informado de que sua passagem pelo Umbral (3) se devia ao fato de ser um suicida, ainda que involuntário.
Camilo Castelo Branco, o célebre escritor português, autor de, entre outros, Amor de Perdição, um clássico da literatura, relata no admirável Memórias de um Suicida (4), as terríveis consequências que sofrera, em virtude de seu impensado ato, ao abdicar da existência humana.
O assunto está sempre em voga mas ganha destaque maior com o falecimento da cantora Amy Winehouse, que, após anos lutando contra o vício destruidor do álcool e das drogas, sucumbira aos efeitos devastadores de tais substâncias.
Considerando os ensinamentos da doutrina espírita, seria Amy uma suicida involuntária, ou seja, não tinha intenção, até onde se sabe, de se matar, mas acabou por fazê-lo, devido os  hábitos agressivos que impôs ao seu corpo físico.
Por que tais fatos acontecem? 
Bem, um dos motivos  talvez seja por que nos falta a compreensão de que estamos em uma condição humana, mas, em verdade, somos espíritos. Portanto, até podemos acreditar que somos eternos, mas não temos a exata noção do que isso representa. Por conseguinte, não aceitamos que a experiência humana é mais uma etapa em nosso infinito aprendizado.
Para mensurarmos a dimensão e a importância da nossa experiência humana, ainda nos sujeitamos a conceitos de vitórias e derrotas, de êxito e de fracasso. Todavia, estas coisas, perdem todo o seu significado grandioso que a elas damos quando vistas do alto de nossas consciências.
Faça de seu corpo físico um santuário sagrado de devoção à vida. Esta deveria ser mais do que uma preocupação, uma meta a ser atingida. E os hospitais e as clínicas psiquiátricas, os presídios e os velórios seriam menos freqüentados.
Mas vivemos em um mundo cujos valores objetivos, como as conquistas materiais, portanto, efêmeras, prevalecem sobre os valores subjetivos.
Desde pequenos somos sugestionados e convidados a competir, a sobrepor o semelhante, a vê-lo como um inimigo a ser batido, e não como um irmão que encontramos em nosso caminho de aprendizado e com o qual podemos caminhar juntos, lado a lado.
O resultado, o sucesso e a vitória são tudo o que importa para nós. E quando ele não vem, porque nem sempre virá nos sentimos insatisfeitos, nos acreditamos incapazes, descremos de tudo, principalmente nas coisas que só o Bem proporciona. O Bem aos nossos olhos perde o brilho, torna-se inútil, sinônimo de derrota, de impossibilidade, de imperfeição e de insuficiência.
Daí é um passo para nos envolvermos com as energias inferiores, que, em nós, encontrarão refúgio para a sua escuridão. Então, estabelece-se uma simbiose, entre um e outro, criando uma atmosfera destrutiva, de alienação à realidade, que envolve e domina a nossa mente, posteriormente, nossos sentidos, e finalmente, o nosso corpo físico, tornando-o escravo das energias negativas, alimentadas pelos vícios de toda a sorte, principalmente àqueles que levam pouco a pouco à degradação moral e humana do indivíduo, ou seja, do espírito, que está na condição humana.
De aprendiz, liberto e senhor de si, em condições de realizar por si só, de aprender e de escolher, ele se torna escravo, submisso, refém da situação que, seja por descuido, ou opção, criou para si mesmo.
Sozinho, não conseguirá sair dessa "teia de aranha" na qual se meteu. Necessitará de ajuda. E, muitas vezes, tão desacreditado da vida que se encontra que ele não deseja essa ajuda. E só a terá de fato, a partir do instante, em que, cansado de sofrer, realmente quiser ser ajudado.
Observada de maneira superficial têm-se a impressão de que tal dramática situação só ocorre com artistas famosos, expostos às influências de toda sorte, em face o seu nível de sensibilidade mais aflorado. Mas não. O fenômeno se dá em muito maior número entre as pessoas consideradas comuns porque não são celebridades, não são artistas. Essas padecem com os sofrimentos, muitas vezes, solitariamente, abandonadas pelos próprios familiares, amigos e colegas de trabalho e de estudo.
Já é hora dos filósofos, psicólogos, escritores e artistas descerem do pedestal de sua auto-suficiência intelectual e buscarem compreender os ensinamentos de Jesus, fundamentados no amor e no perdão, forças motriz que propiciam a felicidade e a paz que todos buscamos.
A finalidade da existência humana não é competirmos entre nós, mas ajudarmo-nos uns aos outros em nossas jornadas de aprendizado.
A fé nos valores morais, a prática do Bem, o desapego consciente às coisas materiais, reconhecendo-se a sua necessidade, sim, mas jamais as tornando sustentáculos de nossa paz e alegria espiritual, são mais que mecanismos, são defesas ao alcance de todos, para que possamos passar ao largo das inclinações aos vícios, das quais todos nós estamos sujeitos, e que nos levam à destruição.
Elevemos o pensamento a Deus, nas horas de maior dificuldade. Lembremos que tudo passa, e todas as experiências por nós vivenciadas durante a trajetória humana são oportunidades para o nosso crescimento espiritual. Porque espíritos é o que de fato somos.

Notas:
1)      O Outro Lado de Mim, Sidney Sheldon (Editora Record, 394 págs.)
2)      Nosso Lar, André Luiz. Psicografia de Francisco Cândido Xavier (Editora FEB, 335 págs.)
3)      Região no mundo espiritual de dor e sofrimento, para onde se refugiam espíritos suicidas, e aqueles dominados pelo ódio.
4)      Romance mediúnico de Camilo Cândido Botelho (Camilo Castelo Branco) psicografado pela médium Yvonne A. Pereira (Editora FEB, 688 págs.).
*Artigo publicado no Site Autores.com.brhttp://www.autores.com.br/34-ensaios/49171-suicidio-involuntario-o-outro-lado-da-moeda.html


segunda-feira, 25 de julho de 2011

Escritores: Construindo verdades e sonhos

Ser escritor em um país feito o Brasil é um castigo? Ou seria uma benção?
Depende do ponto de vista. O que é sofrimento para uns, pode servir de inspiração para outros. O irlandês Oscar Wilde, dizia que era preciso vivenciar todo tipo de experiência para se elevar espiritualmente. Leiam a biografia dele, escrita por Richard Ellmann (1)) e não será difícil entender o motivo para tanto.
É impossível definir o que é ser um escritor. É algo meio doido. Você vive com os pés neste mundo, mas o pensamento em qualquer outro lugar, a maior parte do tempo, que não seja este.
O ficcionista é aquele que cria vida com seus personagens, acontecimentos e lugares, emoções e sentido, pensamentos. Então, sob esse aspecto, ele seria uma forma aproximada de Deus.
Mas ele também é um ser humano, embora, a maioria das pessoas, os leitores, principalmente, não tenha a percepção disso.
É comum o leitor identificar o escritor nos personagens criados por este. O que nem sempre corresponde a realidade.
Minha ex-esposa, Luciene, costuma encontrar fragmentos do indíviduo Geraldo José Costa Junior, que ela conhece um pouco, só um pouco, no escritor J. Costa Jr. Mas engana-se ela, porque um nada tem a ver com o outro.
Admita-se que o escritor ficcionista escreve sobre aquilo que conhece bastante bem, ou desejaria conhecer; ele escreve sobre o que viveu, viu, ouviu, soube de algum modo. E isso, por mais que espante as pessoas ou cause repúdio naqueles que tem idolatria pela inspiração, é bastante plausível. Simplesmente porque não há como criar algo do nada.
Na verdade, o escritor nada cria. Ele reinventa. E precisa reinventar a si mesmo constantemente, de modo a não se repetir, desafio que, invariavelmente, se constitui para ele um fracasso. Porque o escritor se repete. E o que faz a diferença entre os bons e os muito bons, é a capacidade de dar cor, cheiro e forma diferente à mesma história e ao mesmo ambiente psíquico em que ela é elaborada. Talvez por isso que para Ernest Hemingway, literatura era arquitetura e não decoração.
A Literatura Brasileira é um fenômeno. Um caso à parte. Porque sofre um crime a meu ver de lesa pátria. Há ótimos, formidáveis escritores brasileiros. Sempre houve. Desde os primeiros até os mais recentes. Mas é algo detestável o modo pedagógico como a literatura brasileira é apresentada aos adolescentes e jovens em período escolar. Fatiam-se trechos de obras literárias formidáveis para explicar gramática. Ou exigi-se a interpretação de retalhos dos textos. Por Deus, educadores, não façam isso! É um crime abominável e covarde contra o autor e a literatura por ele produzida a custo de tanta dedicação, indiferença e sacrifício.
Talvez não saibam as senhoras e os senhores, porque talvez jamais tenham produzido um texto de ficção, mas cada frase, período, diálogo de uma narrativa, é um elo da corrente, que à parte dos demais, perde todo o seu sentido, coerência. Portanto, a interpretação que se dá a partir daí jamais corresponderá à verdade. Seria como querer entender a mente humana, através da orelha, da boca, dos olhos e dos ouvidos, apenas porque todos estes fazem parte da cabeça. Não funciona assim a coisa.
Já é chegado o momento de a Literatura Brasileira ser levada a sério. Não mais ser objeto de fanfarronice como a Academia Brasileira de Letras e suas congêneres.  Ou aberrações como a FLIP, evento puramente comercial de que se utilizam as editoras para venderem o seu produto. E essa odiosa conotação que se dá ao livro é que nos estimula continuar a escrever ficção em um país onde a Literatura, em pleno século XXI ainda é vista com um bicho de sete cabeças para a maioria das pessoas.
Não é o livro, senhores, o que importa, é o que vai dentro dele. A idéia, a magia, a proposta que se pretende difundir já não depende do livro. Portanto, nestes tempos atuais, o escritor, ficcionista ou não, já não depende do livro, não é mais escravo dele. E essa ferramentazinha impertinente chamada internet, nos demonstra isso cada vez mais a cada dia.
Em resumo, os bons escritores brasileiros esquecidos precisam ser resgatados. Os bons escritores que se acham afastados dos holofotes da mídia, por razões estritamente comerciais precisam ser trazidos à luz.
Basta de escritores que escrevem sobre uma realidade que não condiz em nada com aquilo que vivemos.
Tenho absoluta certeza que os melhores escritores brasileiros da atualidade são os não publicados, os preteridos pelas editoras meramente comerciais, conduzidas por indivíduos que não entendem nada de literatura de ficção, mas apenas do objeto livro e o melhor modo de torná-lo atraente e vendável.  Reduzem a Literatura simplesmente a um negócio. E por sua grandeza e importância, a Literatura jamais será apenas um negócio. Esquecem do conteúdo do livro, desprezam-no, ignoram-no, porque, para eles, nada significa. Deveriam de se envergonhar por terem abraçado esse ramo, para o qual não possuem nenhuma vocação. Mas faço lembrá-los que ainda é tempo. Abandonar este e procurar outro ramo seria o melhor serviço que poderiam prestar à Literatura Brasileira.
Hoje é o nosso dia. E daí? É a pergunta que a maioria envolvida ou não com Literatura se faz.
E daí, que continuamos a mudar a vida das pessoas, nossas vidas, e de alguma forma, o mundo. Porque afinal somos deuses. Somos escritores. E nossa carta de alforria já está em nossas mãos, já não dependemos mais do objeto livro para levarmos ao leitor o resultado de nosso trabalho, seja a realidade ou seja o sonho.
Agora, brindemos a nós todos. Este é o nosso dia.

