segunda-feira, 31 de outubro de 2011

ZEROS FORA

Os planos econômicos sempre foram um capítulo à parte na história do Brasil. De tão trágicos beiravam à comédia. E, durante muito tempo, serviram de inspiração para mestres do riso feito Jô Soares, Agildo Ribeiro e Chico Anísio. Sem nenhuma ofensa aos atuais, é claro.
Todas as semanas os redatores de humor tinham pauta de sobra para escrever os novos programas veiculados na televisão e no rádio, geralmente no horário nobre, o que, naquele tempo, significava 09 horas, pós o “Boa Noite” do Cid Moreira e da chuva de lágrimas e vendaval de maldades da novela do Plim-Plim.
Curioso é que naquele tempo o meu Parmêra já era um time medíocre. Mas, deixemos a sessão sadomasoquismo para outra ocasião mais oportuna.
Úh! Senhoras leitoras, agora fui longe heim? Esperem o próximo post. Até lá, saciem-se com sua imaginação. E a minha.
Mas como eu ia dizendo... Eu cheguei à sala de aula naquela manhã, e a Dona Lurdinha, adiantada como sempre, já passava a matéria na lousa, enquanto tentava equilibrar sobre os olhos os seus óculos de aro redondo e lente de fundo de garrafa.
Eu tinha 15 anos, e após ter estudado 08 consecutivos no aconchegante Monsenhor Martins, tentava me acostumar a percorrer o interminável corredor do ainda vistoso Chanceler às 7 da manhã, quando meus olhos verdes e tão belos ainda não haviam se habituado à luz do sol, o que me fazia andar cabisbaixo, algo que os mais apressados em vaticinar a desgraça alheia diagnosticavam como sintoma de depressão precoce.
Monsenhor e Chanceler. Ora, ora! Religião e política, agora percebo, são dois fantasmas em minha vida. Dois obsessores dos quais, obstinadamente tento fugir, e acredito que, após 42 anos de fugas, tenha conseguido. Apesar dos monsenhores e chanceleres da vida. Sem falar do Coronel, onde fiz um ano de supletivo. Não onde antigamente se depositavam ossos, mas onde as avenidas começam a ser contadas. Mas sobre isso eu conto depois. Se os cadernos de Lindalva falassem...! A própria vida ou a maldita língua alheia já teriam dado conta da tarefa.
Bem... Antes, voltemos à cena do crime.
Eu me ajeitava na cadeira, tentando achar o caderno de matemática em meio a tanta porcaria que eu carregava dentro da mochila, e dona Lurdinha, matéria posta na lousa, retirava sem muito jeito, o seu indefectível guarda-pó e o colocava com zelo desmedido no encosto da cadeira de sua mesa de trabalho.
Era um lugar minúsculo aquele, onde estava instalada a sala de aula. Desconfortável, sufocante, sem cortinas e à mercê do sol, localizado no térreo, logo à entrada do prédio de dois andares. Bem diferente de tudo o que eu havia conhecido em termos de estabelecimento de ensino até então.
Na verdade foi ali, durante o intervalo, por volta de 10 da manhã, que aprendi aos 15 anos que o som do silêncio é a voz da solidão.
Ficava sentado nas escadas daquele enorme corredor, geralmente acompanhado por um ou outro colega de classe. Reproduzindo mentalmente os acordes delirantes de How soon is now, Boys don’t cry e algo do gênero. Sem ter o que comer e muito menos dinheiro para comprar qualquer coisa que fizesse interromper a orquestra desafinada que, de tão envergonhada de sua performance, se escondia no interior do meu abdômem. 
E naquele tempo eu reclamava da maldita e persistente orquestra sem ao menos imaginar que, muito tempo depois, ela seria substituída pelo cupim devastador de células que é o herói libertador, uma espécie de Simon Bolívar, da maioria dos membros de minha família.
O cupim, que me perdoem os maestros, é mais humano. Ele trabalha silencioso e quando se faz visto já deu por encerrada a sua obra, de modo que só resta admirá-la. Nada mal.
Ocorre que Dona Lurdinha não estava preocupada com essa história de orquestra, cupim, silêncio e solidão. Mas com as suas continhas, as nossas, melhor dizendo, porque aquele era o maldito dia de se fechar as notas do bimestre. Mas o assunto, entretanto, acabou sendo outro.
Fiquei deveras surpreso e muito agradecido pelo fato de que, pela primeira vez naquele ano, os meus zeros perdiam em popularidade entre os alunos da classe para os zeros do Sarney, aquele dos marimbondos e da ABL (A Bobagem-Mor das Letras).
Mas, já naquele tempo, eu pertencia à plebe, e descobri nenhum pouco satisfeito que ao contrário dos três zeros da nota de mil cruzeiros do Sarney, os meus zeros das provas de matemática não poderiam ser eliminados. Para a satisfação de Dona Lurdinha, que nunca fora com a minha cara, talvez por causa do meu topete tipo Morrissey, mais bonito e interessante que o seu. E da minha, é claro, indiferença pelos números, pelos quais ela, coitadinha, morria de amores.
Números! Que porcaria isto!
Não pensem que já naquele tempo eu preferia as Letras. Não mesmo. Eu não preferia nada. Ou melhor, preferia conviver com a solidão e dialogar com o silêncio. Aos 15 anos, recém introduzido compulsoriamente à plebe rude e sem esperança, em minhas andanças na noite rio-clarense, pela longa, mal iluminada e sinuosa Avenida Visconde do Rio Claro, eu havia sido apresentado a dois inescrupulosos senhores: Cigarro e Conhaque. Não era dupla sertaneja, e menos mal que fosse. Gentis, educados e sempre bem-vestidos tinham uma interlocutora hábil e envolvente, uma espécie de assessora de imprensa da época, que atendia pelo nome de Propaganda.
Convidaram-me então para uma festa onde acabei conhecendo o grande amor de minha vida, uma paixão avassaladora, mas impossível, por razões bastante óbvias. O distinto cavalheiro atendia pelo nome de Sr. Uísque.
Seu perfume era irresistível, sua cor por demais sedutora. Flertamos, devo admitir sem nenhum constrangimento durante muito tempo e às escondidas. De modo que, sobre esse nosso relacionamento todos desconfiassem embora jamais ninguém tenha tido a certeza.
Senhor Uísque foi o responsável pelos momentos mais inoportunos e ridículos de minha trajetória humana ou as ocasiões em que ela esteve muito próxima disso.
Porém, à parte a miséria moral e financeira à qual me arrastara com o seu charme irresistível, Sr. Uísque, me proporcionara também os momentos de mais duradouro e intenso prazer da minha adolescência e início de juventude. Ele fazia eu me sentir importante e valente. E escrever. E muito. E bem. A ponto de me convencer de que eu era sim senhores, a reencarnação do Honório, mais conhecido entre a turma do Sarney como Balzac. Coisas estúpidas que o dia seguinte e as terríveis lembranças que o dia seguinte não se furta de trazer, desmentia completamente sem nenhum pudor.
Contudo, os momentos de satisfação que Sr. Uísque me proporcionava era algo sem paralelo. Mas ele tinha o seu preço. E embora eu estivesse durante muitos anos disposto a pagá-lo, jamais estive à altura de tamanha monta, até que me dei por vencido. Porque mesmo praticar o mal cansa. Principalmente contra si mesmo.
Então, lá pelos meus 20 e poucos anos, fiz o que todos fazem para esquecer um amor impossível. Fui atrás de outro. Mas sobre isto falarei em outra ocasião. Posso adiantar, entretanto, que se tratava de uma fina dama, que, a exemplo do Sr Uísque me faria mais estragos do que qualquer plano econômico antes do Real.

