quarta-feira, 31 de agosto de 2011

EPIFÂNIA

"Escrever é um ato solitário, no qual se convive com ideias e fatos que são mentiras, vidas e lugares que escapam à realidade. É algo que se começa chorando, desejando atenção e carinho e se termina fedendo, geralmente desacreditado e esquecido. Pior, deixa-se de fazê-lo por opção própria ou imposição da natureza, sem o direito de saber se valeu a pena". - gjcjr.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

A GUERRA ESTÚPIDA

Cristãos e muçulmanos. A mais sangrenta e duradoura batalha motivada pela fé. Eis o fato histórico. O que não se compreende, entretanto, é com que direito definem-se como cristãos, as pessoas que pegam em armas para matar o seu semelhante. Pessoas motivadas pelo ódio, intriga, interesses de uma minoria a qual representam.
Acaso fora isso o que Jesus Cristo ensinou por intermédio de palavras e atitudes? Tais pessoas certamente não sabem o significado da palavra “Cristo” (1).
Jesus ensinou o amor incondicional, tão fácil de ser descrito em verso e prosa, mas tão difícil de ser praticado. Ensinou a retribuir o mal com o bem, a perdoar o inimigo, a não vê-lo como tal, mas, como um semelhante no caminho árduo da evolução espiritual. Jesus revelou a fé na vida futura. Não veio destruir as leis, mas aperfeiçoá-las e cumpri-las.
Por isso custa aceitar a ideia de que o cerne do embate cristãos versus muçulmanos seja religioso. Talvez tenha sido no princípio, originado do fanatismo e na fé irracional por uma ideia, seja qual for, que nenhum benefício traz. Hoje, esse motivo não se sustenta. Mais fácil aceitar que o verdadeiro interesse para fomentar e perpetuar essa inútil guerra estúpida seja o interesse econômico. O interesse deles, os espertos, os velhacos, os donos do dinheiro e dos papéis valiosos, dos números fictícios que só existem nos computadores, mas que, por incrível que pareça, são mecanismos eficientes de decisão para atender aos interesses dos Money Owner Men of the World.
Quem ganha e quem leva vantagem com embate religioso que serve de pretexto para as barbaridades que se cometem contra a humanidade, como a fome, as doenças contagiosas, a concentração de riquezas, a alienação de crianças e jovens, a vulgaridade das mulheres, a estupidificação das culturas e das artes e, por conseguinte da juventude?
A resposta: Aqueles que fabricam e vendem armas letais. Porque sem elas, a guerra é impossível.
Esses idiotas pensam que ficarão neste mundo para sempre. Esquecem que um ponto luminoso por menor e menos intenso que seja já prevalece sobre a escuridão. Perderam a fé no amor porque em algum momento de suas vidas tiveram os seus interesses mundanos contrariados. E, por essa razão, passaram a acreditar na falácia de que se não são felizes ninguém tem o direito de sê-lo.
Jesus era um Mestre. E Maomé, um profeta. Não. Eles não eram. Eles são. Ambos merecem respeito. E não merecem que seus nomes sejam atirados na lama por fanáticos, cegos de razão, e vazios de alma.
Estes indivíduos são, em verdade, infelizes, por opção. E que se sujeitam a servirem como escudo, espada e massa de manobra para os velhacos espertalhões que se julgam donos do mundo.
Acreditam levar adiante uma revolução. Ingênuos. Não há revolução que comece da base da pirâmide social à qual eles pertencem e à qual a maioria de nós pertence. Nunca houve, jamais haverá, ainda que nos façam acreditar nisso. Sejam revoluções sociais, políticas, culturais e religiosas, elas se originam dos interesses de uma minoria dominadora, exclusivista e insensível aos valores morais, a qual é formada pelos tidos e havidos como os donos do mundo.
Para melhor entendimento, tomemos como exemplo a seguinte metáfora: Em certos momentos, essas pessoas (se é que à eles cabe a denominação), desejam trocar a mobília e o cenário onde vivem, o figurino que vestem (ou se disfarçam) e até mesmo os criados que lhes servem. Então é preciso renovar tudo, botar tudo pra fora, limpar o ambiente e o fazem com seus recursos e a seu bel prazer. Essa transformação idealizada e conduzida por essas pessoas, para atingir apenas aos seus interesses, geralmente mesquinhos e reprováveis à razão, é o que se convencionou chamar de revolução. Uma, de caráter econômico e social está em andamento na Europa com reflexos jamais admitidos naquilo que se convencionou chamar de o império americano.
E para não aparecerem a olhos vistos, porque isso não lhes é interessante, essas pessoas escolhem a dedo alguns para representá-los. E quando se vê um norueguês, de nome difícil de pronunciar, escrever um monte de idiotices e praticar um ato de barbaridade contra pessoas inocentes, ele apenas reproduz aquilo que “outros” o convenceram como sendo a verdade, prometendo-lhe, certamente as benesses de um paraíso, na verdade inexistente, como os fanáticos cristãos e muçulmanos o fazem.

