quinta-feira, 29 de setembro de 2011

SINTONIA

É mais forte que eu.
Vai minando pouco a pouco a minha resistência,
Desfazendo a minha esperança, dia a dia, cada vez mais, a cada instante.
Aos olhos de outros, vai revelando ao mundo, o que sou, quem sou.
Mahler vai sumindo de meus ouvidos
Perdendo-se na distância
Que meus olhos já não podem alcançar
Um momento eternizado num pedaço de papel
Regado de lágrimas, rasgado ao meio, mil pedaços
Perdidos ao pé da cama
Porta aberta
E ninguém por ela passa
Mas as horas passam
O olhar permanece
E já não tem a companhia da esperança
Gritos não seriam escutados

Quando a vida não quer
Não adianta,
Não há quem a convença

Sentado na calçada
Com as costas na parede
Eu poderia me perder
No tempo e no espaço
À procura daquilo
Que até bem pouco
Me fez viver. Fez.
Mas agora longe vai
Longe de meus olhos
De minhas mãos
Sem que eu possa alcançá-la.

Vai à procura de outro
Capaz de suportá-la
E certamente encontrará
Feridos há
Por toda parte
Muitos ao relento
Outros, escondidos
Aflitos, vêem o tempo passar
Entre quatro paredes
Mofo
Desprezo
Solidão
Papéis, onde
Sentimentos confessados
Imagens eternizadas
Revelam que a felicidade é possível
Desde que não ultrapasse
O limite do imaginário

Continuo
Porque é inevitável
É mais forte
Vai além de minhas forças
É capaz de me convencer
Num instante
De tudo onde
Onde nada faz sentido
Não faz, não pára
Circula
Em torno da casa
A relva sob os pés
O olhar nas nuvens
Sem direção
E se movimentam
Os passarinhos ao sabor do vento
Os pés
Indo e vindo
Cantam: os passarinhos
Os olhos: nuvens
Onde? Onde as nuvens?

Desce
Sobe
Faz
E desfaz
Forma
Deforma
Mostra
Sem que possa ser visto
É mais forte que eu
Confunde
A casa
Que as mãos, trêmulas
Não conseguem empurrar

O olhar...
Que se deita
E pouco a pouco vai
Caindo, escorregando
Sem parar
Lento
É horrível
Tudo faz girar
Porque é mais forte
E mais determinado
Sincero
E coerente
Embora mais deprimente
É mais forte
E o sol não derrete
A água não dilui
Não é algo que se vê
Nem palavra e nem traço descreve
É aspiração dos homens
Utopia dos anjos
Poema declamado
Desejo
É mais forte que eu

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

TRIÂNGULO

Meu gozo está na parede
Escorre para o chão, manchado com a minha dor
Diluída em alguma coisa
Que escondo dos outros
Que, sábios e prudentes, fingem ignorar
Carrego-me escada acima, olhar baixo
É rotina caminhar
Imaginando que o destino vai
Ficando perto
E se tornando visível
Denso como o sonho
Palpável como o pensamento
Que adquire forma
À medida que o tempo passa
Nada acontece
E tudo se repete
Não assino, não deixo data, nome
Pista, indício
E me oculto, não deixo vulto
Não trago mensagem
Mercúrio não sou
Abandono versos no papel amassado, rabiscado, esquecido
Um ex-combatente, ajoelhado, curvo, braço e perna desnudo, às escuras

Diga-me você o que sou
Olha-me há tanto tempo
Disseca-me com suposições
Deduções
Insulta-me com piedade cristã
Considera-me vencido
Perdido, mas saiba
Que entre nós uma é a diferença
Eu estou voltando
E você, indo
Para além da noite
Deitar-se no horizonte
Deixar-se...
Um símbolo na fronte