3 comentários:

  1. De um perigo para o outro é assim que se vai com a Vida. Ela nos leva. E a dama, para um segundo capítulo, fica a pergunta: Para quando? Para completar, sugerir e questionar como faz, com tanta propriedade e certeza, nos leva a fazer também, o que se segue, nela, a Vida. Permanecer e escrever, até que seja um comentário. Nele, traduzido corretamente é: continue a nos encantar. Abraços, poeta!

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  2. Ah amigo ! Lendo esse artigo entrei no "túnel do tempo", porque eu, depois do Monsenhor, também fui para o Chanceler, mas no noturno, porque queria meu primeiro emprego. Naquele tempo, o noturno não tinha lá muito boa fama, mas ainda era razoável.
    Esses senhores e senhoras que conhecemos na adolescência/juventude são armadilhas perigosas, mas que não deixam de oferecer sua parcela de aprendizado e experiência...é o mundo lá fora. Bem vindo a realidade, bem vindo a sociedade !
    Abraços

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  3. Sim, eu preferia as letras tão somente, mas nenhum professor era do meu agrado, expulsões, inimizades...Que época!!! Padres infiltrando-se na educação (precária) que tínhamos...Uma carga e tanto para virar psicótica e depressiva. O quanto foi difícil permanecer em salas de aulas!!! Mas venci os 'carrascos', as 'Donas Lurdinhas...' E o pior que ainda temos o Sarney para ir engolindo. Está difícil, pois já que na religião também me dei mal, nem pedir graça posso, rsrsrsrsrsrsrsrsrs. Mas vamos em frente. Ainda podemos correr.
    Grande abraço
    Sucesso.

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