sábado, 2 de julho de 2011

HEMINGWAY, 50 ANOS DEPOIS, O SOL AINDA SE LEVANTA

Neste dois de julho, completa-se 50 anos da morte do escritor Ernest Hemingway.  Prêmio Nobel de Literatura de 1954. Autor de, entre outros: Adeus às Armas, Por quem os Sinos Dobram, O Sol também se levanta, e, O Velho e o Mar.

Por trás do homenzarrão aventureiro e do talentoso escritor, escondia-se um espírito frágil que passou a vida flertando com a morte até conquistá-la.

Para ele, Literatura era arquitetura e não decoração. Devido seu estilo minimalista e despojado de escrever, onde as ações falavam pelos sentimentos, Ernest Hemingway (1899-1961) foi um dos escritores mais influentes e imitados do século XX.
As linhas que seguem são apenas parte do Iceberg, aquela que pode ser vista. Outra existiu. Menos bonita e mais dramática, não menos interessante. Mas não vem ao caso. O que se pretende é escrever um pouco sobre o escritor e não sobre o ser humano. Porque embora para muitas pessoas isso custe a ser compreensível, na verdade acontece. O escritor é um. E geralmente é uma mentira a produzir verdades. E o ser humano é outro. É o desconhecido. O fraco. O derrotado. Aquele que sofre e lamenta o seu destino, geralmente triste e às escuras, distante dos olhos do leitor.

O BAD BOY DA GERAÇÃO PERDIDA
Por Geraldo J. Costa Jr.

Ernest Hemingway pertencia à comunidade de escritores expatriados em Paris, ao final da 1ª. Guerra Mundial. A cidade, considerada o berço da vanguarda da cultura e das artes da época, recebeu naquele período, inúmeros escritores, pintores e músicos. São contemporâneos de Hemingway, o também escritor Francis Scott Fitzgerald (do qual era amigo), o poeta Ezra Pound, e o pintor cubista Pablo Picasso, além do poeta e cineasta Jean Cocteau e do pintor Henry Matisse. Foi a escritora Gertrude Stein, que ali chegara antes de todos deles, quem dera respaldo àqueles jovens desiludidos, embora talentosos, os quais batizara como the lost generation (a geração perdida). Stein, também escritora, viúva, americana de origem austríaca, e de refinada cultura (estudara em Paris e Viena) exerceu forte influência sobre a formação literária de Hemingway, ajudando-o a encontrar e aprimorar o seu estilo, como ele mesmo admite em “Paris é uma Festa” (A Moveable Feast), livro póstumo, no qual, o escritor relata aquele período, em que, já casado com Hadley Richardson era um sujeito introvertido, que se vestia com displicência e bebia muito. Trabalhava como correspondente estrangeiro do Toronto Star, e era sempre visto circulando pelos cafés do Boulevard Montparnasse, bairro que abrigava artistas e boêmios pertencentes à “geração perdida”, os quais tinham por hábito se reunir no apartamento da Rue Fleurus pertencente à Gertrude Stein.