(1) O ser crístico é aquele que ama sem interesse, eleva-se pelo sacrifício de si mesmo, por onde quer que caminhe o faz com igualdade e fraternidade entre os seus semelhantes; a sua oferta é o culto interno de veneração à Divindade, é humilde, sabe que é falível enquanto humano, se conduz pela verdade e vivencia a Deus por sua conquista individual através das boas obras que realiza. – Fonte de pesquisa: http://vidaplenaebem-estar.blogspot.com/2009/12/o-que-e-ser-cristico.html

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

A TRISTE REALIDADE DA POLÍTICA DE RIO CLARO


Triste realidade de uma cidade que aspira e reivindica grandeza, mas que, em se tratando de homens públicos e partidos políticos caminha a passos de tartaruga.
Para o desgosto dos cidadãos a campanha eleitoral ao cargo máximo da municipalidade que deveria ter início em meados do próximo ano já começou.
Polarizada entre os que hoje estão no poder e aqueles que pretendem retomá-lo, a campanha, terrível para os ouvidos e mentes sadias, se desenvolve através de panfletos mal elaborados, onde se trocam dissimuladamente ofensas e acusações de parte a parte. Também em determinados veículos de comunicação radiofônica que, sob o pretexto de fazer jornalismo, atuam como caixa de ressonância dos interesses e objetivos não assumidos para a retomada do poder por parte daqueles que hoje assumem a postura ofensiva de pedra e não mais vidraça como até então sempre se orgulharam de ser.
A campanha igualmente já acontece nas redes sociais onde ocorre em páginas virtuais como o facebooks, orkut e blogs. Ou seja, já contaminou todos os cantos da cidade e também o ambiente virtual, sem dar trégua ao cidadão.
A conclusão que se chega sem nenhum esforço é que situacionistas e oposicionistas dependem do Poder para viverem, como nós dependemos do feijão com arroz, da água potável (pela qual pagamos um preço absurdo) e do minguado salário.
Ocorre, entretanto, que vai ficando muito claro ao cidadão eleitor de Rio Claro o fato de que situacionistas e oposicionistas não estão à altura das necessidades prementes da cidade, não se constituem a melhor opção, se é que tal exista, em meio esse deserto de vida inteligente que é o meio político rio-clarense.
A cada dia, a cada manifestação de parte a parte, fica evidente que Rio Claro precisa isto sim, de uma terceira opção.
Alguém que represente fielmente a ideia de que o Poder é para servir a todos e não apenas àqueles que nele estão temporariamente e seus aboletados.
Uma liderança, que seja nova, que de fato zele pelas coisas de interesse público e que não se lembre do povo apenas a cada 4 anos para, com ares de cachorro abandonado, pedir um voto de confiança e fazer promessas infundadas e jamais cumpridas.
É bom lembrar que onde o Bem se ausenta o Mal se instala. Rio Claro precisa despertar a consciência para a importância da política. As pessoas de boa índole, cultas, qualificadas têm uma dívida e um compromisso com a cidade que os acolheu, que é integrar-se, ocupar espaço na vida política local. Quando isso se der, certamente não teremos mais o desprazer de assistir impotentes, a ineficiência de uma Câmara Municipal desqualificada e à guerra insana e ridícula entre dois grupos egoístas e aproveitadores que se digladiam um pela reconquista e outro pela manutenção do Poder.
Quem sabe, então, não teremos mais que passar pela vergonha de vermos irmãos nossos sofrendo humilhações de toda sorte quando buscam o atendimento nas unidades de saúde pública. Não mais choraremos desesperançados com o ascinte que se pratica contra as nossas crianças e adolescentes nos estabelecimentos de ensino público. Jovens não padecerão mais na perdição do alcoolismo e das drogas, porque, finalmente terão motivos para acreditar em si mesmos e no mundo. E os nossos realmente trabalhadores não serão mais assaltados em seus pertences e sua dignidade, conquistados com tanto suor e sacrifício e muito menos serão usurpados em sua crença nas instituições e nas autoridades.
Face o exposto, alguns defenderão a ideia de que estes males não atingem apenas Rio Claro. Certamente que não. Mas quando os governos são incapazes de proporcionar educação, saúde e segurança pública de qualidade às pessoas que por tais benefícios pagam através dos impostos, contribuições, tributos e taxas, de duas uma, ou os governos não possuem razão alguma para existir, ou a forma de governar precisa ser repensada. E isto só será possível com o surgimento de novas lideranças políticas empunhando de maneira destemida e altruísta, novas ideias e novos ideais que varrerão essa triste realidade que faz o cidadão de bem ter verdadeira ojeriza por política, algo que só beneficia os mal-intencionados, aproveitadores, egoístas que tomam de assalto, sem nenhum pudor, receio ou vergonha, a riqueza do povo produzida pelo povo, do qual, estes senhores e estas senhoras são apenas representantes temporários.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