(1)   Ellmann ,Richard. 'Oscar Wilde'. 2ª ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1988.


* Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 28/7/2011, à pág.2.
*Publicado no Site Autores.com.br: http://www.autores.com.br/34-ensaios/49148-dia-do-escritor-construindo-verdades-e-sonhos.html

domingo, 24 de julho de 2011

1991 JÁ FAZ TEMPO

Nunca passou pelas nossas cabeças que enterraríamos nossos pais e nossos filhos. A possibilidade de ficarmos velhos era zero em 10. Tínhamos 20 anos. O céu era sempre azul nas tardes de sábado.
Deixar pra depois, era apenas questão de escolha. Porque haveria o depois, claro. Claro que haveria.
O que era cansaço nós não sabíamos. E dor, era coisa que só os outros é que tinham. Fodam-se eles.  Tínhamos 20 anos.
Gastar dinheiro? Sem problema. Ele haveria de surgir na carteira a cada começo de mês. E como resultado de nenhum esforço. Explicação: bondade dos pais. Da mãe, principalmente.
Sonhos havia todos, comprados a preço módico na prateleira da realidade, que, já naquele tempo, trazia novidades todos os dias, a cada instante.
Sonhos... E eram todos possíveis. Tínhamos 20 anos. Lembro-me de um disco, que, feito tantos outros, deixei de comprar: Nevermind.
Mas o melhor de tudo: tínhamos mais cabelos. E nenhuma saliência pélvica. Muito menos, mau hálito, que vem geralmente, por esses dias de meu deus, com a falta de alimento no estômago. Não temos mais 20 anos.
Mas quando tínhamos, não sabíamos nada sobre a vida. Mas falávamos sobre ela sem receio, porque a vida, não nos causava medo. Ora, que porra de vida o quê!
Os problemas se resolviam por si só, com o tempo, aquele nosso fiel aliado.
Ele partiu o tempo. Não disse adeus. E de minha parte, eu nem sei dizer quando isso aconteceu.
Danado o tempo, levou consigo a minha namorada, o único amor de minha vida. Roubou-a de mim. Ela se chamava esperança.
Sábado à tarde. E a diversão passou a ser vasculhar lembranças que nos façam sorrir. Pena que isso dura pouco. E sempre acaba em lágrimas.
Alguns ainda compõem ao violão. Outros, feito eu, escreve. E outros até deixaram de fumar. Enquanto que outros ainda – pode uma coisa dessas? – começaram a beber. Claro, eles não têm mais 20 anos.
Mas eu bem que podia tentar outra coisa além de escrever. Aumentei a dose do maldito remédio nos últimos anos, como meio de sobrevivência, mas a coisa, eu acho, fez efeito contrário. Não funciona mais.
Engraçado que quando começou a rolar “Smells like teen spirit” nas rádios, lá pelas bandólas de 1991, parecia que a gente já tinha ouvido aquilo antes em algum lugar.
Agora que a Amy Winehouse conseguiu ir para o saco, e olha que ela ensaiou um bocado de vezes a façanha, o Kid Vinil nos faz lembrar com bastante propriedade que o chapado Kurt Cobain (Umbral o tenha em bom lugar) também “sefú” aos 27, e deve ter adorado a experiência.
Esse pessoal é mesmo assim. Prefere viver pouco, mas intensamente. E qual o problema, né mesmo? Pra nós, reles mortais, nenhum. Pra eles, heróis da resistência, uma estadia mais prolongada no colo do capeta. Afinal, para cada um, conforme os seus atos.
1991 faz tempinho, mas se mudaram os cenários, os artistas, famosos ou não, continuam os mesmos, ainda que se travistam de outros personagens, seus corações inquietos e suas mentes perturbadas exalam arte e o perfume da morte. E tudo geralmente termina em algumas linhas eternizadas em um papel. Mamãe filosofia não explica. E eu também não. Não tenho mais 20 anos. E quem tiver que se habilite. 

sábado, 23 de julho de 2011

JOGANDO COM A VIDA


A vida é um jogo, você diz. Sim, a vida é um jogo. E você tem duas maneiras, apenas duas, de jogá-lo. Na primeira, você se municia de todas as armas como quem se prepara para uma guerra. Então, todos que não estejam ao teu lado serão teus inimigos, e mesmo daqueles que estão ao teu lado, você deve desconfiar. Você apaga da tua mente e do teu coração, toda virtude moral e se pauta apenas nos teus interesses e na forma mais eficiente de buscá-los, ainda que isso exija de você passar por cima das pessoas com a mesma repugnância e indiferença como quem passa por cima de um monte de estrume de cavalo. Isso talvez o faça poderoso, temido, rico de dinheiro e feliz, conforme o seu conceito. Mas, tal um império, isso durará por um tempo. Um dia, porém, inevitavelmente acabará, embora, nem o tempo apagará o rastro de destruição que você certamente terá deixado na vida das pessoas e dos lugares por onde passou.

O outro modo de jogar é mais simples, mais demorado, mais trabalhoso, porque exigirá de tua parte o nobre sentimento de amor à você mesmo, ao teu semelhante e ao teu trabalho. Exigirá estudo, aprendizado, experiência, que, muitas vezes, só vem com a dor e os erros. Exigirá a observância e a prática das virtudes morais, tão difíceis de serem compreendidas e aceitas. Exigirá de você a renúncia, em favor do outro, mais merecedor e mais necessitado, mesmo que isso contrarie os seus interesses, os seus objetivos, pelos quais, você tanto lutou. Talvez você passe pela vida jogando esse jogo e perceberá com o tempo que ele não tem fim. E que aos olhos humanos, você não passa de um perdedor. Um eterno perdedor. Mas os teus olhos humanos um dia você os fechará. E quando despertar do lado de lá, o outro lado da vida, o verdadeiro, você ficará surpreso e até confuso, em princípio, porque terá compreendido de que na verdade você venceu. E aqueles que você deixou, os lugares por onde passou, começarão a vê-lo com outros olhos, e incrivelmente o descobrirão, na verdade, um vencedor. Essa é a vida espiritual. A vida de todos nós. Ela também é um jogo. Mas um jogo onde não há vencidos. Apenas vencedores, porque somos todos filhos do mesmo Pai, e irmãos do mesmo Irmão. Que nunca vestiu paletó e gravata, faixa presidencial, avental ou coisa que o valha. Andava muitas vezes descalço, comia com os doentes e dialogava com as prostitutas e os criminosos, porque via em cada um deles, um irmão jogando o jogo da vida com as cartas e a inteligência de que dispunha, e com as possibilidades de que então eram merecedores. 

