segunda-feira, 25 de julho de 2011

Escritores: Construindo verdades e sonhos

Ser escritor em um país feito o Brasil é um castigo? Ou seria uma benção?
Depende do ponto de vista. O que é sofrimento para uns, pode servir de inspiração para outros. O irlandês Oscar Wilde, dizia que era preciso vivenciar todo tipo de experiência para se elevar espiritualmente. Leiam a biografia dele, escrita por Richard Ellmann (1)) e não será difícil entender o motivo para tanto.
É impossível definir o que é ser um escritor. É algo meio doido. Você vive com os pés neste mundo, mas o pensamento em qualquer outro lugar, a maior parte do tempo, que não seja este.
O ficcionista é aquele que cria vida com seus personagens, acontecimentos e lugares, emoções e sentido, pensamentos. Então, sob esse aspecto, ele seria uma forma aproximada de Deus.
Mas ele também é um ser humano, embora, a maioria das pessoas, os leitores, principalmente, não tenha a percepção disso.
É comum o leitor identificar o escritor nos personagens criados por este. O que nem sempre corresponde a realidade.
Minha ex-esposa, Luciene, costuma encontrar fragmentos do indíviduo Geraldo José Costa Junior, que ela conhece um pouco, só um pouco, no escritor J. Costa Jr. Mas engana-se ela, porque um nada tem a ver com o outro.
Admita-se que o escritor ficcionista escreve sobre aquilo que conhece bastante bem, ou desejaria conhecer; ele escreve sobre o que viveu, viu, ouviu, soube de algum modo. E isso, por mais que espante as pessoas ou cause repúdio naqueles que tem idolatria pela inspiração, é bastante plausível. Simplesmente porque não há como criar algo do nada.
Na verdade, o escritor nada cria. Ele reinventa. E precisa reinventar a si mesmo constantemente, de modo a não se repetir, desafio que, invariavelmente, se constitui para ele um fracasso. Porque o escritor se repete. E o que faz a diferença entre os bons e os muito bons, é a capacidade de dar cor, cheiro e forma diferente à mesma história e ao mesmo ambiente psíquico em que ela é elaborada. Talvez por isso que para Ernest Hemingway, literatura era arquitetura e não decoração.
A Literatura Brasileira é um fenômeno. Um caso à parte. Porque sofre um crime a meu ver de lesa pátria. Há ótimos, formidáveis escritores brasileiros. Sempre houve. Desde os primeiros até os mais recentes. Mas é algo detestável o modo pedagógico como a literatura brasileira é apresentada aos adolescentes e jovens em período escolar. Fatiam-se trechos de obras literárias formidáveis para explicar gramática. Ou exigi-se a interpretação de retalhos dos textos. Por Deus, educadores, não façam isso! É um crime abominável e covarde contra o autor e a literatura por ele produzida a custo de tanta dedicação, indiferença e sacrifício.
Talvez não saibam as senhoras e os senhores, porque talvez jamais tenham produzido um texto de ficção, mas cada frase, período, diálogo de uma narrativa, é um elo da corrente, que à parte dos demais, perde todo o seu sentido, coerência. Portanto, a interpretação que se dá a partir daí jamais corresponderá à verdade. Seria como querer entender a mente humana, através da orelha, da boca, dos olhos e dos ouvidos, apenas porque todos estes fazem parte da cabeça. Não funciona assim a coisa.
Já é chegado o momento de a Literatura Brasileira ser levada a sério. Não mais ser objeto de fanfarronice como a Academia Brasileira de Letras e suas congêneres.  Ou aberrações como a FLIP, evento puramente comercial de que se utilizam as editoras para venderem o seu produto. E essa odiosa conotação que se dá ao livro é que nos estimula continuar a escrever ficção em um país onde a Literatura, em pleno século XXI ainda é vista com um bicho de sete cabeças para a maioria das pessoas.
Não é o livro, senhores, o que importa, é o que vai dentro dele. A idéia, a magia, a proposta que se pretende difundir já não depende do livro. Portanto, nestes tempos atuais, o escritor, ficcionista ou não, já não depende do livro, não é mais escravo dele. E essa ferramentazinha impertinente chamada internet, nos demonstra isso cada vez mais a cada dia.
Em resumo, os bons escritores brasileiros esquecidos precisam ser resgatados. Os bons escritores que se acham afastados dos holofotes da mídia, por razões estritamente comerciais precisam ser trazidos à luz.
Basta de escritores que escrevem sobre uma realidade que não condiz em nada com aquilo que vivemos.
Tenho absoluta certeza que os melhores escritores brasileiros da atualidade são os não publicados, os preteridos pelas editoras meramente comerciais, conduzidas por indivíduos que não entendem nada de literatura de ficção, mas apenas do objeto livro e o melhor modo de torná-lo atraente e vendável.  Reduzem a Literatura simplesmente a um negócio. E por sua grandeza e importância, a Literatura jamais será apenas um negócio. Esquecem do conteúdo do livro, desprezam-no, ignoram-no, porque, para eles, nada significa. Deveriam de se envergonhar por terem abraçado esse ramo, para o qual não possuem nenhuma vocação. Mas faço lembrá-los que ainda é tempo. Abandonar este e procurar outro ramo seria o melhor serviço que poderiam prestar à Literatura Brasileira.
Hoje é o nosso dia. E daí? É a pergunta que a maioria envolvida ou não com Literatura se faz.
E daí, que continuamos a mudar a vida das pessoas, nossas vidas, e de alguma forma, o mundo. Porque afinal somos deuses. Somos escritores. E nossa carta de alforria já está em nossas mãos, já não dependemos mais do objeto livro para levarmos ao leitor o resultado de nosso trabalho, seja a realidade ou seja o sonho.
Agora, brindemos a nós todos. Este é o nosso dia.

(1)   Ellmann ,Richard. 'Oscar Wilde'. 2ª ed. São Paulo: Editora Companhia das Letras, 1988.


* Publicado no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 28/7/2011, à pág.2.
*Publicado no Site Autores.com.br: http://www.autores.com.br/34-ensaios/49148-dia-do-escritor-construindo-verdades-e-sonhos.html

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