CREPÚSCULO


Bate o sino de Santa Cruz. Três da tarde. Missa dos enfermos.
Verônica entra pelo pórtico da igreja, caminha até o altar, onde, se ajoelha, e entrega-se em fervorosa prece.
Pede por si mesma e os seus. Esquece de repente que tem 52 anos. E, como sempre, tenta fugir das lembranças. As lembranças daquela longínqua tarde de outono.
Em meio à poeira do infinito estradão limpou com o punho o suor que lhe escorria pelo rosto. As mãos calejadas, sangrando. O sangue, confundindo-se agora com o suor abundante e ininterrupto. Tirou o chapéu da cabeça, esperando com isso refrescar-se. Quis descansar à sombra, mas não teve coragem. O que os outros diriam? Então se agachou, e ao olhar para o lado, viu, em meio à poeira...
Mas não pôde acreditar no que viu. Voltou a trabalhar.
Esta lembrança lhe ocupa a mente, rouba-lhe a concentração, a distancia da fé.
Padre Martini conversa na sacristia. E da posição em que se encontra ele a observa. Termina a conversa com o sacristão, despede-se e vai ao encontro de Verônica. Aproxima-se, sem abordá-la. Espera até que ela se dê conta de sua presença, o que demora a acontecer.  E quando acontece, o padre a cumprimenta com aceno de cabeça e sorriso simpático, como de costume.
Verônica levanta-se, e volta os olhos para a imagem do Cristo crucificado nos fundos da Igreja, distante, como que inatingível, talvez, esquecido.
“Venho aqui todas as tardes” – ela diz.
“E encontra o conforto que procura?” – pergunta o padre.
“Nem sempre”.
“Há de ser assim, enquanto mantiver o coração fechado”.
“E o que devo fazer para abri-lo?”.
“Ame. Não apenas de um modo. Mas de todos os modos”.
O padre Martini retira-se. E Verônica se sente só. E desamparada. Não é a resposta que deseja ouvir. Mas está certa de que outra resposta o padre não pode lhe dar. A incômoda certeza de que as pessoas jamais lhe falam o que deseja, o que espera ouvir sempre lhe causa irritação.
Toma o rumo da saída, e enquanto caminha pelo corredor central da capela, Verônica atravessa os raios de sol que entram pelos enormes vitrais coloridos. E lembra-se:
Em meio à poeira do infinito estradão... Estava a caminhar há dois dias, três, quatro dias... Já não sabia ao certo. A roupa molhada, ora pelo suor, ora pela chuva, grudada ao corpo, causando-lhe desconforto. As botas encharcadas. Os calos inflamados dos pés e das mãos. Os longos cabelos desarranjados, caindo-lhe sobre os olhos e os ombros. Foi diminuindo os passos pouco a pouco. Encostou-se numa barranca à beira da estrada à procura de sombra. Que horas seriam? Respirava pela boca e com dificuldade. A garganta seca e o estomago vazio; as pernas sem forças para prosseguir. Por um momento pensou estar vendo seu cavalo galopar em meio à poeira do estradão infinito em direção à linha do horizonte. Fechou os olhos. Teve a impressão de que a silhueta de um homem cruzava com seu cavalo ao longe. Alguém finalmente caminhava ao seu encontro. Quis acreditar fosse ele.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

TINTA FRESCA


"Um texto você escreve. E depois, lê e corrige, lê e corrige, lê e corrige... E publica-o. Ou não. Se publicar, ele será como um filho que você entrega ao mundo, sem jamais ter a certeza de que você fez por ele tudo o que podia e do melhor modo que podia. Sua única certeza é jamais esperar por gratidão e reconhecimento. Isso poupa a sua mente e o seu coração, de terríveis decepções". - gjcjr.

domingo, 14 de agosto de 2011

"SOB O MANTO DA NOITE"

Capítulo 24 do inédito romance "SOB O MANTO DA NOITE" de minha autoria. 
*Todos os direitos reservados.