ESPANHA, UM CASO DE AMOR
O Sol Também se Levanta (1926) e Por quem os Sinos Dobram (1940), são romances escritos por Hemingway que nasceram de suas costumeiras viagens à Espanha, país com o qual se identificou e estabeleceu uma relação afetiva e ideológica.  Em 1937, cobriu como correspondente do North American Newspaper a Guerra Civil Espanhola que depôs o General Franco. O escritor posicionou-se em favor das forças republicanas contra o fascismo. Os críticos avaliam que nesse período Hemingway aprimorou definitivamente o seu estilo minimalista de escrita, que dispensava penduricalhos literários e ia direto à questão, escrevendo de maneira simples e agradável de ser lida.
04 CASAMENTOS E UM FUNERAL
Ernest Hemingway fora casado 4 vezes. A primeira delas, com Hadley Richardson, com a qual contraiu núpcias em setembro de 1921. O casamento durou cinco anos, justamente o período que abrange o seu primeiro livro a ter alguma repercursão “Em nosso tempo” (1924) e “O Sol Também se Levanta” (1926). Com Hadley teve um filho, John.
A segunda Sra. Hemingway foi Pauline Pfeiffer. O casamento durou mais de dez anos. O escritor deixou-a depois de conhecer  a jornalista Martha Gelghorn, durante a guerra civil espanhola, da qual ambos tomaram parte como correspondentes para a Aliança de Jornais Norte-Americanos.
Em 1946, após a 2ª. Guerra mundial, da qual participara, segundo documentos do FBI, trazidos à tona recentemente, como agente secreto do governo americano, Hemingway casa-se pela quarta vez, desta feita com Mary Welsh, uma jovem que ele conhecera em Londres. Hemingway encontra nela, também jornalista, embora tímida, uma companheira dedicada que durante quinze anos o acompanharia nas suas aventuras humanas e literárias. Caberia à Mary Welsh encerrar o ciclo da profecia de Scott Fitzgerald, para o qual Hemingway precisaria de uma mulher para cada livro. Era ela que o acompanhava na fatídica manhã de 02 de julho de 1961.
UM CASO À PARTE
Por muitas razões alguém pode se casar quatro vezes. No caso de Ernest Hemingway, a razão talvez atenda pelo nome de Agnes Von Kurowski. A enfermeira que ele conheceu enquanto servia na primeira guerra mundial como motorista de ambulância da Cruz Vermelha. A mulher que lhe disse não para se casar com um rico barão italiano. Agnes foi um divisor de águas na vida do leão indomável porém extremamente emotivo chamado Ernest Miller Hemingway. Ele jamais assimilou o golpe. Fez da literária um modo de responder na mesma moeda o que ele considerava o seu maior fracasso. A história de amor pode ser conhecida através do livro “Hemingway no amor e na guerra: O diário perdido de Agnes Von Kurowski” de Henry S. Villard e James Nagel, editado no Brasil pela Rocco, ou no filme homônimo de Richard Attenborough estrelado por Chris O’Donnell e Sandra Bullock e disponível em DVD. Mas é no personagem de Catherine Barkley do romance “Adeus às Armas” que Hemingway eternizou o seu primeiro e talvez único amor.
CUBA, O SEGUNDO LAR
O Velho e o Mar, publicado em 1952, foi escrito em Cuba onde Hemingway viveu durante 22 anos  e permanecera até 1960, quando se viu forçado a deixar a ilha por causa da revolução liderada por Fidel Castro e ocorrida um ano antes. Quando chegara, na década de 1930, instalara-se inicialmente no Hotel Ambos Mundos, localizado na Havana Vieja. Ali, ocupava o quarto No. 511. Depois, já casado com Martha Gelghorn foi convencido por esta a adquirir uma propriedade e escolheu uma, velha e deteriorada, em Finca Vigia, nos arredores de Havana. Depois de reformada, a casa tornou-se uma mansão em estilo espanhol, em cima de uma colina com privilegiada vista da capital cubana. Homem dado a viagens e aventuras, como safáris na África que quase lhe custaram a vida, o escritor, aos 41 anos, se estabelecera pela primeira vez.
Em Havana, Hemingway conquistara a simpatia dos habitantes porque adotara a cidade como sua. Ali, tinha o seu barco de nome Pilar, capitaneado por Gregorio Fuentes, que, muitos afirmam, ter sido a inspiração para o personagem Santiago de “O Velho e o Mar”, publicado em 1952, e com o qual o escritor ganhara os prêmios Pulitzer e Nobel de Literatura (1954).
Todavia, Ernest Hemingway jamais perdera o hábito etílico. Gostava de frequentar a La Bodeguita, em Havana e sentava-se sempre à mesma mesa (até hoje reservada para ele) para tomar, às vezes, segundo testemunhas, vários daiquiris, um coquetel curto, à base de rum branco, suco de limão e xarope de açúcar.
Atualmente, os governos norte-americano e cubano, tentam melhorar as relações diplomáticas no intuito de ajudar a preservar o patrimônio do escritor ali existente. Em Havana, a mansão onde Hemingway morou transformou-se em museu que ostenta boa parte do acervo do escritor. Recentemente, cerca de dois mil documentos foram digitalizados e acham-se à disposição de estudantes e pesquisadores.
ACIDENTES MARCARAM A VIDA DO ESCRITOR.
Não foram poucos ao longo dos 61 anos de existência. Os acidentes marcaram a trajetória humana de Hemingway e, acabaram por influenciar decisivamente no seu desempenho literário que, feito vela foi se apagando com o tempo. Desde puxar por engano uma corrente no banheiro pensando que era a descarga do lavatório, até saltar de um avião em chamas prestes a decolar, passando ainda por outro, de automóvel, quando foi projetado para fora pelo para-brisa. Antes, havia deslocado o ombro, no Congo, a caminho de um safári, após uma aterrisagem forçada do avião onde se encontrava. Na cabeça, foram vários ferimentos que lhe custaram pontos icontáveis e a perda do escalpo em determinada ocasião. Seu anjo de guarda, como se vê, passou muito tempo limpando a sua barra, até que um dia se cansou. Foi na manhã, de um domingo, 02 de julho de 1961, dia em que o escritor se suicidou, deixando órfãos inúmeros fãs e seguidores em todo mundo.
 Psiquiatria tenta explicar a personalidade confusa do escritor
O instrutor e psiquiatra, Christopher D. Martin, da equipe do Departamento Menninger de Psiquiatria e Ciências Comportamentais da Faculdade Baylor de Medicina em Houston, Texas, sugere em um artigo publicado em 2006, na revista Psiquiatria Americana, que o escritor Ernest Hemingway era acometido de desordem bipolar, dependência do álcool, lesão cerebral traumática e, provavelmente traços de personalidade limítrofe e narcisística.
OBRA LITERÁRIA PUBLICADA DE ERNEST HEMINGWAY
Romances
• 1925 The Torrents of Spring
• 1926 The Sun Also Rises  (O Sol Também Se Levanta)
1929 A Farewell to Arms  (Adeus às Armas)
• 1937 To Have and Have Not  (Ter e Não Ter)
• 1940 For Whom the Bell Tolls  (Por Quem os Sinos Dobram)
• 1950 Across the River and Into the Trees  (Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores)
• 1952 The Old Man and the Sea  (O Velho e o Mar)
• 1962 Adventures of a Young Man (Aventuras de um Homem Jovem)
• 1970 Islands in the Stream  (As Ilhas da Corrente)
• 1986 The Garden of Eden  (O Jardim do Éden)