O jogo da vida não escolhe os seus participantes. Estes sim é que escolhem a maneira de jogá-lo.


quinta-feira, 21 de julho de 2011

GABINETE DE LEITURA DE RIO CLARO MERECE RESPEITO

O centenário Gabinete de Leitura Lenyra Fracarolli é um patrimônio da cultura de Rio Claro e nunca mereceu a devida atenção do Poder Público, por intermédio de suas várias secretarias municipais ao longo do tempo. E muito menos dos grupos organizados que se dizem preocupados com a preservação, o estímulo e a divulgação cultural, principalmente ao que se refere à Literatura, sempre tão mal compreendida e tratada, não somente em nossa cidade, mas, no Brasil.
As mesmas pessoas que agora se dizem escandalizadas, já foram ou são frequentadores do Gabinete e nunca tomaram iniciativa alguma para colaborar com aquele importante espaço cultural.
Sou cadastrado, como milhares de outros rio-clarenses para ter o direito ao acesso e retirada dos livros do Gabinete, aqueles que são circuláveis, e sempre fui muito bem tratado por sua diretora e seus funcionários, pessoas que se percebe de boa índole, ótimos profissionais e interessados em realizar um bom trabalho. Não é culpa deles se não lhes é dado as devidas condições para bem desempenhar o que é necessário e algo mais que pode ser feito visando sempre a melhoria do serviço prestado.
Rio Claro tem a cultura na ponta da língua. É público e notório os discursos, os famigerados coletivos, as iniciativas de cunho artístico e cultural que morre no calor do entusiasmo e na falta de objetividade, porque conduzidas sempre por aqueles que demonstram querer se beneficiar da cultura para os seus interesses próprios e não da coletividade.
Em termos de cultura, o que esperar para Rio Claro, depois do triste episódio envolvendo o Museu Amador Bueno da Veiga, reduzido a escombros e cinzas, depois de um incêndio, não devidamente apurado e até hoje sem solução?
Nenhuma administração nem atual e nenhuma outra antes desta preocupou-se em viabilizar a reforma e a adequação que o prédio do Gabinete de Leitura solicita já há tanto tempo. Talvez estejam esperando pela segunda visita do Imperador Pedro II, porque talvez, interessados que são por cultura e literatura, não saibam que o imperador já morreu faz alguns aninhos.
Se não é a imprensa, como sempre, repercutir o descaso e a má conservação de certos livros do acervo do Gabinete, fato denunciado na Internet, e que merece inclusive melhor explicação das partes envolvidas, e certamente os responsáveis pela cultura local não estariam agora se mexendo para dar uma resposta à altura que o assunto exige.
Contudo, é muito mais fácil ter esperança nas iniciativas vindas de pessoas voluntárias, que inclusive já começam a se movimentar, segundo se tem notícias (1).
Também neste aspecto é factível a triste pergunta: Pra quê governo?
Curioso senão ironia do destino é que à entrada do Gabinete de Leitura se vê retratado em uma pintura de gosto duvidoso, Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro, Sancho Pança.
A esperança é a última que morre. E ainda bem que, ao contrário da Literatura ela desconhece a palavra fim

(1) http://www.facebook.com/event.php?eid=192447187480812
*Publicado no site Jornal Rio Claro: http://www.jornalrioclaro.com.br/categoria/j-costa-jr/
*Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 23/7/11, à pág.2.

terça-feira, 19 de julho de 2011

PAI, ATÉ BREVE

Três indivíduos têm uma dívida impagável para com meu pai. Pela ordem: o diretor do presídio, cujo nome não vale a pena mencionar; além do estúpido Cerberus, que, para os menos avisados é o porteiro do lado mais negro, mais fétido e desesperador do Umbral, e, por último, o doutor do hospital psiquiátrico, que feito ao seu colega primeiramente mencionado, tratarei de omiti-lo.
Pois bem. Um destes auspiciosos lugares teria sido fatalmente o meu destino, não tivesse eu tido a sorte de ser filho de quem sou.
Melhor do que ninguém, meu pai me entendeu e mais do que ninguém, ele me aceitou sem impor condições.
Quem vê essa minha cara de anjo, dona de um par de olhos verdes sedutores e intimistas, não sabe, não tem ideia do demônio que existe por trás disso.
Eu e meu pai somos velhos conhecidos. Vem de longe a nossa história, cujo início, se perde na escuridão dos tempos inimagináveis.
Acredite quem quiser, mas, juntos, enfrentamos épicas batalhas nos tempos das cruzadas, juntos catequizamos índios, e acho que, depois, nos arrependemos de tê-lo feito. Fomos sócios, inimigos, irmãos, e finalmente, pai e filho.
Pudesse escolher e mil vezes, um milhão de vezes escolheria para que ele fosse o meu pai. Sem ser piegas e já sendo, pois não.
Aprendi o que é um livro, por sugestão dele. Nada por imposição é preciso que se diga. Porque ele jamais nada impusera. Embora sempre mostrasse com palavras, atitudes e gestos, o melhor caminho. 
Problema é que filhos jamais escutam os pais. Porque, afinal de contas, filhos sabem mais muito mais que os pais. Não é mesmo? Filhos são modernos, donos da verdade. Pais são quadrados, ultrapassados. Eu também acreditei nessa balela. Acreditei lá pelos meus 17 anos que poderia ser melhor do que ele, meu pai. Sequer cheguei aos seus pés. Ele era bem melhor que eu, como ser humano e como escritor.
 Pouca gente se deu conta, mas o mundo perdeu há quase dois meses uma alma bondosa, que eu, particularmente, nunca vi alterada, agressiva, e capaz de dizer um palavrão.
Fora criado muito mais pela avó e depois, pelos padres, mas tinha pelo pai veneração e pela mãe um amor desmedido. Seguiu com minha mãe até o fim, quando muitos homens, cônscios de suas possibilidades dariam no pé, iriam procurar outro caminho, digo, carinho.
É dele a minha primeira lembrança neste mundo. Antes até mesmo do meu cachorrinho, cujo instante, acha-se eternizado em uma foto que ele, o meu pai tirou, como quase todas do período da minha infância. Tenho um álbum de fotos daquele tempo. Coisa que nem meus irmãos, que pegaram, digamos, uma fase melhor e mais promissora de nossa família, tiveram.
Fui saber o que era ter irmão quando eu já era adulto. Mas o que era ter pai eu nunca tive dúvidas.
Aprendi a gostar de minha mãe, devo confessar, através dele. E não me arrependi. Vi no sofrimento dela, a maneira como o encarou, virtudes que eu jamais possuirei: ser tolerante e humilde; amar a vida, mais que tudo; acreditar que mais que as montanhas de terra e de rocha, as montanhas da alma é possível removê-las com a fé. Em Deus.
Até os 13 anos, apesar das convulsões, dos pesadelos, e dos remédios, vivi os melhores momentos de minha vida, porque ele me os proporcionou. Minha dívida com meu pai, portanto, é impagável. Quem sabe, em uma de nossas muitas andanças, Deus me dê essa oportunidade. Quem sabe, um dia, seja ele a me chamar de pai. Eu espero por isso. Do mesmo modo como, banho tomado, bem vestido e bem penteado pelas mãos de minha dedicada mãe, eu ficava a esperar por ele, no portão de casa, depois das 6, quando encerrava o seu expediente na Loja Farani.
Joguei futebol, aprendi a escrever, encontrei o meu primeiro emprego, porque ele, o meu pai, sempre foi um pai de verdade.
Ele tinha seus defeitos, mas nunca fez dos mesmos motivos para me causar aborrecimento ou tristeza.
Juntos, com minha mãe, eu e ele enfrentamos situações que meus irmãos, jamais haverão de imaginar. Mas isso é outra história que, um dia, quem sabe, resolvo botar no papel.
Por ora, conto essas.
Há pessoas que dizem que por alguma razão a gente nesta vida morre duas vezes. Uma parte de mim se foi em 20 de maio deste ano. E só restaram lembranças. As melhores.
Vivo desde então uma grande expectativa, a de que do mesmo jeito que ele veio me avisar em sonho que estava partindo, volte um dia para me estender a mão e me avisar que finalmente acabou. Afinal, isso é só o fim.
*Publicado no site Guia Rio Claro:  http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=148003111
*Publicado no site Autores.com.br.: http://www.autores.com.br/3-cronicas/49013-pai-ate-breve.html

segunda-feira, 18 de julho de 2011

GRACIAS, BRASIL!

