sexta-feira, 25 de novembro de 2011

ALÉM DAQUELAS ÁRVORES - Novela de Geraldo J. Costa Jr. - Capítulo de Abertura

Capítulo de abertura de "Além Daquelas Árvores", de minha autoria, inédito. Todos os direitos reservados.

1.
Aos poucos, as pessoas se retiravam. Algumas em silêncio, cabisbaixas; outras, conversando amenidades e reminiscências. O sol despontava naquele final de tarde, depois que chovera forte e ininterruptamente desde a noite anterior. Habituados à situação os coveiros trabalhavam.
Quando a lápide foi assentada, Lúcia percebeu que havia se rompido o derradeiro laço de afetividade que ainda mantinha com a família. Acompanhada do marido, retirou-se, tomando o rumo da avenida central do cemitério onde havia acabado de sepultar a mãe.
Junto ao marido buscava apoio para enfrentar com dignidade o terrível momento. Não sentiria a mesma dor se ao invés de enterrar a mãe, houvesse enterrado o pai. Tinha dele muitas mágoas com as quais fora obrigada a conviver aqueles anos todos. Agora estava livre.
Lúcia acompanhava, ao acaso, o vôo desorientado de um bem-te-vi procurando abrigo no galho de uma árvore, quando, súbito, olhou para trás, e viu o irmão mais novo, junto ao túmulo da mãe ainda observando o trabalho dos coveiros.

Quando Édi nasceu, Lúcia já tinha onze anos. Ela procurava nisto encontrar razões para a distância que sempre houvera entre eles. De repente, enquanto desviava os olhos de Édi para procurar o bem-te-vi, percebeu que, durante aqueles anos todos, nunca se preocupara com o irmão caçula como deveria. Na verdade, tinha um conceito exageradamente crítico em relação a ele, porque lhe causava decepção o modo inconseqüente como Édi se comportava. Naqueles últimos meses, quando se agravara o estado de saúde da mãe, e sua presença se fizera mais constante na casa dos pais, com os quais, Édi vivia, Lúcia percebera que o irmão tornara-se de fato, como ela temia, um jovem revoltado. Édi demonstrava preocupante indiferença para com a vida. Durante muito tempo Lúcia achava que isto era conseqüência da incapacidade que ele demonstrara desde pequeno em enfrentar os problemas, preferindo transferir aos outros a solução dos mesmos. Mas, ao menos naquele momento, admitia a possibilidade de rever esse conceito.
Parou de caminhar, de repente, e, pedindo licença ao marido, foi ao encontro do irmão, e, já bem próxima, deparou-se com o olhar compenetrado e ao mesmo tempo perdido que ele, ao acaso, lhe dirigira repentinamente.
Édi, entretanto, parecia divagar em pensamentos longínquos. Aos olhos de Lúcia, tornara-se um espectro. Édi continuou olhando-a, mas agora, com indiferença. E ela deteve-se em observá-lo atentamente. Ele parecia não haver tomado banho naqueles últimos dias, sequer fizera a barba, e, naquela manhã, nem penteara o cabelo. A sua aparência desleixada sempre a incomodara.
Porém, naquele momento, ela queria apenas lembrá-lo de que poderia lhe substituir a mãe. E tentara fazê-lo com um olhar, porque não teria coragem de tentar com palavras. Embora este fosse o repentino e inexplicável desejo que lhe acometia.
“Édi...? Você não vem?”. – disse ela.
Como se voltasse à realidade, Édi pousou o olhar sobre a irmã.
Marcos, o marido de Lúcia, aproximava-se.
Édi respondeu indiferente:
“Por que deveria?”.
Respostas assim deixavam-na desconcertada. Nunca soubera como agir em tais circunstâncias.
Cônscio da situação desagradável, porém, comum naquela família, Marcos tratou de tirar a esposa dali de perto. E, embora contrariada, Lúcia acompanhou o marido.
Deixavam o cemitério, caminhando em direção ao carro, quando Lúcia olhou para trás e encontrou novamente o irmão, ainda no mesmo lugar e do mesmo modo. E algo que não era comum experimentou um sentimento de afeição por ele. Algo que, durante o trajeto para casa, quis acreditar fosse apenas piedade. (...)

3 comentários:

  1. (...) continua amanhã? Tem um ótimo começo e já desperta a curiosidade. Aguardemos! Abraços, poeta!

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  2. Concordo plenamente com Cilas. Muito bom e desperta grande curiosidade. Também fico no aguardo !
    Abraços

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  3. Também ficarei no aguardo, o começo já me deixou bastante curiosa sobre o que está por vir.
    Abraços.

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