quinta-feira, 7 de julho de 2011

BARALHO DE LETRADOS

Sob a figueira, à mesa de concreto da praça, dois escritores conversavam.
Não trouxe o jornal?
Hoje é segunda. Moramos em Rio Claro. Esqueceu-se?
Vamos jogar cartas, então.
Com qual baralho? O seu ou o meu?
O seu. É mais novo. Mais fácil de manusear.
Pois bem. Embaralhe você.
Cartas distribuídas, eles começaram o jogo.
Um Kafka?                                        
Sim.
E eu lhe dou um Guimarães.
Bom início. Mas eu tenho um Flaubert.
Fácil de cortar. Basta um Machado.
Um Machado, entretanto, pode vencer, mas não destrói um Hemingway.
Que só não é mais esperto, mais forte e mais rápido do que um Coelho.
Isto não vale, é jogo sujo!
É um jogo, meu caro. Todo jogo tem suas regras e peculiaridades.
E também um curinga, portanto, tome um Bukowski.
Com gelo ou sem gelo?
Ao gosto do freguês.
Neste caso, devo recorrer aos préstimos da Sra. Stein, grande cortesã.
Que certamente, irá tricotar com Madame Lispector.
Claro, se ela estiver viva.
Está. Pois me disse, ainda ontem, que está escrevendo.
Ora, ora, às vezes, tenho vontade de dar um tiro na cabeça.
O que tenho certeza será concretizado, quando você souber a carta que tenho em mãos.
Qual?
Um Werther.
Esta carta não vale. É de outro baralho.
Então vamos jogar damas.
Ok, desde que as camélias não atrapalhem.
Virginia?
Orlando.
Outra carta sem valor.
Ora, deixe-me jogar em paz, ou chamarei um Dumas.
Zap. Tenho Balzac.
Pro inferno você!
Dante.
E neste momento, bateram os sinos da matriz do João.
Se baixar um Quasimodo, agora, eu lhe arrebento.
Passarás 30 anos confinado à Bastilha, como Valjean.
Você até parece um Javert de tão frio e calculista.
Perverso. Tome outro curinga. Hugo.
Hugo? Profeta? Deus? Não mais do que Borges.
Cego por cego, eu lhe apresento Saramago.
Loyola.
O santo?
Não. O caipira.
Mas ele não remove as pedras do meio do caminho como Drummond. Portanto, perdeste.
Engana-se, meu caro. Ninguém expôs as vísceras como Nauro.
Bem, se o assunto é anatomia, lá vai, Marques de Sade.
Esta é fácil. Mr. Oscar.
Acompanhado do Lorde?
Psiu! Fale baixo!
Então é melhor que seja um Thomas.
Man?
Sabe-se lá.
E passaram o dia todo jogando e, quando a noite chegou, continuaram.
Agora, você dá as cartas.
De novo?
É sua vez.
Está bem.
Levantou-se e atirou as cartas pelos ares.
Basta, este jogo está muito chato. Vamos assistir ao futebol na TV.

Dedicado ao Prof. Carlos Motta (o Carlão), um dos bons escritores publicados no site http://www.autores.com.br/



Um comentário:

  1. Maravilhoso, gostei muito.
    Fiquei pensando quão interessante seria jogar este jogo.
    Abraços.

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