Hoje vou deliciar os meus fiéis (assim espero) 65 seguidores declarados e dezenas de milhares de leitores anônimos com o assunto do momento.
Pois bem. Conseguimos. Ou melhor, eles conseguiram. Perder para o Paraguai não é nenhuma novidade. Sou do tempo, nem tão distante, bem entendido, que empatar com o Paraguai já era motivo para demitir o treinador, como ocorrera em 1979, com Cláudio Coutinho, responsável por formar aquela máquina de jogar futebol do Flamengo no final dos 70 e início dos anos 80. Mas que na seleção negou fogo.
Os tempos são outros e o presidente da CBF, aquele ser estranho, com ares de poderoso chefão (na transcrição literal do termo), já tratou de garantir o emprego do atual treinador, aquele mano!
O pior de tudo foi ter desperdiçado 4 penalidades máximas. Pô mêu, aí é dose pra mamute, como diria meu pai. O tema demandaria um simpósio sobre os reais motivos para se desperdiçar uma penalidade máxima em jogo eliminatório como aquele, imagine então 4. Aí é demais. Achar desculpa no estado do gramado, é no mínimo bancar o cara de pau. Pra usar um termo educado.
O fato é que os adversários evoluíram nos últimos anos em todos os aspectos: físico, técnico e tático, e nós estacionamos. Deitamos nos louros de cinco campeonatos mundiais conquistados, os dois mais recentes ganhos com as calças nas mãos. E nos demos por satisfeito. Conquistas de campeonatos inexpressivos como a própria Copa América e a Copa das Confederações apenas serviram para manter no cargo treinadores incompetentes, feito Dunga, que conquistou o torcedor e iludiu a imprensa oba-oba, com série de vitórias sobre adversários de pouca ou nenhuma qualidade técnica.
Agora, na era Mano Menezes que, para o nosso desespero apenas se inicia, a história parece se repetir. Logo a CBF arranjará alguns amistosos caça-níqueis e então o Brasil voltará a “bater em bêbado” e tudo voltará ao normal, o que significa que a ilusão estará restabelecida. Os patrocinadores precisam dela pra vender os seus penduricalhos, digo, produtos.
Não teremos de passar pelo martírio das eliminatórias e chegaremos à Copa do Mundo, como potenciais candidatos ao título. Com esse time, sei não. E aí é que parece estar o maior problema da seleção. Paramos de fabricar ótimos jogadores que realmente mereçam a distinção de craques. E já faz tempo. O único que poderia justificar tal distinção, atualmente brinca de jogar futebol no Flamengo, comandado justamente pelo treinador tido e havido como o mais exigente e disciplinador, que, a pretexto de não ver sua carreira declinar, sujeitou-se a pagar esse mico.
Atribuir a bons jogadores e não craques, como querem muitos, feito Neymar, Ganso e Pato a responsabilidade por carregar nas costas o peso de uma camisa cinco vezes campeã do mundo é exagero senão idiotice.
Atualmente, a seleção tem bons jogadores, mas nenhum fora de série e o mesmo ocorre no futebol brasileiro, algo talvez inédito, e por isso requer atenção e estudo por parte dos profissionais realmente comprometidos com o espetáculo que o futebol está deixando de ser.
Um dos motivos para esse vertiginoso declínio, que, em princípio parece ser inevitável, é a necessidade de se produzir ídolos a qualquer custo. E deles, todos precisam: o futebol, a imprensa e os clubes. Cada um com suas razões, legítimas por sinal.
É de se perguntar, entretanto, se está compensando pagar o preço por esse imediatismo de tentar vender gato por lebre.
O resultado disso está aos olhos de todos: campeonatos desinteressantes, clubes falidos que vivem à custa do dinheiro da tevê e da publicidade, pseudo-craques que acreditam ser o fenômeno que não são, e estádios vazios, porque os torcedores se acostumaram a acompanhar o futebol pela tevê, afinal, mais cômodo e mais seguro.
Sem contar, é claro com uma seleção nacional de futebol que consegue ser eliminada pelo bom amigo Paraguai, porque desaprendeu a fazer gols, até mesmo de pênalti. Los hermanitos agradecem.


sábado, 16 de julho de 2011

UNS e OUTROS, e todos NÓS

Você provavelmente nunca verá um espírita atacando a fé e a doutrina alheia. Nunca o verá proferindo uma palestra gesticulando, gritando, querendo impor e não expor. Ele jamais se dirá profeta, dono da verdade ou possuidor de informações privilegiadas. Ele não fará pose, nem será dissimulado quando lhe surja oportunidade para falar sobre o Espiritismo. E ele certamente pensará umas duas ou três vezes antes de fazê-lo. O espírita que realmente se esforça por sê-lo, como propõe Kardec, é comedido com as coisas que lhe dizem respeito, educado com as diferenças alheias, compreensível com as imperfeições dos outros, racional em suas ações, e amável para com aqueles que o procuram.
Exatamente por esse motivo, que o Espiritismo ainda não foi assimilado pela mente e o coração da maioria das pessoas, acostumadas em dar crédito e atenção àquilo que impressiona os sentidos e convence pela imposição ou pela mentira dita mil vezes, um milhão de vezes e que acaba se tornando uma verdade porque o uso faz o costume. E o costume acomoda e satisfaz as mentes e os corações inquietos e famintos do palpável e do fantástico. Do pão e do circo. E o alimento da alma que é o que se é e não o que se tem, é bem diferente disto. É a fé com que se levanta do chão e se segue adiante, o amor que realiza obras que duram ad eternum, o perdão que estabelece a paz, sem a qual a fé e o amor se tornam impossíveis; é o esclarecimento que, em se fazendo luz dá vida a alma feito o sol que dá a vida ao humano e ao terreno.
O Espiritismo não faz propaganda de si mesmo porque não precisa. Ele já existia antes do homem ser. E ele permanecerá. Porque é obra de Jesus, expressão máxima do seu amor incondicional por nós, todos nós, que ainda somos pequenos aprendizes aptos a servir.
Rio Claro/SP, 16/07/2011
17h03

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ROCK. I LOVE ROCK

Para Jimi e todos aqueles que ousaram atravessar a linha amarela antes de nós.

Nasci em 1969. Ano de muitas mentiras, dentre elas, a maior de todas, a de que o homem pisou na Lua. Outras houve, por exemplo, a de que os Estados Unidos venceriam facilmente a guerra do Vietnã. Por aqui, o ano do famigerado, que hoje sabemos nem tão assim famigerado AI-5. Pelé marcou o milésimo naquele ano. Kerouac, aos 47, realmente botou o pé na estrada. Isso de fato aconteceu. Não importa. O estrago já estava feito.
Bom, não se pode mesmo ter tudo na vida. E, portanto, esta nos deu Woodstock naquele ano. Talvez, a única verdade de todos os episódios marcantes de 1969, embora nenhum se compare ao que aconteceu em 10 de fevereiro. Mas, sobre isso, falarei mais adiante.
Impulsionada por aqueles ventos vindos de uma fazenda do estado de Nova York, repleta de estrume de vaca, muita chuva e lama e ares etílicos-intelectus/spiritus-doidivanas, a sociedade iria encarar de um modo diferente e ousado para os padrões da época conceitos tão subjetivos como a liberdade.
Enquanto nos colocavam algemas nos punhos e esparadrapos nas bocas, aqui no Brasil, na América, difundia-se o conceito de que tudo é possível e sonhar é o bastante. Amar também. Literalmente. Viver, pouco, como deve ser, mas, intensamente. E pensar que o festival tinha o sugestivo nome de Woodstock Music e Art Fair.
O que se viu de arte naqueles dias de agosto? Tudo. E nada. A celebração do corpo como forma de expressão máxima do sentimento. Ou ausência dele. Era como desligar a mente, soltá-la no escuro imenso e se deixar levar. Pelo vento, pela música, pela dor que vem com o depois, que desconhece o que seja o amor, a verdade, a razão, porque flerta com o nada. E, naqueles dias, mais do que hoje, o nada era ao menos arte. Uma forma de expressá-la.
O sonho existe para a juventude. Os adultos não têm direito ao sonho. Precisam ser práticos e objetivos. Certeiros. Não podem errar duas vezes. Isso ficaria bem claro a partir daqueles dias.
De certa forma, 1969, marcou o início da era da imagem. E do som. De repente, ter o cabelo comprido, a barba crescida, vestir a camiseta rasgada e o jeans surrado deixou de ser sinônimo de vadiagem. Passou a ser cultura. Inventar novas formas de expressão através da palavra oral e escrita, idem. A era das gírias, falô mêu?
Uma pílula abria as portas do prazer sem culpa, para homens e mulheres. Um cigarro, feito com substâncias especiais, abria todas as portas para além da consciência, não menos que uma picada no local certo, na dose certa, o que nem sempre acontecia. O bilhete para a viagem sem volta custa mais caro.
Nunca foi tão verossímil a ideia de que para conceber arte de qualidade era preciso conhecer o Inferno. Que o diga Hendrix e Joplin.
Engraçado que os melhores e os mais bonitinhos não estavam em Woodstock: Beatles, Led Zeppelin e The Doors. Mas, incrivelmente, não fizeram falta. Porque Woodstock não era pra ser uma festa dos lordes intra-muros, mas da ralé, da plebe, fora-muros. O que, de certo modo, justifica a tese de que mais do que um festival de rock aquilo foi uma manifestação cultural, um meio de extravasar a revolta, exorcizar o medo e revelar o futuro, algo que só a juventude é capaz de realizar.
Se depois de Woodstock o rock não seria mais o mesmo, o mundo também não, e isso não tem nada haver com o que aconteceu em 10 de fevereiro. Naquele dia, entretanto, alguém subiu do Inferno para render guarda ao velho Jack. E não fora Dean Moriarty, Sal Paradise ou Neal Cassady. Advinhe quem. 