Ao final daquela tarde, eu repetiria o ritual sagrado de minha vida: Verificar se havia correspondência jogada na área pelo carteiro.

Agora percebo que vivi aqueles últimos anos esperando por uma resposta que jamais viria. Afinal, meus livros existiam apenas em disquetes e na memória do meu computador. Que tola a minha pretensão ser publicado por uma grande editora. Nunca me deram resposta. Na verdade, acho que jamais leram uma linha sequer do que escrevi. Anexo aos meus originais, não havia carta de recomendação, e eu não era amigo de nenhum escritor conhecido. Eu não era ninguém. Mas alguma coisa eu era: Um sonhador. E esta humilhante condição – atitude irresponsável para alguns – me fez sobreviver 26 anos, suportando a estupidez da vida humana e de tudo o que a cerca.
Imagino o sem número de suicídios que resultariam se meus livros fossem publicados. Eu superaria Göethe, certamente. E ele, do inferno onde se encontra, sentiria inveja de mim.
Estava sentado no chão da área, com as costas na parede, tomando o ótimo vinho que o Sr. Lorenzo Santini havia me dado de presente certa ocasião.
Anoitecia. O homem de idade avançada passava empurrando o seu carrinho abarrotado de papelões e garrafas de plástico. Pela primeira vez, depois de tantos anos, ele olhou para mim, talvez imaginando que a sua dor, naquele instante, ocupava o meu pensamento. Foi como se me dissesse: “Hei rapaz, tire a bunda daí e vá viver sua vida, antes que ela desista de você”.
Na manhã do dia seguinte, fui até a banca e, ao invés de comprar revistas de cinema e literatura, comprei o Jornal de Concursos. Passei a tarde toda lendo o maldito. Não atendi ao telefone, não almocei, esqueci do computador. Anotei o que poderia me interessar, e já na segunda-feira, saí à caça de um curso preparatório. Fiz a matrícula e passei a freqüentá-lo, com assiduidade, como jamais havia feito.
Certa noite, eu voltara para a casa, após o curso, quando vi, ainda que de longe, as luzes da área acesas. O medo se desfez quando vi o vaso fora de lugar e a folhagem remexida. A única pessoa que sabia onde encontrar a chave de casa estava agora na cozinha, passando um café, cujo aroma agradável chegava até mim.
Três anos que nossos olhares não se cruzavam. Nenhuma notícia de parte a parte desde então. Mas sabíamos nos entender. Ele me acolheu em seus braços. Senti a força de seus braços a me envolver, como se eu tivesse novamente dois ou três anos.
Três anos... Três anos depois, eu pude chamá-lo de pai outra vez.
A partir daquele instante, não tive mais dúvidas, de que minha vida realmente estava mudando.
“Filho! – disse ele, enquanto caminhávamos abraçados pela sala – Você está ótimo! Que bom! Isso me deixa feliz e orgulhoso”.
“Ora, pai. Não exagere. Não há motivo pra isso”.
“Não foi o que vi no seu quarto, sobre a cama”.
“Encontrou os preservativos” – pensei.
“Apostilas”. – disse ele, cheio de entusiasmo.
“É que voltei a estudar. A razão e as circunstâncias me dizem que não dá mais pra cursar uma universidade. Mas prestar um concurso, talvez, sim”.
“Para que cargo?”.
“Escrevente judiciário”.
Ele sorriu satisfeito, mas sem esconder uma ponta de ironia.
“Ora, ora – disse – Sempre achei que você daria pra coisa. Afinal tem boa redação e é organizado”.
Desviei meu olhar que até então o contemplava apreensivo.
“Sei que não é exatamente o que você queria filho...”.
“Pessoas como nós, pai, tem que achar felicidade naquilo que a vida nos oferece”.
“Espero mesmo que você tenha encontrado a sua. Eu te amo muito, Lucas”.
Fazia bastante calor àquela noite, então o convidei para tomar um vinho na área. Eu deitado na rede, e ele, acomodado na cadeira.
“Sentiu minha falta esses anos todos?” – ele perguntou.
“Sim. Aconteceram muitas coisas. Tenho muito que lhe contar”.
“Seus amigos?”.
“Amigos? Ora, como vou lhe dizer?... Fred Nilbon e Deise morreram. Ele, por vontade própria. E ela, assassinada. Cléber acha-se foragido. E o Sr. Lorenzo Santini, faz dois anos que não o vejo e nem tenho notícias”.
Fiquei esperando que ele perguntasse sobre seu outro filho. Mas ele não o fez. Seu orgulho não permitiria jamais. Decidi ajudá-lo na tarefa.
“Jorge costuma vir aqui quase sempre”.
Ele arregalou os olhos para mim. Porque afinal não esperava por isso; não imaginava que eu tivesse coragem para tanto. Mas nós sabíamos nos entender. Havia cumplicidade. E respeito de um para o outro.
O homenzarrão começou a chorar. De início tentou conter o choro. Mas diante de mim, seu orgulho desmoronava. De repente seu rosto tomou uma feição triste, sombria, e uma angústia se apoderou de seu olhar e meu pai do alto de sua grandeza física encolheu-se feito um menino.
“Preciso de ajuda” – disse ele.