Não-ficção
• 1932 Death in the Afternoon
• 1935 Green Hills of Africa
• 1960 The Dangerous Summer
1964 A Moveable Feast (Paris é uma Festa)
• 2003 Ernest Hemingway Selected Letters 1917-1961
• 2005 Under Kilimanjaro

Contos e pequenas histórias
• 1923 Three Stories and Ten Poems
1925 In Our Time
• 1927 Men Without Women
• 1932 The Snows of Kilimanjaro
• 1933 Winner Take Nothing
• 1938 The Fifth Column and the First Forty-Nine Stories
• 1947 The Essential Hemingway
• 1953 The Hemingway Reader
• 1972 The Nick Adams Stories
• 1976 The Complete Short Stories of Ernest Hemingway
• 1995 Collected Stories
 ALGUNS VÍDEOS SOBRE O AUTOR DISPONÍVEIS NA INTERNET:
ÁUDIO DO AUTOR DISPONÍVEL NA INTERNET:
DICAS DE ERNEST HEMINGWAY PARA SE ESCREVER UM BOM TEXTO:

1. Use frases curtas.

Hemingway ficou conhecido por seu estilo minimalista de escrita, que dispensava floreios e ia direto à questão, escrevendo de maneira simples e genial. A melhor demonstração da perícia do autor com frases curtas foi quando ele foi desafiado a escrever uma estória inteira com apenas seis palavras:
“À venda: sapatos infantis, nunca usados.”

2. Escreva um primeiro parágrafo curto.

Como neste artigo.

3. Use uma linguagem Vigorosa.

Como David Garfinkel explica a seguir:
“Uma linguagem vigorosa vem da paixão, do foco e da intenção. É a diferença entre fazer um esforço e TENTAR mover um pedregulho … e, de fato, suar, forçar seus músculos ao ponto da exaustão e realmente MOVER a coisa!”

