sábado, 15 de outubro de 2011

O INTERMEDIÁRIO - O INÍCIO (Em que se conta a história de Tômaz Adler)

O lugar tinha a alcunha de A Cidade Azul, embora eu não entendesse o motivo.
Havíamos chegado aos bandos, estropiados, doentes, famintos. E tais desgraças fizeram com que muitos de nós, em um breve espaço de tempo sucumbíssemos à uma atmosfera de marasmo, inércia, que, feito vírus letal foi se espalhando por nossa consciência, nossos sentidos, nos envolvendo num torpor que, aos poucos, ora nos tragava para um abismo sem fim, uma escuridão assustadora; ora, nos conduzia à contemplação submissa de retratos, réplicas de situações e construções, eternizados diante de nossos olhos; como se o tempo não passasse, as pessoas e as coisas não se movessem, a vida não existisse ou estagnada estivesse por algo maior e mais poderoso que a própria vontade de Deus.
Todas as manhãs eu descia aquela rua até chegar ao outro lado do vale, a parte alta, onde ficava o posto de socorro. Cruzar a longa avenida sinuosa, em cujo canteiro central escondia-se um córrego canalizado não era problema. E saber disso, foi o primeiro momento de satisfação, o único depois de muito tempo, que experimentei desde minha chegada àquele lugar.
No Posto de Socorro, muitos não passavam da porta de entrada, não por falta de mérito, mas por absoluta falta de fé, de acreditar que as coisas poderiam começar a ser diferentes, melhores.
Acostumado a toda sorte de humilhação, infortúnio e penúria, mesmo assim eu me comprazia daqueles homens e mulheres, jovens e velhos, crianças. Vindos de toda parte. Atraídos pela energia amorosa, restauradora, aconchegante, atraente e irresistível que envolvia aquele lugar, tão imenso para os nossos olhos, tão imenso, alto demais,  que parecia não ter fim, apesar de sua única porta de tamanho apropriado para o acesso de uma girafa caso fosse necessário.
Porém, antes de conhecer aquele abençoado lugar, conheci outros, naquela mesma cidade, e não muito distantes daquele. O mais assustador e deprimente ficava na direção em que o sol se levanta. Não era habitado ou sequer visitado pela espécie humana havia muito tempo, mas tinha vida. Era um lugar em que os raios de sol para alcançar o chão precisavam com toda sua fúria e, delicadeza, só perceptível aos poetas que declinam no papel as suas dores, rasgar as copas das árvores altas e de troncos enormes, que nem uma dezena de homens conseguiria abraçar. O lago, escondido pela neblina de cada manhã, tinha ares de abandono. Em seu leito, perdiam-se enormes galhos de paus d’água, arrancados pelo vento, geralmente ao final de tarde e com mais frequência durante a noite, quando o vento tornava-se mais forte como se soprado fosse pela desilusão de muitos transformada em revolta.
CONTINUA...

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