sábado, 9 de julho de 2011

ANJOS NO CAIS

Inverno,
Que as árvores desfolhem
Que os galhos se quebrem
E os laços se rompam
Que seja o caos
E que a dor impulsione
Que traga a luz...
Que clamem os espíritos
E os pássaros voem
Que a carne apodreça
E a pústula espirre
Em nosso rosto
Que a verdade se destrua
Por nossas mãos
Como um feixe de mil luzes
E revele a noite...
E, no instante seguinte ao pesadelo,
Entregues somos
Olhares se perdem
Sonhos se desfazem
Reputados para a morte
Para o vale de sombras,
Como anjos decaídos
Anjos do cais
Onde não se vê horizonte
E o caminho do meio
Bifurca-se em dois
Três, e mil nadas
Onde, como loucas possuídas
Clamamos por amor
E ouvimos vozes ao longe a nos dizer adeus
Onde plantamos flores, e cheios de esperanças
Colhemos...

sexta-feira, 8 de julho de 2011

DIAS DE MENTIR

Tenho acompanhado pela Internet a repercussão da FLIP 2011 em Paraty. Observo a distância esse monte de escritores vindo sabe-se lá de onde, com seus livros empoeirados debaixo do braço e aqui, no Brasil, quintal da humanidade, publicados pra jamais serem lidos, pelos editores brasileiros sequiosos por dinheiro e gozo pessoal e nenhum comprometimento com a Literatura, porque, na verdade, receio que nem sabem eles o que isso seja. Porque acredito que jamais deram uma volta no Inferno.  Então eu me pergunto: Qual de nós irá sobreviver? Eles, que são feitos de isopor e argila? Ou eu e todos aqueles que, noite adentro e no mar revolto pelas tempestades humanas remam no barco dos excluídos e rejeitados, nós que somos feitos de carne, ossos e sangue? Quem irá passar pelo tempo? Quem irá permanecer?


"Dante uma vez um Inferno com a poesia, e eu escrevo sobre o Inferno que é a vida real de nossa época" - (Victor Hugo, escritor francês, - 1802 - 1885)

O CÃNCER DO MILÊNIO

"Toda vez que se come deste pão, toda vez que se bebe deste vinho..."

“Sob o pretexto de encurtar a distância entre os países e os povos, dinamizar o livre mercado, distribuir progresso e riqueza a globalização destrói as culturas na medida em que ao ocupar territórios dizimam os símbolos, as referências e as tradições dos povos locais. A riqueza de diversidade dos países, seus idiomas, costumes, crenças, filosofias e comportamentos, com o tempo tende a desaparecer. Seremos todos iguais, teremos todos a mesma cara, e pareceremos todos saídos do mesmo forno. Se isto é evolução, se trará felicidade é pergunta de difícil resposta que só o tempo trará no futuro. Se ele chegar”. – Geraldo J. Costa Jr.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

BARALHO DE LETRADOS

Sob a figueira, à mesa de concreto da praça, dois escritores conversavam.
Não trouxe o jornal?
Hoje é segunda. Moramos em Rio Claro. Esqueceu-se?
Vamos jogar cartas, então.
Com qual baralho? O seu ou o meu?
O seu. É mais novo. Mais fácil de manusear.
Pois bem. Embaralhe você.
Cartas distribuídas, eles começaram o jogo.
Um Kafka?                                        
Sim.
E eu lhe dou um Guimarães.
Bom início. Mas eu tenho um Flaubert.
Fácil de cortar. Basta um Machado.
Um Machado, entretanto, pode vencer, mas não destrói um Hemingway.
Que só não é mais esperto, mais forte e mais rápido do que um Coelho.
Isto não vale, é jogo sujo!
É um jogo, meu caro. Todo jogo tem suas regras e peculiaridades.
E também um curinga, portanto, tome um Bukowski.
Com gelo ou sem gelo?
Ao gosto do freguês.
Neste caso, devo recorrer aos préstimos da Sra. Stein, grande cortesã.
Que certamente, irá tricotar com Madame Lispector.
Claro, se ela estiver viva.
Está. Pois me disse, ainda ontem, que está escrevendo.
Ora, ora, às vezes, tenho vontade de dar um tiro na cabeça.
O que tenho certeza será concretizado, quando você souber a carta que tenho em mãos.
Qual?
Um Werther.
Esta carta não vale. É de outro baralho.
Então vamos jogar damas.
Ok, desde que as camélias não atrapalhem.
Virginia?
Orlando.
Outra carta sem valor.
Ora, deixe-me jogar em paz, ou chamarei um Dumas.
Zap. Tenho Balzac.
Pro inferno você!
Dante.
E neste momento, bateram os sinos da matriz do João.
Se baixar um Quasimodo, agora, eu lhe arrebento.
Passarás 30 anos confinado à Bastilha, como Valjean.
Você até parece um Javert de tão frio e calculista.
Perverso. Tome outro curinga. Hugo.
Hugo? Profeta? Deus? Não mais do que Borges.
Cego por cego, eu lhe apresento Saramago.
Loyola.
O santo?
Não. O caipira.
Mas ele não remove as pedras do meio do caminho como Drummond. Portanto, perdeste.
Engana-se, meu caro. Ninguém expôs as vísceras como Nauro.
Bem, se o assunto é anatomia, lá vai, Marques de Sade.
Esta é fácil. Mr. Oscar.
Acompanhado do Lorde?
Psiu! Fale baixo!
Então é melhor que seja um Thomas.
Man?
Sabe-se lá.
E passaram o dia todo jogando e, quando a noite chegou, continuaram.
Agora, você dá as cartas.
De novo?
É sua vez.
Está bem.
Levantou-se e atirou as cartas pelos ares.
Basta, este jogo está muito chato. Vamos assistir ao futebol na TV.

Dedicado ao Prof. Carlos Motta (o Carlão), um dos bons escritores publicados no site http://www.autores.com.br/



quarta-feira, 6 de julho de 2011

TODAS QUEREM SER LOUISE BROOKS

Ou simplesmente Lulu. Explico. Estamos em 1920 e qualquer coisa. O cenário é Hollywood. Cinema mudo. E a musa dessa época é Lulu. Ou simplesmente, Louise Brooks.
Nascida em Kansas, nos Estados Unidos em 14 de novembro de 1906, Louise estreou no palco aos 4 anos de idade. Ainda jovem, saiu de casa e foi ganhar a vida como dançarina integrando a Company Danishaw Dance, a mais renomada companhia de dança moderna norte-americana.  Depois, foi destaque do Ziegfeld Follies. Sua estréia no cinema se deu em The Street of Forgotten Men em 1925.
De personalidade forte e determinada a atingir seus objetivos Louise Brooks não era dada a bajular ninguém e não aceitava as condições desfavoráveis impostas pelos estúdios aos atores e atrizes da época. Por esse motivo deixou a Paramount Pictures e foi para a Alemanha onde, sob a direção de G. W. Pabst filmou A Caixa de Pandora, talvez seu maior sucesso.
Diziam que sua voz era horrível o que não era verdade. Com o advento da sonoridade nos filmes Lulu foi sendo posta de lado aos poucos até ser esquecida por completo pelos estúdios e pelo grande público.
Mas a sua imagem de mulher ao mesmo tempo ingênua e fatal, e sempre com o cabelo curto e liso, a lhe deixar a mostra o pescoço sensual, já havia conquistado a eternidade na memória dos seus fãs. E o famoso corte de cabelo jamais saiu de moda, embora, ao longo do tempo tenha ganhado novas versões dos hairstilistys.
Na década de 1940, Louise Brooks chegou a trabalhar em New York na rádio CBS.
Não tinha muitos amigos. E teve de trabalhar como vendedora numa loja de departamentos para sobreviver.
Nos últimos anos de sua vida dedicou-se exclusivamente à Literatura. Seu livro Lulu em Hollywood tornou-se best seller.
Sofria há vários anos de artrite deformante quando veio a falecer em 08 de agosto de 1985 aos 87 anos de idade. E o fato não mereceu destaque da mídia especializada da época.
Foi-se a artista. Permaneceu o mito. Seus filmes hoje se acham facilmente disponíveis em DVD para o deleite de seus fãs que só aumentaram com o decorrer do tempo devido ao fascínio que exerce sua figura ímpar e encantadora.
Talvez a maior homenagem que Louise Brooks recebeu em vida foi em 1955 na exposição alusiva ao cinema realizada no Museu de Arte Moderna de Paris. Um grande retrato seu foi colocado na entrada da exposição. Perguntado qual o motivo de homenagear uma atriz da qual poucos se lembravam o coordenador do evento Henry Langlois respondeu: “Para nós não existe Greta Garbo nem Marlene Dietrich. Existe apenas Louise Brooks”.

