sexta-feira, 11 de novembro de 2011

NEYMAR, A JÓIA RARA, EM TERRA ARRASADA

Neymar renova com o Santos até 2014, ou até a próxima oferta tentadora. Bom para o futebol brasileiro? Sim. Ótimo. Contudo, o tema permite uma reflexão mais profunda às quantas andam o nosso principal cartão de visitas para o mundo.
A mídia exibiu esta semana com certa dose de espanto a decisão do técnico Emerson Leão, do São Paulo F.C em colocar os seus jogadores para treinar fundamentos do futebol.
Entre beicinhos e alguma contida irritação lá foram eles cumprir as ordens do chefe, afinal, são profissionais.
Mas é de se perguntar o porquê do espanto. Porque o próprio São Paulo teve boa parte de suas maiores glórias saídas das mãos e da persistência de um técnico obstinado em aprimorar os fundamentos técnicos de seus atletas. Seu nome Telê Santana. Não por acaso, o time de Telê era bem resolvido em campo, rápido, finalizador, porque tinha na troca de passes em direção ao gol uma de suas maiores virtudes. A outra era o deslocamento ou rodízio que os jogadores, principalmente de meio-campo e ataque desempenhavam durante a partida, o que dificultava e muito a marcação do adversário. Telê era um gênio, visionário? Sim. Porque era altamente competente e perfeccionista naquilo que fazia. E não, porque essa maneira de trabalhar não era naquele tempo uma novidade, mas, prática comum nos times de futebol brasileiros.
Mas aí o futebol, na segunda metade da última década, e mais incisivamente nesta foi descoberto pelos gênios do marketing, e, hoje, como sugere treinadores de respeito feito Muricy Ramalho, faltaria tempo e vontade para os jogadores se dedicarem aos treinos como ele próprio, Muricy, discípulo de Telê, gostaria.
Para treinar, pouco tempo dispõe o atleta que é craque, diferenciado. Para tirar fotos, gravar participações em programas de cultura inútil, dar entrevistas coletivas onde as perguntas e respostas, em geral, são sempre as mesmas, dispõe de todo tempo do mundo.
Retomando ao tema treinadores. Ou técnicos.
Atualmente, dá-se importância em demasia àquilo que eles menos tem de importante que é justamente o aspecto tático do futebol.
Percebe-se, sem dificuldade, porque o futebol acha-se 24 horas por dia nas tevês com sinal fechado e outras tantas com sinal aberto, jogadores, em sua maioria, que não dominam os fundamentos do jogo. Ou seja: passe, chute, domínio e condução de bola e cabeceio.
Portanto, conclui-se que há atletas, porque, afinal, eles cumprem à risca (quando pagos religiosamente e devidamente incentivado$) múltiplas funções táticas e correm mais que notícia ruim. Porém, vê-se com igual facilidade que faltam jogadores. Ou seja, aqueles que encantam ou ao menos entretém o torcedor.
Isso decorre do fato que o trabalho nas categorias de base, no Brasil, é  feito de maneira equivocada, tolhendo o talento de futuros craques. Privilegia-se tamanho, força física e “indicação de quem”, em detrimento da habilidade nata. Exceto, até onde se sabe, no Santos F.C,  da jóia rara Neymar, onde esse trabalho, primordial para o sucesso de qualquer clube é feito por “gente do ramo” que dispensa comentários, profundos conhecedores do futebol, porque, inclusive jogaram e encantaram o torcedor.
Treinadores da base e dirigentes de certos clubes, senão quase todos, no Brasil, ganhariam compensações financeiras, jamais admitidas e difíceis quase impossíveis de serem provadas, por parte de empresários e ou pais de atletas aspirantes a profissionais para que seus pupilos tenham lugar garantido no time.
O resultado é o sofrível nível técnico das competições atualmente disputadas, nos campeonatos estaduais e no brasileiro.
Seria a decadência técnica do futebol cinco vezes campeão do mundo, e que já foi sim uma maravilha, hoje, nem é arremedo de tal.
Não fossemos país sede, e se dependesse exclusivamente de futebol (sabemos que não depende, porque o interesse econômico fala mais alto) e dificilmente nos classificaríamos para a próxima Copa do Mundo em face a ridícula e deprimente seleção brasileira atual.
A mídia esportiva omite tais informações, porque ela tem juízo e jamais depreciaria o produto mais rentável que vende. E nós, tolos, continuamos acreditando em coisas como: o técnico ganha jogo, esquema tático determina a supremacia de uma equipe sobre outra, treinador estrategista conquista títulos (os generais militares riem de orelha a orelha quando ouvem isso).
Enfim, continuamos acreditando que temos o melhor futebol do mundo. Acreditando que Neymar pode ser Pelé, acreditando em Papai Noel. A época é mesmo propícia.
Geraldo J. Costa Jr é escritor ficcionista, ex-colunista de esportes do Jornal Regional, ex-treinador de categorias de base, campeão sub-17 da Liga Municipal de Rio Claro, com o Juventude F.C, em 2001, entre outros, e metido a poeta  nas horas vagas.

Um comentário:

  1. Então, mais uma faceta. Comentarista de futebol, campeão e treinador. O que mais? Uma correta crônica do meu Santos Futebol Clube, que depois de várias ingerências de "gente da mídia" só querendo aparecer, resolveu, com o presidente atual, ser profissional. E isso vai se refletir, com certeza, na volta do futebol para fazer gol que é o objetivo máximo no jogo. Fora os que jogam para as laterais e devolvem as bolas para o goleiro. Ele é goleiro, não matador e fazedor de gols, como o menino Neymar. Viu como está melhor, depois de cursos de como tratar bem os "amadores" torcedores, mídia em geral e a população. O salário faz parte de quem é o que é. Talentoso. E isso já vem com a marca, registrada em algum lugar do espaço sideral. Viva o futebol. Viva o autor da crônica e profissional das letras. E é assim mesmo que deve ser, passar a régua e mostrar os metros que pode conter de sabedoria e decisão. Abraços!

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