terça-feira, 19 de julho de 2011

PAI, ATÉ BREVE

Três indivíduos têm uma dívida impagável para com meu pai. Pela ordem: o diretor do presídio, cujo nome não vale a pena mencionar; além do estúpido Cerberus, que, para os menos avisados é o porteiro do lado mais negro, mais fétido e desesperador do Umbral, e, por último, o doutor do hospital psiquiátrico, que feito ao seu colega primeiramente mencionado, tratarei de omiti-lo.
Pois bem. Um destes auspiciosos lugares teria sido fatalmente o meu destino, não tivesse eu tido a sorte de ser filho de quem sou.
Melhor do que ninguém, meu pai me entendeu e mais do que ninguém, ele me aceitou sem impor condições.
Quem vê essa minha cara de anjo, dona de um par de olhos verdes sedutores e intimistas, não sabe, não tem ideia do demônio que existe por trás disso.
Eu e meu pai somos velhos conhecidos. Vem de longe a nossa história, cujo início, se perde na escuridão dos tempos inimagináveis.
Acredite quem quiser, mas, juntos, enfrentamos épicas batalhas nos tempos das cruzadas, juntos catequizamos índios, e acho que, depois, nos arrependemos de tê-lo feito. Fomos sócios, inimigos, irmãos, e finalmente, pai e filho.
Pudesse escolher e mil vezes, um milhão de vezes escolheria para que ele fosse o meu pai. Sem ser piegas e já sendo, pois não.
Aprendi o que é um livro, por sugestão dele. Nada por imposição é preciso que se diga. Porque ele jamais nada impusera. Embora sempre mostrasse com palavras, atitudes e gestos, o melhor caminho. 
Problema é que filhos jamais escutam os pais. Porque, afinal de contas, filhos sabem mais muito mais que os pais. Não é mesmo? Filhos são modernos, donos da verdade. Pais são quadrados, ultrapassados. Eu também acreditei nessa balela. Acreditei lá pelos meus 17 anos que poderia ser melhor do que ele, meu pai. Sequer cheguei aos seus pés. Ele era bem melhor que eu, como ser humano e como escritor.
 Pouca gente se deu conta, mas o mundo perdeu há quase dois meses uma alma bondosa, que eu, particularmente, nunca vi alterada, agressiva, e capaz de dizer um palavrão.
Fora criado muito mais pela avó e depois, pelos padres, mas tinha pelo pai veneração e pela mãe um amor desmedido. Seguiu com minha mãe até o fim, quando muitos homens, cônscios de suas possibilidades dariam no pé, iriam procurar outro caminho, digo, carinho.
É dele a minha primeira lembrança neste mundo. Antes até mesmo do meu cachorrinho, cujo instante, acha-se eternizado em uma foto que ele, o meu pai tirou, como quase todas do período da minha infância. Tenho um álbum de fotos daquele tempo. Coisa que nem meus irmãos, que pegaram, digamos, uma fase melhor e mais promissora de nossa família, tiveram.
Fui saber o que era ter irmão quando eu já era adulto. Mas o que era ter pai eu nunca tive dúvidas.
Aprendi a gostar de minha mãe, devo confessar, através dele. E não me arrependi. Vi no sofrimento dela, a maneira como o encarou, virtudes que eu jamais possuirei: ser tolerante e humilde; amar a vida, mais que tudo; acreditar que mais que as montanhas de terra e de rocha, as montanhas da alma é possível removê-las com a fé. Em Deus.
Até os 13 anos, apesar das convulsões, dos pesadelos, e dos remédios, vivi os melhores momentos de minha vida, porque ele me os proporcionou. Minha dívida com meu pai, portanto, é impagável. Quem sabe, em uma de nossas muitas andanças, Deus me dê essa oportunidade. Quem sabe, um dia, seja ele a me chamar de pai. Eu espero por isso. Do mesmo modo como, banho tomado, bem vestido e bem penteado pelas mãos de minha dedicada mãe, eu ficava a esperar por ele, no portão de casa, depois das 6, quando encerrava o seu expediente na Loja Farani.
Joguei futebol, aprendi a escrever, encontrei o meu primeiro emprego, porque ele, o meu pai, sempre foi um pai de verdade.
Ele tinha seus defeitos, mas nunca fez dos mesmos motivos para me causar aborrecimento ou tristeza.
Juntos, com minha mãe, eu e ele enfrentamos situações que meus irmãos, jamais haverão de imaginar. Mas isso é outra história que, um dia, quem sabe, resolvo botar no papel.
Por ora, conto essas.
Há pessoas que dizem que por alguma razão a gente nesta vida morre duas vezes. Uma parte de mim se foi em 20 de maio deste ano. E só restaram lembranças. As melhores.
Vivo desde então uma grande expectativa, a de que do mesmo jeito que ele veio me avisar em sonho que estava partindo, volte um dia para me estender a mão e me avisar que finalmente acabou. Afinal, isso é só o fim.
*Publicado no site Guia Rio Claro:  http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=148003111
*Publicado no site Autores.com.br.: http://www.autores.com.br/3-cronicas/49013-pai-ate-breve.html

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