quinta-feira, 25 de agosto de 2011

CREPÚSCULO


Bate o sino de Santa Cruz. Três da tarde. Missa dos enfermos.
Verônica entra pelo pórtico da igreja, caminha até o altar, onde, se ajoelha, e entrega-se em fervorosa prece.
Pede por si mesma e os seus. Esquece de repente que tem 52 anos. E, como sempre, tenta fugir das lembranças. As lembranças daquela longínqua tarde de outono.
Em meio à poeira do infinito estradão limpou com o punho o suor que lhe escorria pelo rosto. As mãos calejadas, sangrando. O sangue, confundindo-se agora com o suor abundante e ininterrupto. Tirou o chapéu da cabeça, esperando com isso refrescar-se. Quis descansar à sombra, mas não teve coragem. O que os outros diriam? Então se agachou, e ao olhar para o lado, viu, em meio à poeira...
Mas não pôde acreditar no que viu. Voltou a trabalhar.
Esta lembrança lhe ocupa a mente, rouba-lhe a concentração, a distancia da fé.
Padre Martini conversa na sacristia. E da posição em que se encontra ele a observa. Termina a conversa com o sacristão, despede-se e vai ao encontro de Verônica. Aproxima-se, sem abordá-la. Espera até que ela se dê conta de sua presença, o que demora a acontecer.  E quando acontece, o padre a cumprimenta com aceno de cabeça e sorriso simpático, como de costume.
Verônica levanta-se, e volta os olhos para a imagem do Cristo crucificado nos fundos da Igreja, distante, como que inatingível, talvez, esquecido.
“Venho aqui todas as tardes” – ela diz.
“E encontra o conforto que procura?” – pergunta o padre.
“Nem sempre”.
“Há de ser assim, enquanto mantiver o coração fechado”.
“E o que devo fazer para abri-lo?”.
“Ame. Não apenas de um modo. Mas de todos os modos”.
O padre Martini retira-se. E Verônica se sente só. E desamparada. Não é a resposta que deseja ouvir. Mas está certa de que outra resposta o padre não pode lhe dar. A incômoda certeza de que as pessoas jamais lhe falam o que deseja, o que espera ouvir sempre lhe causa irritação.
Toma o rumo da saída, e enquanto caminha pelo corredor central da capela, Verônica atravessa os raios de sol que entram pelos enormes vitrais coloridos. E lembra-se:
Em meio à poeira do infinito estradão... Estava a caminhar há dois dias, três, quatro dias... Já não sabia ao certo. A roupa molhada, ora pelo suor, ora pela chuva, grudada ao corpo, causando-lhe desconforto. As botas encharcadas. Os calos inflamados dos pés e das mãos. Os longos cabelos desarranjados, caindo-lhe sobre os olhos e os ombros. Foi diminuindo os passos pouco a pouco. Encostou-se numa barranca à beira da estrada à procura de sombra. Que horas seriam? Respirava pela boca e com dificuldade. A garganta seca e o estomago vazio; as pernas sem forças para prosseguir. Por um momento pensou estar vendo seu cavalo galopar em meio à poeira do estradão infinito em direção à linha do horizonte. Fechou os olhos. Teve a impressão de que a silhueta de um homem cruzava com seu cavalo ao longe. Alguém finalmente caminhava ao seu encontro. Quis acreditar fosse ele.

Nenhum comentário:

Postar um comentário