domingo, 14 de agosto de 2011

"SOB O MANTO DA NOITE"

Capítulo 24 do inédito romance "SOB O MANTO DA NOITE" de minha autoria. 
*Todos os direitos reservados.



Ao final daquela tarde, eu repetiria o ritual sagrado de minha vida: Verificar se havia correspondência jogada na área pelo carteiro.

Agora percebo que vivi aqueles últimos anos esperando por uma resposta que jamais viria. Afinal, meus livros existiam apenas em disquetes e na memória do meu computador. Que tola a minha pretensão ser publicado por uma grande editora. Nunca me deram resposta. Na verdade, acho que jamais leram uma linha sequer do que escrevi. Anexo aos meus originais, não havia carta de recomendação, e eu não era amigo de nenhum escritor conhecido. Eu não era ninguém. Mas alguma coisa eu era: Um sonhador. E esta humilhante condição – atitude irresponsável para alguns – me fez sobreviver 26 anos, suportando a estupidez da vida humana e de tudo o que a cerca.
Imagino o sem número de suicídios que resultariam se meus livros fossem publicados. Eu superaria Göethe, certamente. E ele, do inferno onde se encontra, sentiria inveja de mim.
Estava sentado no chão da área, com as costas na parede, tomando o ótimo vinho que o Sr. Lorenzo Santini havia me dado de presente certa ocasião.
Anoitecia. O homem de idade avançada passava empurrando o seu carrinho abarrotado de papelões e garrafas de plástico. Pela primeira vez, depois de tantos anos, ele olhou para mim, talvez imaginando que a sua dor, naquele instante, ocupava o meu pensamento. Foi como se me dissesse: “Hei rapaz, tire a bunda daí e vá viver sua vida, antes que ela desista de você”.
Na manhã do dia seguinte, fui até a banca e, ao invés de comprar revistas de cinema e literatura, comprei o Jornal de Concursos. Passei a tarde toda lendo o maldito. Não atendi ao telefone, não almocei, esqueci do computador. Anotei o que poderia me interessar, e já na segunda-feira, saí à caça de um curso preparatório. Fiz a matrícula e passei a freqüentá-lo, com assiduidade, como jamais havia feito.
Certa noite, eu voltara para a casa, após o curso, quando vi, ainda que de longe, as luzes da área acesas. O medo se desfez quando vi o vaso fora de lugar e a folhagem remexida. A única pessoa que sabia onde encontrar a chave de casa estava agora na cozinha, passando um café, cujo aroma agradável chegava até mim.
Três anos que nossos olhares não se cruzavam. Nenhuma notícia de parte a parte desde então. Mas sabíamos nos entender. Ele me acolheu em seus braços. Senti a força de seus braços a me envolver, como se eu tivesse novamente dois ou três anos.
Três anos... Três anos depois, eu pude chamá-lo de pai outra vez.
A partir daquele instante, não tive mais dúvidas, de que minha vida realmente estava mudando.
“Filho! – disse ele, enquanto caminhávamos abraçados pela sala – Você está ótimo! Que bom! Isso me deixa feliz e orgulhoso”.
“Ora, pai. Não exagere. Não há motivo pra isso”.
“Não foi o que vi no seu quarto, sobre a cama”.
“Encontrou os preservativos” – pensei.
“Apostilas”. – disse ele, cheio de entusiasmo.
“É que voltei a estudar. A razão e as circunstâncias me dizem que não dá mais pra cursar uma universidade. Mas prestar um concurso, talvez, sim”.
“Para que cargo?”.
“Escrevente judiciário”.
Ele sorriu satisfeito, mas sem esconder uma ponta de ironia.
“Ora, ora – disse – Sempre achei que você daria pra coisa. Afinal tem boa redação e é organizado”.
Desviei meu olhar que até então o contemplava apreensivo.
“Sei que não é exatamente o que você queria filho...”.
“Pessoas como nós, pai, tem que achar felicidade naquilo que a vida nos oferece”.
“Espero mesmo que você tenha encontrado a sua. Eu te amo muito, Lucas”.
Fazia bastante calor àquela noite, então o convidei para tomar um vinho na área. Eu deitado na rede, e ele, acomodado na cadeira.
“Sentiu minha falta esses anos todos?” – ele perguntou.
“Sim. Aconteceram muitas coisas. Tenho muito que lhe contar”.
“Seus amigos?”.
“Amigos? Ora, como vou lhe dizer?... Fred Nilbon e Deise morreram. Ele, por vontade própria. E ela, assassinada. Cléber acha-se foragido. E o Sr. Lorenzo Santini, faz dois anos que não o vejo e nem tenho notícias”.
Fiquei esperando que ele perguntasse sobre seu outro filho. Mas ele não o fez. Seu orgulho não permitiria jamais. Decidi ajudá-lo na tarefa.
“Jorge costuma vir aqui quase sempre”.
Ele arregalou os olhos para mim. Porque afinal não esperava por isso; não imaginava que eu tivesse coragem para tanto. Mas nós sabíamos nos entender. Havia cumplicidade. E respeito de um para o outro.
O homenzarrão começou a chorar. De início tentou conter o choro. Mas diante de mim, seu orgulho desmoronava. De repente seu rosto tomou uma feição triste, sombria, e uma angústia se apoderou de seu olhar e meu pai do alto de sua grandeza física encolheu-se feito um menino.
“Preciso de ajuda” – disse ele.
Quando imaginei que ouviria palavras como aquelas saírem de sua boca?
Ele enxugou os olhos, acomodou-se melhor na cadeira e olhou pensativo para a samambaia pendurada na parede da área.