4. Não seja negativo, escreva positivamente.

Isto é, não diga como as coisas não são e sim como elas são. Ao invés de dizer que algo “não é caro”, diga que é “econômico”; ao invés de dizer que uma cirurgia “não é dolorosa”, diga que ela é “pouco desconfortável” ou ainda “relativamente confortável”; ao invés de dizer que um programa de computador “não tem erros”, diga que ele é “estável” ou “consistente”.
CRONOLOGIA DE ERNEST MILLER HEMINGWAY
Ernest Miller Hemingway nasceu em 21/07/1898 em Oak Park, Illinois, Estados Unidos, filho de Clarence Hemingway (médico) e Grace Hall.
1916 – Publica seus primeiros contos
1917 – Parte para Kansas City. Trabalha no jornal Kansas Star
1918 – Engaja-se na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) como motorista de ambulância da Cruz Vermelha. Luta na Itália. É ferido em julho de 1918. Conhece a enfermeira Agnes Von Kurowski, considerada por muito como seu grande e único amor. Agnes o rejeita.
1919 – Retorna em janeiro para os Estados Unidos.
1920 – Ingressa no jornal “Toronto Star”
1921 – Conhece o também escritor norte-americano Sherwood Anderson, em Chicago. Em setembro, casa-se com Hadley Richardson. Em dezembro, parte para a França como correspondente estrangeiro do “Toronto Star”.
1922 – Conhece a escritora norte americana de origem austríaca Gertrude Stein que vivia em Paris. Participa da chamada “lost generation” da qual também participam F. Scott Fitzgerald, Ezra Pound, Pablo Picasso, Jean Cocteau, Henry Matisse, entre outros.
1924 – Nasce-lhe o primeiro filho, John. Desliga-se do “Toronto Star”. Publica “Em Nosso Tempo” coletânea de contos de sua autoria.
1926 – Publica “Chuvas de Primavera” e “O Sol Também se Levanta”. Divorcia-se de Hadley Richardson.
1927 – Casa-se com Pauline Pfeiffer.
1928 – Nasce-lhe o segundo filho, Patrick. O pai de Hemingway, doente e com problemas financeiros, se suicida.
1929 – Publicas “Adeus às Armas”. Viaja à Espanha.
1933 – Em novembro, parte para a África.
1935 – Publica “As Verdes Colinas da África”, “As Neves do Kilimanjaro” e “A Hora Triunfal do Sr. Macomber”.
1936 – Contribui com 40.000 dólares para a causa republicana espanhola. Em agosto, viaja pela Espanha.
1940 – Publica “Por quem os sinos dobram”. Casa-se pela terceira vez, com a jornalista Martha Gellhorn.
1942 – Oferece-se para perseguir submarinos alemães, a bordo de seu iate particular, transformado em navio de guerra.
1944 – Correspondente de guerra em Paris. Forma uma armada pessoal para libertar as “caves” do Hotel Ritz.
1946 – Casa-se pela quarta vez, com a também jornalista Mary Welsh.
1952 – Publica “O Velho e o Mar”
1953 – Retorna à Espanha e à África.
1954 – Aos 25 de outubro, recebe o Prêmio Nobel de Literatura.
1958-1959 – Viaja novamente à Espanha.
1960 – Interna-se na Clínica Mayo, de Minnesota, para um tratamento de saúde.
1961 – Muito doente, cansado, suicida-se em 02/07/1961, no Vale de Ketchum, Idaho, Estados Unidos.
Fonte: Os Imortais da Literatura Universal, No. 13 – Editora Abril.

Legendas das fotos:


1)      Capa da revista Life, por ocasião do Prêmio Nobel de Literatura em 1954;
2)      No Pamplona Café em Paris, com alguns companheiros da lost generation, pós 1ª. Guerra mundial;  
3)      Com Antonio Ordonez, renomado toureiro e seu amigo, durante uma “corrida” na Espanha;
4)      Ao lado de Mary Welsh, a quarta esposa, em sua propriedade em Key West/EUA.
5)      O escritor durante a 1ª. Guerra Mundial, junto de Agnes Von Kurowski, para muitos, o seu grande amor.
6)      Em Cuba, com Fidel Castro, antes que este assumisse o poder.
7)      Pescando os cobiçados e enormes marlins com Gregorio Fuentes, que teria inspirado o decadente pescador Santiago de “O Velho e o Mar”
8)      Trabalhando em seus manuscritos (repare as inúmeras correções, marca do escritor);
9)      Escrevendo, em foto promocional.
Nota do autor: Esta matéria foi, a convite, escrita originalmente para a Revista Virtual Letras com Arte, do site www.autores.com.br , sendo matéria de capa da edição de número Zero da publicação que teve outras duas edições.

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