E chegará o meu tempo de sorrir
Estou entre os últimos
Questão de sintonia, nada mais
Um poço inesgotável
De inspiração
Conhecida pela plebe
Como dor e revolta
Esta é a química
A Geometria está na conquista
De ver e entender
As coisas como são
E como devem ser
E como seriam
E como se disfarçam para não parecer
Está na astúcia de percorrer
O longo longo caminho
E na coragem de enfrentar
Ultrapassar as circunstâncias, ir além do possível
Cunhar a marca
Caminhar a par do tempo
E contornar os obstáculos
Rumar sem destino
Porque este é certo
E tão verdadeiro
Quanto ir e vir
Tantas vezes, tantas
Quanto for preciso
Até ser capaz
De ver e entender
As coisas pelas quais
Todos os dias todos passam
E não conseguem perceber
Porque ainda procuram longe
O que está dentro de cada um
Desde sempre.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

PASSARINHO

“Tão lindo, tão meigo, alimenta-se com pouco, sacia-se com uma ou duas gotas de água. Não chora para nascer. Não fede para morrer. Não conhece o ódio. É livre porque voa. Vai onde quer. Seu canto é um poema de exaltação à vida. E pensar que um dia há de se tornar um ser humano”.  -g.j.c.jr.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

ETERNIDAD


Suporte em silêncio, olhos baixos
A indiferença, o desprezo alheio
Caminhe
Devagar e decidido
Em silêncio
Observe, sem ser notado
Fale com gestos e atitudes
Interfira com olhares
Suporte
Em silêncio
A trama que tece o destino
Atravesse, ultrapasse
Sob o signo do sol
Que declama sem a chuva
A poesia de lágrimas:
O seu coração
De onde vem o seu medo
A incerteza que o faz
Seguir adiante
Pela fresta da cortina
Pelo vão da porta
Enquanto todos falam
E pensam ensinar
Detenha o olhar
Deposite a esperança
Na súplica escondida no silêncio
Que direto vai
Encontrar o destino
Que para ambos se fez
A cada ida e vinda
Suporte em silêncio
Esqueça a palavra
Que traiçoeira foge de sua mente
Porque a força que move o desejo
Não está na palavra
É chama ardente no coração
O único lugar jamais atingido
Pelo ódio e a indiferença
Daqueles que dizem, mas nunca serão
Os seus amigos
Suporte em silêncio
Vem o crepúsculo
Abra sem medo
O seu coração
Porque é nele que mora o amor
De que é feito as almas

domingo, 11 de setembro de 2011

A ÚLTIMA INSTÂNCIA

Quando se deita os olhos
Na escuridão dos dias que não vieram
E dos sonhos desfeitos
Tem-se a certeza
Única certeza:
Recomeçar
Do ponto final: o ponto de partida
Um abrir e fechar de portas
Que faz cair o pano
Ao término do ato
Outro cenário se revela
Outro ambiente
O mesmo respirar
O mesmo pulsar
Porque não se altera num piscar de olhos
O que anos e enganos construíram
Com o pó das ilusões
E o barro da vida
Nada muda
Nada acontece
Se não se desejar com algo mais
Que só existe no coração
No pensamento começa
A vida de corpo e de alma
Onde se faz e se desfaz
E se transforma
Feito luz sem destino
Em meio à escuridão
Da consciência adormecida
* Foto: O romancista Victor Hugo (1802-1885) no leito de morte, de Felix Nadar (pseudônimo de Gaspard Felix Tournachon).

sábado, 10 de setembro de 2011

SIM, MERETÍSSIMO...

"O que mais admiro nas crianças é sua inesgotável capacidade de, sem nenhum constrangimento, dizer verdades inconvenientes. Sob esse aspecto, acho que jamais deixei de ser criança". - gjcjr.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

SOL e LUA

"Na natureza, de dia reinam os deuses, e, de noite, os demônios" - gjcjr.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

DRUGS

"Se nada mudar, a destruição da humanidade não se dará por meio das armas nucleares, químicas ou biológicas. Mas por meio das drogas que atacam e se propagam naquilo que uma sociedade civilizada (ou que se pretende sê-la) tem de mais valioso: sua adolescência e sua juventude". - gjcjr.