Quando imaginei que ouviria palavras como aquelas saírem de sua boca?
Ele enxugou os olhos, acomodou-se melhor na cadeira e olhou pensativo para a samambaia pendurada na parede da área.
“Lucas, está chegando ao fim... Você entende?”.
Meu olhar talvez lhe tenha dito que sim. E isso fora tudo o que pude lhe oferecer.
“Estarei retornando amanhã para Campinas – disse ele – E o fato é que talvez não possa voltar... Você entende, não é filho?”.
Novamente o olhar, a ocupar o espaço que as palavras recusavam
“Mas não aceito”.  – eu disse finalmente, sem ao menos acreditar que conseguia dizer.
Ele desconsiderou a minha posição, então repetiu:
“Por isso é que preciso de sua ajuda, Lucas”.
Deixei a rede em que estava deitado e caminhei até o portão. O velho empurrando seu carrinho de papelões seguia longe. As vizinhas conversavam na outra calçada. Voltara a chover. Fiquei com os olhos grudados no asfalto, esquecendo que meu pai estava sentado numa cadeira atrás de mim esperando por resposta.
Acendi um cigarro. E nesse momento, parou um carro na casa ao lado, cujo motorista, ao sair para apertar a campainha ou bater palmas, deixou a porta aberta e o rádio ligado.
Se fosse só sentir saudade/ mas tem sempre algo mais...
Naquele momento, aquelas palavras pareciam dialogar comigo.
Mesmo passado tanto tempo, Jorge, meu irmão, ainda tinha mágoas de meu pai. Quando mais precisara dele não encontrara apoio senão indiferença. “Vá se virar, eu disse pra você não se meter com isso”. Essa frase, dezessete anos depois, ainda reverberava nos ouvidos e no coração de Jorge.
Agora que a vida escapava de suas mãos, Emilio Adler sentia a premente necessidade de reconciliar-se com o filho mais velho. E esperava contar com meu apoio para consegui-lo. Que resposta eu poderia lhe dar senão:
“Tudo bem pai. Conte comigo”.
Seus olhos brilharam.
“Jorge costuma dar uma passada por aqui sempre à noite durante a semana”.
O brilho do seu olhar desapareceu. E seu rosto se fechou, ganhando repentinamente a expressão dos temidos mafiosos italianos que, em tempos idos, fora para os seus filhos pirralhos, cabeça de merda, motivo de orgulho.
“Na verdade, ele já esteve aqui, esta noite – disse meu pai – Mas quando me viu, ainda na calçada diante do portão, olhou-me assustado e foi-se embora”.
“Não disse nada?”.
“Não. Nem ele, nem eu”.
“Pelo menos até amanhã, pai. Eu lhe garanto”.
Não encontrei outro motivo pra lhe dar esperança.
Fora uma batalha quase perdida convencer Jorge a se encontrar com nosso pai. Ele não queria de jeito nenhum. Tivemos que tomar meia dúzia de cervejas para que eu pudesse convencê-lo. Também lhe comprei um maço de cigarros. E quando ele me pediu que lhe pagasse uma cachaça eu quase o mandei à merda na frente da minha cunhada. Mas estou certo de que ela me daria os parabéns ao invés de tomar as dores do maridinho.
Acompanhado de meu pai, cheguei pontualmente às 6 horas na Praça Siqueira Campos. Sentamos num banco perto do coreto que levava o nome do maestro Fábio Marasca.
Ali, eu e meu pai e Jorge passáramos bons momentos. Papai costumava nos levar à Praça aos sábados pela manhã, todas as vezes que se apresentava a centenária Banda dos Ferroviários. Comíamos pipocas, e, montados no touro Vesúvio, tirávamos fotografias, e nos divertíamos bastante com o palhaço Amendoim do insuperável Circo Irmãos Landa, até que mamãe desse um de seus chiliques por causa das gracinhas de Jorge. Já naquele tempo, Mariana, minha irmã, era para mim, um ser misterioso, por acaso habitando o mesmo teto que eu.
Enquanto olhava na direção do lago onde Diana Caçadora se eternizava numa estátua de gesso, eu parecia reviver tudo aquilo.
Talvez percebendo a emoção que me envolvia, papai bateu carinhosamente em meu ombro, e disse:
“Acha mesmo que ele virá?”.
Demorei a responder, assim como demorei a ter coragem para olhá-lo nos olhos.
Meia hora depois, ele ajeitava a camisa de linho para dentro da calça, limpava com o lenço o suor da testa e verificava se sua inseparável caneta Parker estava mesmo dentro do bolso. Suspirou fundo, bateu com as mãos nos joelhos, e quando pensei que soltaria um palavrão, ele disse:
“Não se lamente, Lucas. Nós tentamos”.
“Não sei o que dizer pai”.
“Diga que me ama. Diga que de onde estiver pelo menos você, se lembrará de mim”.
Ele se levantou, caminhou na direção do coreto, como se fosse até a banca do Edgard comprar os jornais do dia, mas então, de repente, voltou-se e disse:
“Acho que devemos ir ao cinema”.
Mal sabia que uma casa de bingo ocupava o lugar onde em dias melhores, para mim e para ele, funcionara o velho, bom e imponente Cine Excelsior.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