Texto publicado na Revista Cineminha (edição virtual, Mai/2010) http://revistacineminha.wordpress.com/category/reportagem/

terça-feira, 5 de julho de 2011

OS GATOS NA TUBA

Há uma piada sobre uns caras de várias nacionalidades que conversando com Deus reclamavam das tragédias naturais que afetavam seus países e ao chegar a vez do brasileiro se expressar, este, todo satisfeito disse a Deus que nada tinha a reclamar porque no Brasil raramente ou quase nunca havia tragédias naturais de grandes proporções. Ao que o Chefe Lá em Cima respondeu: Então você não viu os políticos que eu mandei pra lá?
É triste admitir. E deprimente ter de escrever isto. Mas o problema do Brasil é moral. A tendência à corrupção, o maior mal que afeta o país, está em suas origens. Mais. Está em suas entranhas. Tá bom, DNA. Leiam os livros de Laurentino Gomes (1808, 1822,) já publicados e facilmente encontrados em qualquer biblioteca pública. É uma boa introdução para entender porque no Brasil as coisas sempre foram e são assim.
Para que haja corrupção, é preciso que haja corruptos, geralmente os políticos. E é preciso que haja os corruptores, geralmente alguns dos grandes empresários.
Os políticos, bem, eles estão todos os dias nos jornais, rádios, tevês e na internet. Até porque muitos deles são os donos dos jornais, rádios, tevês e sites de notícias. São facilmente identificáveis, embora nada compreensíveis. Eles se fazem de desentendidos porque confundir faz parte da estratégia deles aplaudida e aprovada pelos ignorantes. Infelizmente, a maioria de nós.
Agora, os empresários corruptos, ora onde estão eles? Talvez você os veja uma ou duas vezes na vida, com as mãos algemadas escondidas pelo paletó durante o tele-jornal das oito e meia. Saberá que eles passaram uma ou duas noites em uma cela isolada, desprovida de chuveiro quente, e comendo gororoba-marmitex, em alguma delegacia de polícia. Será mesmo?
Bem, o certo é que eles desaparecerão mais rápido do que surgiram para o grande público, digamos, de maneira constrangedora. Como se eles se importassem com o vexame.
Apesar das investidas hollywoodianas das autoridades policiais, nada mais que um esforço das autoridades para dar alguma resposta aos justos reclamos da sociedade, essas pessoas (se é que mereçam a denominação) conseguirão escapar das consequências dos seus atos ilícitos, porque no Brasil, o Sargento Garcia ainda não aprendeu a prender o Zorro. Desaparecerão das páginas dos jornais, dos noticiários do rádio e da internet tão rápido quanto surgiram, quando surgem. Sabe por quê? Porque não interessa à mídia expô-los ao ridículo. Porque são eles os maiores anunciantes dos grandes veículos de comunicação. E também de boa parte dos pequenos. Destinam as verbas publicitárias e inventam os “Caçadores de Marajás” e as lulinhas paz e amor e a Chica Bandeira do Planalto. Sustentam a mídia, enfim. E, portanto, dela se servem a bel prazer.
A quem reclamar? Ao Bispo? Não adianta. Estamos mesmo no mato sem cachorro. A solução passa por uma revolução social. Nada organizado, mas espontâneo, vindo de baixo para cima das camadas sociais, sem vínculo político, religioso ou coisa que o valha. Algo como “A Marcha da Liberdade” (http://www.marchadaliberdade.org/) Que se não é ainda o ideal pode vir a ser o começo dessa pretendida revolução. As pessoas indignadas fazendo pressão e se utilizando, por exemplo, das redes sociais, dos espaços públicos, dos meios legais para exigir uma mudança de comportamento desses indivíduos, políticos corruptos e empresários corruptores, que, sob o pretexto de se autodenominarem indispensáveis à nação lançam mão de prerrogativas as mais descabidas para alimentarem a sua doença: o desamor ao próximo como se fossem ilhas de indiferença, de orgulho e de egoísmo, a navegar por aí; e o desinteresse ao seu país, do qual apenas se utilizam sem dar benefício algum em troca.
Não raramente, vemos integrantes da polícia investigativa e preventiva reclamar que executam o seu serviço, ou seja, reúnem provas, prendem os corruptos, e a Justiça acaba por soltá-los, amparada nessa ou naquela lei que melhor convenha ao caso. País que tem lei de mais tem ordem de menos. Dona Justiça brasileira!  Mãezona, morosa e mais preocupada em garantir o direito de quem não respeita as leis do que daqueles que as respeitam ou se esforçam por fazê-lo.
Por que será? Seria porque os homens do paletó e da gravata, da toga, da caneta Montblanc e dos perfumes parisienses costumam jogar suas partidas de tênis, de pólo, de golfe aos finais de semana, em suas mansões ou clubes privados do qual fazem parte, com ninguém mais ninguém que os empresários corruptores?
Lembrando, empresários corruptores financiam campanhas eleitorais de políticos corruptos.
Mas que assunto chato esse! É mesmo. Concordo plenamente. E você leitor, inteligente que é, há de convir que o vírus letal da corrupção será inatingível e ad eternum em nosso maravilhoso país, enquanto o brasileiro, nós, nos preocuparmos com coisas importantes como a Copa do Mundo, o topete do Neymar, a vingança da Norma sobre o Léo e o estádio do Cúrintia. E deixarmos de lado, para amanhã, depois, depois... depois sempre, assuntos irrelevantes, não é mesmo, como a política, a educação e a cultura.
Porque governo nenhum no mundo gosta e trabalha por tornar o seu povo educado, culto, instruído porque este sabe enxergar o erro, apontá-lo, exigir o reparo ou mostrar como deve ser feito. Povo assim não precisa de governo. Portanto, não precisa de político, esses homens públicos.
Pagamos uma carga tremenda de impostos. Em tese isso deveria nos proporcionar saúde, educação, transporte, habitação, segurança pública de boa qualidade. Mas aí onde estariam os problemas, as tragédias, as desgraças que afetam os mais humildes, os desprovidos de melhores recursos? E são exatamente essas coisas que, acreditem, geram votos “de esperança” com os quais são eleitos os políticos para os cargos públicos da maravilhosa, inigualável, auspiciosa e bela democracia representativa. Mais conhecida pelos despertos do século XXI como a utopia dos bem intencionados.
Em contrapartida, o Estado cada vez mais coloca sobre os ombros da sociedade obrigações que são suas   porque dispõe de recursos gerados pelos realmente trabalhadores para cumpri-las. Já acontece com a educação e a segurança. E a mais nova investida é a revisão da lei que trata sobre a prisão preventiva. Uma aberração cuja única finalidade é esvaziar os presídios. Ou seja, toma sociedade que o filho é teu. E isso é apenas a ponta do iceberg. Algo pior vem por aí. Preparem-se.
Mas afinal você, caro leitor deve estar se perguntando: Tem jeito? Tem. Só depende de nós, os mortais. E isso talvez aconteça quando tivermos um pouco mais de amor por nós mesmos. E lembrarmos que um dia deixaremos este mundo. Mas a ele virão nossos filhos e netos e as gerações futuras.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

"MANHÃ DE MAIO" - de Geraldo José Costa (meu Pai)

Manhã de Maio, céu azul, sol forte
Nossas sombras se unindo na calçada
Maio de Outono
Das árvores despidas
Dos vasos vazios ornamentais
Do vento que embala as folhas secas

Maio da saudade dissidente
Da muda da pena dos pássaros
Dos mesmos cantos, e todo desencanto

Maio dos sanhaços beliscando
As últimas pitangas da pitangueira alta
Do fundo do meu quintal

Maio dos pardais irrequietos
Da natureza empalidecida
Do verde judiado das campinas
Do céu azul saudoso para olhar
Onde as tardes povoadas de tristezas
Traz-me à lembrança um amor distante

* Meu pai escreveu esta poesia naquela que, talvez tenha sido a melhor fase de sua vida. Quando ele, tarde da noite, e, antes de se deitar, colocava os seus discos para ouvir e preparava uma dose caprichada do seu bom whisky. E ficava, talvez, pensando na vida. De como ela era. E como poderia ter sido. Sem jamais imaginar, eu creio, a maneira injusta e cruel como ela terminaria.

sábado, 2 de julho de 2011

HEMINGWAY, 50 ANOS DEPOIS, O SOL AINDA SE LEVANTA

Neste dois de julho, completa-se 50 anos da morte do escritor Ernest Hemingway.  Prêmio Nobel de Literatura de 1954. Autor de, entre outros: Adeus às Armas, Por quem os Sinos Dobram, O Sol também se levanta, e, O Velho e o Mar.