“Lucas, está chegando ao fim... Você entende?”.
Meu olhar talvez lhe tenha dito que sim. E isso fora tudo o que pude lhe oferecer.
“Estarei retornando amanhã para Campinas – disse ele – E o fato é que talvez não possa voltar... Você entende, não é filho?”.
Novamente o olhar, a ocupar o espaço que as palavras recusavam
“Mas não aceito”.  – eu disse finalmente, sem ao menos acreditar que conseguia dizer.
Ele desconsiderou a minha posição, então repetiu:
“Por isso é que preciso de sua ajuda, Lucas”.
Deixei a rede em que estava deitado e caminhei até o portão. O velho empurrando seu carrinho de papelões seguia longe. As vizinhas conversavam na outra calçada. Voltara a chover. Fiquei com os olhos grudados no asfalto, esquecendo que meu pai estava sentado numa cadeira atrás de mim esperando por resposta.
Acendi um cigarro. E nesse momento, parou um carro na casa ao lado, cujo motorista, ao sair para apertar a campainha ou bater palmas, deixou a porta aberta e o rádio ligado.
Se fosse só sentir saudade/ mas tem sempre algo mais...
Naquele momento, aquelas palavras pareciam dialogar comigo.
Mesmo passado tanto tempo, Jorge, meu irmão, ainda tinha mágoas de meu pai. Quando mais precisara dele não encontrara apoio senão indiferença. “Vá se virar, eu disse pra você não se meter com isso”. Essa frase, dezessete anos depois, ainda reverberava nos ouvidos e no coração de Jorge.
Agora que a vida escapava de suas mãos, Emilio Adler sentia a premente necessidade de reconciliar-se com o filho mais velho. E esperava contar com meu apoio para consegui-lo. Que resposta eu poderia lhe dar senão:
“Tudo bem pai. Conte comigo”.
Seus olhos brilharam.
“Jorge costuma dar uma passada por aqui sempre à noite durante a semana”.
O brilho do seu olhar desapareceu. E seu rosto se fechou, ganhando repentinamente a expressão dos temidos mafiosos italianos que, em tempos idos, fora para os seus filhos pirralhos, cabeça de merda, motivo de orgulho.
“Na verdade, ele já esteve aqui, esta noite – disse meu pai – Mas quando me viu, ainda na calçada diante do portão, olhou-me assustado e foi-se embora”.
“Não disse nada?”.
“Não. Nem ele, nem eu”.
“Pelo menos até amanhã, pai. Eu lhe garanto”.
Não encontrei outro motivo pra lhe dar esperança.
Fora uma batalha quase perdida convencer Jorge a se encontrar com nosso pai. Ele não queria de jeito nenhum. Tivemos que tomar meia dúzia de cervejas para que eu pudesse convencê-lo. Também lhe comprei um maço de cigarros. E quando ele me pediu que lhe pagasse uma cachaça eu quase o mandei à merda na frente da minha cunhada. Mas estou certo de que ela me daria os parabéns ao invés de tomar as dores do maridinho.
Acompanhado de meu pai, cheguei pontualmente às 6 horas na Praça Siqueira Campos. Sentamos num banco perto do coreto que levava o nome do maestro Fábio Marasca.
Ali, eu e meu pai e Jorge passáramos bons momentos. Papai costumava nos levar à Praça aos sábados pela manhã, todas as vezes que se apresentava a centenária Banda dos Ferroviários. Comíamos pipocas, e, montados no touro Vesúvio, tirávamos fotografias, e nos divertíamos bastante com o palhaço Amendoim do insuperável Circo Irmãos Landa, até que mamãe desse um de seus chiliques por causa das gracinhas de Jorge. Já naquele tempo, Mariana, minha irmã, era para mim, um ser misterioso, por acaso habitando o mesmo teto que eu.
Enquanto olhava na direção do lago onde Diana Caçadora se eternizava numa estátua de gesso, eu parecia reviver tudo aquilo.
Talvez percebendo a emoção que me envolvia, papai bateu carinhosamente em meu ombro, e disse:
“Acha mesmo que ele virá?”.
Demorei a responder, assim como demorei a ter coragem para olhá-lo nos olhos.
Meia hora depois, ele ajeitava a camisa de linho para dentro da calça, limpava com o lenço o suor da testa e verificava se sua inseparável caneta Parker estava mesmo dentro do bolso. Suspirou fundo, bateu com as mãos nos joelhos, e quando pensei que soltaria um palavrão, ele disse:
“Não se lamente, Lucas. Nós tentamos”.
“Não sei o que dizer pai”.
“Diga que me ama. Diga que de onde estiver pelo menos você, se lembrará de mim”.
Ele se levantou, caminhou na direção do coreto, como se fosse até a banca do Edgard comprar os jornais do dia, mas então, de repente, voltou-se e disse:
“Acho que devemos ir ao cinema”.
Mal sabia que uma casa de bingo ocupava o lugar onde em dias melhores, para mim e para ele, funcionara o velho, bom e imponente Cine Excelsior.

3 comentários:

  1. Mais uma obra prima, me emocionei lendo.
    Eu amava muito meu pai, herdei dele a coragem, a honestidade e perseverança.
    E hoje quando li aqui seu texto, desejei ser menininha e estar aconchegada nos braços dele.
    Lindo meu amigo, e parabéns por este dia.

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  2. Parabéns ! Lindo texto mesmo !
    Também me emocionei na leitura.
    Abraço

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  3. Ola, gostaria de saber o que mais voce se lembra do circo irmaos Landa. O proprietario era meu bisavo. Abraco.

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