sexta-feira, 2 de setembro de 2011

MILADY

Ela tem passado todos os dias, na calçada, no outro lado da rua.
Em minha direção, olha, como se não olhasse.
E passa.
Porém, mais recentemente, eu a tenho percebido perto. Mais perto do que deveria.
Ela sabe que as palavras têm me faltado. Mas demonstra não saber.
Ela sabe das noites que passo em claro, porque, em muitas delas, se faz a minha sentinela.
Os companheiros, os que restaram, eles a percebem. Acusam a sua proximidade em relação a mim. Mas, receosos, fingem não vê-la, porque, tanto quanto eu, talvez não acreditem.
Talvez imaginem que os meus quilos a menos sejam por causa dela.
E os cabelos que já faltam mais do que deveria, também.
Por isso eu me pergunto, no banheiro, às escondidas, apoiado na pia e diante do espelho, porque tem de ser assim?
A força necessária muitas vezes já não possuo pra encontrar outra alentadora paisagem que não seja o forro de PVC sobre a minha cabeça, nem as quatro paredes que às vezes se tornam cinco ou sete ou nove, pintadas de rosa, girando, girando em minha volta, à minha espera.
O dia passa indiferente e a noite parece nunca terminar.
E eu já vi isso tantas outras vezes, mas, a cada vez, é como se fosse a primeira.
Os sapatos barulhentos acusam ao longe a cadência dos passos.
E ela se aproxima. Novamente. Vem sorrateira, quieta, quase imóvel.
Chegará o instante supremo em que pedirei suplicando que ela atravesse a rua e pare de me olhar.
E me tome pela mão. E me conduza. Feito um príncipe algemado, escoltado, conduzido por uma longa viela, rodeada de árvores, e velhas construções querendo desabar.
Seja breve, me leve
Para longe. Um lugar de paz. Que me faça enxergar a vida como a conheci.
E quando isso acontecer, acusarei do mirante o final de tarde, os pássaros trinando sobre a minha cabeça e minha vista, que vai ficando longa, e larga; silenciosa e triste.
 Tudo passará não mais diante de mim.
Terá ficado em algum lugar do caminho
Que percorri.
Então,
Lembrarei de meu pai, meu amigo:
Um homem deve sangrar até o fim
Deve chorar até a última lágrima, definhar em toda sua esperança
Deve ir fechando os olhos lentamente
Esperar por um sorriso em vão
Pra que sua vida, toda ela, faça algum sentido
Até que ele seja mesmo esquecido
Pelas lembranças daquilo que fez
E deixou de fazer.

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