Por trás do homenzarrão aventureiro e do talentoso escritor, escondia-se um espírito frágil que passou a vida flertando com a morte até conquistá-la.

Para ele, Literatura era arquitetura e não decoração. Devido seu estilo minimalista e despojado de escrever, onde as ações falavam pelos sentimentos, Ernest Hemingway (1899-1961) foi um dos escritores mais influentes e imitados do século XX.
As linhas que seguem são apenas parte do Iceberg, aquela que pode ser vista. Outra existiu. Menos bonita e mais dramática, não menos interessante. Mas não vem ao caso. O que se pretende é escrever um pouco sobre o escritor e não sobre o ser humano. Porque embora para muitas pessoas isso custe a ser compreensível, na verdade acontece. O escritor é um. E geralmente é uma mentira a produzir verdades. E o ser humano é outro. É o desconhecido. O fraco. O derrotado. Aquele que sofre e lamenta o seu destino, geralmente triste e às escuras, distante dos olhos do leitor.

O BAD BOY DA GERAÇÃO PERDIDA
Por Geraldo J. Costa Jr.

Ernest Hemingway pertencia à comunidade de escritores expatriados em Paris, ao final da 1ª. Guerra Mundial. A cidade, considerada o berço da vanguarda da cultura e das artes da época, recebeu naquele período, inúmeros escritores, pintores e músicos. São contemporâneos de Hemingway, o também escritor Francis Scott Fitzgerald (do qual era amigo), o poeta Ezra Pound, e o pintor cubista Pablo Picasso, além do poeta e cineasta Jean Cocteau e do pintor Henry Matisse. Foi a escritora Gertrude Stein, que ali chegara antes de todos deles, quem dera respaldo àqueles jovens desiludidos, embora talentosos, os quais batizara como the lost generation (a geração perdida). Stein, também escritora, viúva, americana de origem austríaca, e de refinada cultura (estudara em Paris e Viena) exerceu forte influência sobre a formação literária de Hemingway, ajudando-o a encontrar e aprimorar o seu estilo, como ele mesmo admite em “Paris é uma Festa” (A Moveable Feast), livro póstumo, no qual, o escritor relata aquele período, em que, já casado com Hadley Richardson era um sujeito introvertido, que se vestia com displicência e bebia muito. Trabalhava como correspondente estrangeiro do Toronto Star, e era sempre visto circulando pelos cafés do Boulevard Montparnasse, bairro que abrigava artistas e boêmios pertencentes à “geração perdida”, os quais tinham por hábito se reunir no apartamento da Rue Fleurus pertencente à Gertrude Stein.

ESPANHA, UM CASO DE AMOR
O Sol Também se Levanta (1926) e Por quem os Sinos Dobram (1940), são romances escritos por Hemingway que nasceram de suas costumeiras viagens à Espanha, país com o qual se identificou e estabeleceu uma relação afetiva e ideológica.  Em 1937, cobriu como correspondente do North American Newspaper a Guerra Civil Espanhola que depôs o General Franco. O escritor posicionou-se em favor das forças republicanas contra o fascismo. Os críticos avaliam que nesse período Hemingway aprimorou definitivamente o seu estilo minimalista de escrita, que dispensava penduricalhos literários e ia direto à questão, escrevendo de maneira simples e agradável de ser lida.
04 CASAMENTOS E UM FUNERAL
Ernest Hemingway fora casado 4 vezes. A primeira delas, com Hadley Richardson, com a qual contraiu núpcias em setembro de 1921. O casamento durou cinco anos, justamente o período que abrange o seu primeiro livro a ter alguma repercursão “Em nosso tempo” (1924) e “O Sol Também se Levanta” (1926). Com Hadley teve um filho, John.
A segunda Sra. Hemingway foi Pauline Pfeiffer. O casamento durou mais de dez anos. O escritor deixou-a depois de conhecer  a jornalista Martha Gelghorn, durante a guerra civil espanhola, da qual ambos tomaram parte como correspondentes para a Aliança de Jornais Norte-Americanos.
Em 1946, após a 2ª. Guerra mundial, da qual participara, segundo documentos do FBI, trazidos à tona recentemente, como agente secreto do governo americano, Hemingway casa-se pela quarta vez, desta feita com Mary Welsh, uma jovem que ele conhecera em Londres. Hemingway encontra nela, também jornalista, embora tímida, uma companheira dedicada que durante quinze anos o acompanharia nas suas aventuras humanas e literárias. Caberia à Mary Welsh encerrar o ciclo da profecia de Scott Fitzgerald, para o qual Hemingway precisaria de uma mulher para cada livro. Era ela que o acompanhava na fatídica manhã de 02 de julho de 1961.
UM CASO À PARTE
Por muitas razões alguém pode se casar quatro vezes. No caso de Ernest Hemingway, a razão talvez atenda pelo nome de Agnes Von Kurowski. A enfermeira que ele conheceu enquanto servia na primeira guerra mundial como motorista de ambulância da Cruz Vermelha. A mulher que lhe disse não para se casar com um rico barão italiano. Agnes foi um divisor de águas na vida do leão indomável porém extremamente emotivo chamado Ernest Miller Hemingway. Ele jamais assimilou o golpe. Fez da literária um modo de responder na mesma moeda o que ele considerava o seu maior fracasso. A história de amor pode ser conhecida através do livro “Hemingway no amor e na guerra: O diário perdido de Agnes Von Kurowski” de Henry S. Villard e James Nagel, editado no Brasil pela Rocco, ou no filme homônimo de Richard Attenborough estrelado por Chris O’Donnell e Sandra Bullock e disponível em DVD. Mas é no personagem de Catherine Barkley do romance “Adeus às Armas” que Hemingway eternizou o seu primeiro e talvez único amor.
CUBA, O SEGUNDO LAR
O Velho e o Mar, publicado em 1952, foi escrito em Cuba onde Hemingway viveu durante 22 anos  e permanecera até 1960, quando se viu forçado a deixar a ilha por causa da revolução liderada por Fidel Castro e ocorrida um ano antes. Quando chegara, na década de 1930, instalara-se inicialmente no Hotel Ambos Mundos, localizado na Havana Vieja. Ali, ocupava o quarto No. 511. Depois, já casado com Martha Gelghorn foi convencido por esta a adquirir uma propriedade e escolheu uma, velha e deteriorada, em Finca Vigia, nos arredores de Havana. Depois de reformada, a casa tornou-se uma mansão em estilo espanhol, em cima de uma colina com privilegiada vista da capital cubana. Homem dado a viagens e aventuras, como safáris na África que quase lhe custaram a vida, o escritor, aos 41 anos, se estabelecera pela primeira vez.
Em Havana, Hemingway conquistara a simpatia dos habitantes porque adotara a cidade como sua. Ali, tinha o seu barco de nome Pilar, capitaneado por Gregorio Fuentes, que, muitos afirmam, ter sido a inspiração para o personagem Santiago de “O Velho e o Mar”, publicado em 1952, e com o qual o escritor ganhara os prêmios Pulitzer e Nobel de Literatura (1954).
Todavia, Ernest Hemingway jamais perdera o hábito etílico. Gostava de frequentar a La Bodeguita, em Havana e sentava-se sempre à mesma mesa (até hoje reservada para ele) para tomar, às vezes, segundo testemunhas, vários daiquiris, um coquetel curto, à base de rum branco, suco de limão e xarope de açúcar.
Atualmente, os governos norte-americano e cubano, tentam melhorar as relações diplomáticas no intuito de ajudar a preservar o patrimônio do escritor ali existente. Em Havana, a mansão onde Hemingway morou transformou-se em museu que ostenta boa parte do acervo do escritor. Recentemente, cerca de dois mil documentos foram digitalizados e acham-se à disposição de estudantes e pesquisadores.
ACIDENTES MARCARAM A VIDA DO ESCRITOR.
Não foram poucos ao longo dos 61 anos de existência. Os acidentes marcaram a trajetória humana de Hemingway e, acabaram por influenciar decisivamente no seu desempenho literário que, feito vela foi se apagando com o tempo. Desde puxar por engano uma corrente no banheiro pensando que era a descarga do lavatório, até saltar de um avião em chamas prestes a decolar, passando ainda por outro, de automóvel, quando foi projetado para fora pelo para-brisa. Antes, havia deslocado o ombro, no Congo, a caminho de um safári, após uma aterrisagem forçada do avião onde se encontrava. Na cabeça, foram vários ferimentos que lhe custaram pontos icontáveis e a perda do escalpo em determinada ocasião. Seu anjo de guarda, como se vê, passou muito tempo limpando a sua barra, até que um dia se cansou. Foi na manhã, de um domingo, 02 de julho de 1961, dia em que o escritor se suicidou, deixando órfãos inúmeros fãs e seguidores em todo mundo.
 Psiquiatria tenta explicar a personalidade confusa do escritor
O instrutor e psiquiatra, Christopher D. Martin, da equipe do Departamento Menninger de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Faculdade Baylor de Medicina em Houston, Texas, sugere em um artigo publicado em 2006, na revista Psiquiatria Americana, que o escritor Ernest Hemingway era acometido de desordem bipolar, dependência do álcool, lesão cerebral traumática e, provavelmente traços de personalidade limítrofe e narcisística.
OBRA LITERÁRIA PUBLICADA DE ERNEST HEMINGWAY
Romances
• 1925 The Torrents of Spring
• 1926 The Sun Also Rises  (O Sol Também Se Levanta)
1929 A Farewell to Arms  (Adeus às Armas)
• 1937 To Have and Have Not  (Ter e Não Ter)
• 1940 For Whom the Bell Tolls  (Por Quem os Sinos Dobram)
• 1950 Across the River and Into the Trees  (Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores)
• 1952 The Old Man and the Sea  (O Velho e o Mar)
• 1962 Adventures of a Young Man (Aventuras de um Homem Jovem)
• 1970 Islands in the Stream  (As Ilhas da Corrente)
• 1986 The Garden of Eden  (O Jardim do Éden)