MÃO ÚNICA

"A solidão só faz sentido na Poesia. E com ressalvas" - gjcjr.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

GUERRA e Paz

"A diferença entre as religiões, o que faz as pessoas se distanciarem uma das outras, acreditando se aproximar de Deus, está exatamente naquilo que o ser humano acrescentou indevidamente à essência de cada uma delas". - gjcjr.

MENTE TERMINAL

"Não é preciso ser bandido, ladrão ou assassino para destruir a própria vida. Basta encarar a vida com desprezo e indiferença. Exatamente como fiz durante toda a minha adolescência e juventude, achando que o fato de me tornar um bom escritor compensaria tudo. Hoje vejo entristecido e derrotado que não compensou nada. Absolutamente nada". - gjcjr.

domingo, 4 de setembro de 2011

FINISH MIND


“A diferença entre um poeta e um romancista é que o primeiro necessita de apenas um verso para convencer. Por isso os romancistas são aqueles que preferem o perigo que o longo caminho oferece. Afinal, eles são geralmente ambiciosos, arrogantes, auto-suficientes, vaidosos e mesquinhos, embora, orgulhosos, não admitam. Porque em verdade, mais pensam do que sentem, mais reproduzem do que criam. O poeta segue uma linha de raciocínio, um caminho; o romancista se perde entre muitos. E quando se dá conta de o quanto longe tenha ido já não sabe o caminho de volta”. – gjcjr.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

MILADY

Ela tem passado todos os dias, na calçada, no outro lado da rua.
Em minha direção, olha, como se não olhasse.
E passa.
Porém, mais recentemente, eu a tenho percebido perto. Mais perto do que deveria.
Ela sabe que as palavras têm me faltado. Mas demonstra não saber.
Ela sabe das noites que passo em claro, porque, em muitas delas, se faz a minha sentinela.
Os companheiros, os que restaram, eles a percebem. Acusam a sua proximidade em relação a mim. Mas, receosos, fingem não vê-la, porque, tanto quanto eu, talvez não acreditem.
Talvez imaginem que os meus quilos a menos sejam por causa dela.
E os cabelos que já faltam mais do que deveria, também.
Por isso eu me pergunto, no banheiro, às escondidas, apoiado na pia e diante do espelho, porque tem de ser assim?
A força necessária muitas vezes já não possuo pra encontrar outra alentadora paisagem que não seja o forro de PVC sobre a minha cabeça, nem as quatro paredes que às vezes se tornam cinco ou sete ou nove, pintadas de rosa, girando, girando em minha volta, à minha espera.
O dia passa indiferente e a noite parece nunca terminar.
E eu já vi isso tantas outras vezes, mas, a cada vez, é como se fosse a primeira.
Os sapatos barulhentos acusam ao longe a cadência dos passos.
E ela se aproxima. Novamente. Vem sorrateira, quieta, quase imóvel.
Chegará o instante supremo em que pedirei suplicando que ela atravesse a rua e pare de me olhar.
E me tome pela mão. E me conduza. Feito um príncipe algemado, escoltado, conduzido por uma longa viela, rodeada de árvores, e velhas construções querendo desabar.
Seja breve, me leve
Para longe. Um lugar de paz. Que me faça enxergar a vida como a conheci.
E quando isso acontecer, acusarei do mirante o final de tarde, os pássaros trinando sobre a minha cabeça e minha vista, que vai ficando longa, e larga; silenciosa e triste.
 Tudo passará não mais diante de mim.
Terá ficado em algum lugar do caminho
Que percorri.
Então,
Lembrarei de meu pai, meu amigo:
Um homem deve sangrar até o fim
Deve chorar até a última lágrima, definhar em toda sua esperança
Deve ir fechando os olhos lentamente
Esperar por um sorriso em vão
Pra que sua vida, toda ela, faça algum sentido
Até que ele seja mesmo esquecido
Pelas lembranças daquilo que fez
E deixou de fazer.