DE VOLTA PARA O FUTURO

Estréia nos cinemas do Brasil, Super-8, que alguns reputam como a mais recente obra prima do Sr. Steven.
Quem viveu a época e soube curti-la, dela não sente falta nenhuma. Quem não soube, olha para trás e se corrói de arrependimento. Quem não viveu, mas ouviu falar, acha que foi tudo uma maravilha. Não foi. Vivíamos em um país de merda, infestado como sempre por políticos corruptos e oportunistas, e onde dinheiro não valia nada, oportunidades não havia nenhuma e pra curtir um som que prestasse precisávamos recorrer ao pessoal do estrangeiro ou os chapados daqui mesmo.
A sorte é que não havia essa doença contagiosa chamada sertaneja e esse castigo coletivo chamado forró.
Ora, vá lá, havia. Mas aquele era ainda um tempo em que apenas os bons se estabeleciam.
Crescemos. E basta se tornar adulto pra compreender com certa decepção o que é este mundo, o que é esta vida e o que é a humanidade.
Sinto falta dos meus 14, 15, 16 anos. Claro. Mas não sinto nenhuma falta daqueles ridículos anos 80. E nem Spielberg me fará pensar o contrário. Ainda me sinto bem melhor de volta para o futuro. Ou, à meia-noite em Paris, onde nascem e terminam os sonhos.

GOLPE EM RIO CLARO? SÓ SE FOR DE ARAQUE.