Não-ficção
• 1932 Death in the Afternoon
• 1935 Green Hills of Africa
• 1960 The Dangerous Summer
1964 A Moveable Feast (Paris é uma Festa)
• 2003 Ernest Hemingway Selected Letters 1917-1961
• 2005 Under Kilimanjaro

Contos e pequenas histórias
• 1923 Three Stories and Ten Poems
1925 In Our Time
• 1927 Men Without Women
• 1932 The Snows of Kilimanjaro
• 1933 Winner Take Nothing
• 1938 The Fifth Column and the First Forty-Nine Stories
• 1947 The Essential Hemingway
• 1953 The Hemingway Reader
• 1972 The Nick Adams Stories
• 1976 The Complete Short Stories of Ernest Hemingway
• 1995 Collected Stories
 ALGUNS VÍDEOS SOBRE O AUTOR DISPONÍVEIS NA INTERNET:
ÁUDIO DO AUTOR DISPONÍVEL NA INTERNET:
DICAS DE ERNEST HEMINGWAY PARA SE ESCREVER UM BOM TEXTO:

1. Use frases curtas.

Hemingway ficou conhecido por seu estilo minimalista de escrita, que dispensava floreios e ia direto à questão, escrevendo de maneira simples e genial. A melhor demonstração da perícia do autor com frases curtas foi quando ele foi desafiado a escrever uma estória inteira com apenas seis palavras:
“À venda: sapatos infantis, nunca usados.”

2. Escreva um primeiro parágrafo curto.

Como neste artigo.

3. Use uma linguagem Vigorosa.

Como David Garfinkel explica a seguir:
“Uma linguagem vigorosa vem da paixão, do foco e da intenção. É a diferença entre fazer um esforço e TENTAR mover um pedregulho … e, de fato, suar, forçar seus músculos ao ponto da exaustão e realmente MOVER a coisa!”

4. Não seja negativo, escreva positivamente.

Isto é, não diga como as coisas não são e sim como elas são. Ao invés de dizer que algo “não é caro”, diga que é “econômico”; ao invés de dizer que uma cirurgia “não é dolorosa”, diga que ela é “pouco desconfortável” ou ainda “relativamente confortável”; ao invés de dizer que um programa de computador “não tem erros”, diga que ele é “estável” ou “consistente”.
CRONOLOGIA DE ERNEST MILLER HEMINGWAY
Ernest Miller Hemingway nasceu em 21/07/1898 em Oak Park, Illinois, Estados Unidos, filho de Clarence Hemingway (médico) e Grace Hall.
1916 – Publica seus primeiros contos
1917 – Parte para Kansas City. Trabalha no jornal Kansas Star
1918 – Engaja-se na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) como motorista de ambulância da Cruz Vermelha. Luta na Itália. É ferido em julho de 1918. Conhece a enfermeira Agnes Von Kurowski, considerada por muito como seu grande e único amor. Agnes o rejeita.
1919 – Retorna em janeiro para os Estados Unidos.
1920 – Ingressa no jornal “Toronto Star”
1921 – Conhece o também escritor norte-americano Sherwood Anderson, em Chicago. Em setembro, casa-se com Hadley Richardson. Em dezembro, parte para a França como correspondente estrangeiro do “Toronto Star”.
1922 – Conhece a escritora norte americana de origem austríaca Gertrude Stein que vivia em Paris. Participa da chamada “lost generation” da qual também participam F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Pablo Picasso, Jean Cocteau, Henry Matisse, entre outros.
1924 – Nasce-lhe o primeiro filho, John. Desliga-se do “Toronto Star”. Publica “Em Nosso Tempo” coletânea de contos de sua autoria.
1926 – Publica “Chuvas de Primavera” e “O Sol Também se Levanta”. Divorcia-se de Hadley Richardson.
1927 – Casa-se com Pauline Pfeiffer.
1928 – Nasce-lhe o segundo filho, Patrick. O pai de Hemingway, doente e com problemas financeiros, se suicida.
1929 – Publicas “Adeus às Armas”. Viaja à Espanha.
1933 – Em novembro, parte para a África.
1935 – Publica “As Verdes Colinas da África”, “As Neves do Kilimanjaro” e “A Hora Triunfal do Sr. Macomber”.
1936 – Contribui com 40.000 dólares para a causa republicana espanhola. Em agosto, viaja pela Espanha.
1940 – Publica “Por quem os sinos dobram”. Casa-se pela terceira vez, com a jornalista Martha Gellhorn.
1942 – Oferece-se para perseguir submarinos alemães, a bordo de seu iate particular, transformado em navio de guerra.
1944 – Correspondente de guerra em Paris. Forma uma armada pessoal para libertar as “caves” do Hotel Ritz.
1946 – Casa-se pela quarta vez, com a também jornalista Mary Welsh.
1952 – Publica “O Velho e o Mar”
1953 – Retorna à Espanha e à África.
1954 – Aos 25 de outubro, recebe o Prêmio Nobel de Literatura.
1958-1959 – Viaja novamente à Espanha.
1960 – Interna-se na Clínica Mayo, de Minnesota, para um tratamento de saúde.
1961 – Muito doente, cansado, suicida-se em 02/07/1961, no Vale de Ketchum, Idaho, Estados Unidos.
Fonte: Os Imortais da Literatura Universal, No. 13 – Editora Abril.

Legendas das fotos:


1)      Capa da revista Life, por ocasião do Prêmio Nobel de Literatura em 1954;
2)      No Pamplona Café em Paris, com alguns companheiros da lost generation, pós 1ª. Guerra mundial;  
3)      Com Antonio Ordonez, renomado toureiro e seu amigo, durante uma “corrida” na Espanha;
4)      Ao lado de Mary Welsh, a quarta esposa, em sua propriedade em Key West/EUA.
5)      O escritor durante a 1ª. Guerra Mundial, junto de Agnes Von Kurowski, para muitos, o seu grande amor.
6)      Em Cuba, com Fidel Castro, antes que este assumisse o poder.
7)      Pescando os cobiçados e enormes marlins com Gregorio Fuentes, que teria inspirado o decadente pescador Santiago de “O Velho e o Mar”
8)      Trabalhando em seus manuscritos (repare as inúmeras correções, marca do escritor);
9)      Escrevendo, em foto promocional.
Nota do autor: Esta matéria foi, a convite, escrita originalmente para a Revista Virtual Letras com Arte, do site www.autores.com.br , sendo matéria de capa da edição de número Zero da publicação que teve outras duas edições.