Por tudo o que já se ouviu, escreveu e se fez em relação a novela “Pega o Dú” chega-se, até o momento, a algumas constatações, embora certamente outras hajam de vir.
A primeira delas é que a incompetência grassa entre as secretarias da administração municipal, porque só mesmo incompetência justifica a “mancada” que o setor administrativo da prefeitura deu ao proceder de maneira errada o afastamento temporário do prefeito que resultou em todo o imbróglio que este se vê envolvido e que pode inclusive determinar o seu afastamento definitivo do cargo.
Segundo, o Dr. André Luiz Miranda, autor da denúncia e bom advogado que é  requer  apenas o cumprimento do decreto lei 201, uma vez que o decreto existe, há muito tempo, mais precisamente, desde 1967, e não foi ele quem o criou. O advogado exerce o seu direito de cidadão e de defensor das leis.
A Comissão Processante, mais conhecida como CP, cumpre seu papel ao conduzir com lisura os trabalhos, ainda que as testemunhas das primeiras oitivas tenham se ausentado aos depoimentos marcados para a última quinta-feira (11), em um desrespeito à própria Comissão Processante e, principalmente aos cidadãos rio-clarenses que esperam por explicações convincentes dos implicados.
O governo municipal, na pessoa do prefeito utiliza-se de todos os meios legais para evitar a possível perda do mandato para o qual fora eleito pela vontade popular expressa nas urnas, de maneira legítima e democrática.
Quem, afinal, tem razão ou deixa de tê-la, o leitor tirará suas conclusões mais adiante.
O citado decreto que trata sobre a responsabilidade do prefeito existe, e lei não se discute, se cumpre. Ao menos, até que outra a substitua. Ocorre que referido decreto de No. 201, oriundo de 27 de fevereiro de 1967, é bom que se diga, portanto, quando ainda não se respirava os ares salutares de democracia no Brasil, traz em seu bojo, a nosso ver, um excesso de zelo e uma contradição.
Ora, por que o executivo, representado pelo prefeito, teria de se submeter à autorização do legislativo para se ausentar temporariamente de suas funções, se, executivo e legislativo são poderes independentes, e se o mandato do primeiro, ou seja, do prefeito, fora outorgado não pela via indireta, ou seja, o legislativo, mas pela via direta, através da vontade do povo, por meio do voto, como preconiza o sistema democrático?
Se o Legislativo, ainda que represente o povo, foi comunicado, em tempo hábil e de modo transparente, claro e legal, e de fato foi, já bastaria para produzir o efeito de informação entre os poderes, cumprindo dessa forma, rito meramente burocrático, até porque, a vice-prefeita, assumiu interinamente o cargo, não ficando este vago em nenhum momento, e fez cumprir as atribuições assumidas.
Portanto, pode ter havido descumprimento quanto ao excesso de preciosismo, de zelo, de que trata o inciso IX do referido decreto lei, mas não houve prejuízo para a municipalidade ou para o governo, e muito menos para a cidade e, finalmente para a população de Rio Claro, aspectos com os quais, em nosso entendimento, deveriam se preocupar o denunciante e os legisladores.
Esse nos parece, o aspecto legal dos fatos. Mas, há outro, tão importante quanto, e sobre o qual se baseia a pretensão de cassar o prefeito Dú Altimari, que é o aspecto político.
Como bem questiona o manifesto publicado na imprensa escrita, na última quarta-feira (11) pelo Conselho Sindical: A quem interessa a eventual cassação do prefeito Dú Altimari? Ora, não é preciso ser Herculano Quintanilha para adivinhar. Interessa à oposição. E a mais ninguém. Porque, em verdade, embora as partes, cada qual por seus motivos e interesses, não admitam, mas a campanha eleitoral para a sucessão municipal do próximo ano, que promete ser das mais acirradas já começou. E a oposição sabe que será difícil impedir a reeleição do prefeito Dú Altimari, considerando as iniciativas (leia-se obras) de elevada importância e impacto positivo para o município de Rio Claro, que se realizarão em breve espaço de tempo, e cuja viabilidade de recursos financeiros, se deve ao inegável bom relacionamento do governo municipal com o governo federal.
Para os verdadeiramente políticos, para aqueles que de fato entendem dessa Arte que é a política, reconquistar o Poder é mil vezes mais prazeroso e realizador do que nele se manter.
A condição sine qua non para tanto, é que o façam com o respaldo popular que o legitime, e que apenas se dá por intermédio das eleições diretas, onde o povo manifesta a sua soberana vontade.
Mas esta convicção parece não existir nos políticos e seus respectivos partidos que atualmente formam a oposição em Rio Claro. Enraizados nas práticas em desuso de uma “direita” que ainda não encontrou o seu rumo desde a então inédita ascensão da “esquerda”, a partir de 1997, com a eleição do professor Claudio Antonio Di Mauro ao cargo de prefeito. São, enfim, como cartas de um baralho viciado. Dá pena ver tanta incompetência somada e cujo resultado mais significativo foi a derrota nas últimas eleições municipais. Tentam de tudo, mas nenhum disfarce lhes parece ficar bem. Não se renovam. Frustram as oportunidades daqueles que, inutilmente, buscam espaço com objetivo de vislumbrar novos horizontes e fazer respirar novos ares à referida ideologia. Enfim, são feito cães que se recusam a largar o osso.
Nessa tentativa inútil e, a nosso ver, tresloucada de destronar o atual “Rei”, leia-se prefeito, eles preferem, pelo menos em princípio, conforme nosso entendimento, adotar outra estratégia, qual seja, a da força moderada e dissimulada. E para tanto, cercam o castelo do “Rei” e impedem a entrada de suprimentos e armas, esperando com isso enfraquecer o “Rei”, sua “Corte” e seu “Império”.
Logo, se já não o fazem, estarão plantando intrigas para jogarem os serviçais do “Rei” uns contra os outros. E assim estabelecer a insatisfação exacerbada, a deserção e o caos entre eles.
No caso específico de Rio Claro, esquecem os opositores que o El Rei, é sujeito ladino, na boa acepção da palavra, hábil negociador, homem acostumado aos embates dos bastidores da política, e conta com o apoio que vem do Alto. Em todos os sentidos.
Em termos do exercício da Democracia, infelizmente Rio Claro parece ainda engatinhar. Mais uma característica de uma cidade pobre de ideias e conduzida, em seus diversos segmentos por pessoas conservadoras e tradicionalistas e de visão estreita e mesquinha.
A classe política de um povo é o exato reflexo do interesse e da busca do entendimento e da prática desse mesmo povo pela política. Eis o lamentável cenário que Rio Claro apresenta. E não é de hoje.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

SENTENÇA

"Duas coisas são irrecusáveis na vida: amor e trabalho". - gjcjr.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

CAI A FICHA


“Espírito não é o que temos, é o que somos. Não somos humanos. Estamos humanos. Humanos é a nossa condição temporária, espírita é a nossa realidade, não importa onde e como estejamos.”. – gjcjr.

AD ETERNUM

"Na Arte Real da vida não há vencedores ou vencidos, porque na Espiritualidade, aqueles que a humanidade chama de derrotados, são chamados de aprendizes". - E.H. - 09/08/2011.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

LÁ e CÁ

“Ao que se refere às artes, neste país, os bons já vieram e já deixaram seu recado. Atualmente, vive-se um período de entressafra, se podemos dizer assim, em que os medíocres se estabelecem e se destacam, e os bons, do lado de lá, se preparam para voltar com nova roupagem, novas ideias, novos objetivos, resultado  de sua estadia no plano espiritual, onde também se vive, se aprende e se trabalha” - gjcjr.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O MAL NÃO EXISTE

O Mal não existe. O Mal é apenas o Bem que ainda não foi compreendido por aqueles que imaginam conhecê-lo.
O Mal é o sangue e o suor daquele que luta contra si mesmo, imaginando que, de alguma forma possa atingir o seu semelhante.
Fosse assim e Deus não existiria.
Só há um inimigo a vencer: a própria imperfeição de cada um.
Enquanto não se olhar para o alto, e não se caminhar adiante, sem medo do depois, há de se permanecer grudado neste chão imundo de iniqüidades e imperfeições.
Por que amar tanto o que jamais se terá para si? Se a chegada é certa, a partida também.
Por que lutar tanto por aquilo que se pode usufruir por um tempo, mas não se pode possuir para sempre?
Onde é que nos encontraremos? Nas sombras? Ou sob a luz? Qual de nós irá estender a mão? Qual é a tua escolha?
Se enfrentares o leão mil vezes, mil vezes você perderá. O leão é mais forte que você naquilo que ele tem e você não tem?
Perigo não se enfrenta, se evita. A vida é preciosa demais para expô-la ao nada.
Tudo vai e volta. Seja o amor, ou seja, a dor. Prepara-se. Mas, não esqueça o mar, ele ensina a viver à calmaria e à tempestade. Porque tudo passa e o sol também se levanta.
Se baixares as armas, o inimigo não terá com quem lutar.
Pense nisso, antes de desembainhar a tua espada.
Ouça o trinar dos pássaros, esqueça os rumores ao lado
Daqueles que apenas passam pela tua vida, pois a ela não pertencem.
Siga em frente, e enfrente, um dia de cada vez.
Que faria o viajante da longa jornada, se esvaziasse o cantil no primeiro dia
Seja racional, mas saiba que a razão teve o amor como mãe.
O amor tudo pode, tudo cria, tudo resolve
E não é um amuleto que se precise conquistar
Muito menos um refém que se precise libertar
É algo que está dentro de você. E à sua disposição.

E.H.
06/08/2011
19h44

AS 7 PRAGAS


Hedonismo, niilismo, obscurantismo, ateísmo, materialismo, egoísmo, ufanismo. Pragas da humanidade que, sob as sombras das ilusões efêmeras faz estacionar o ser humano em sua jornada de aperfeiçoamento moral.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

SONHOS. OU NÓS MESMOS.


"Todo sonho realizado começa com um desejo, passa por uma ação, ou muitas, que leva a um caminho, onde talvez se encontre dores e lágrimas, frustrações, mas, que, impulsionado pelo vento, chamado fé e uma força irresistível, chamada amor, chega ao seu objetivo. Porque a direção do sonho é aquela que o espírito dá. E não há sonho sem espírito, que é o que somos, e não o que temos". gjcjr.