segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

SÓCRATES BRASILEIRO, GÊNIO E LOUCO.

A pergunta é natural quando envolve seres humanos que se destacaram em sua área de atuação de modo a granjear o reconhecimento, o respeito e a admiração das pessoas.
A genialidade justificaria os equívocos da natureza humana? Os enganos a que se expõe o indíviduo ao sofrimento voluntário e, por vezes, ao ridículo?
A morte do ex-jogador de futebol, o doutor Sócrates sugere e estimula esta reflexão.
Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira é o mais novo integrante do seleto rol de indivíduos que, embora geniais naquilo que faziam, sucumbiram às consequências de uma vida desregrada, que preconiza os prazeres e desvaloriza o corpo humano, este santuário sagrado do espírito que é o que somos e não o que temos.
Da lista fazem parte escritores, pintores, filósofos, cientistas, renomados advogados, médicos, professores, esportistas, sem contar a infinidade de ilustres anônimos.
O vício seja qual for a sua natureza é a batalha mais difícil que um ser humano pode enfrentar. Há desafios que basta a experiência própria, o discernimento que a razão proporciona para serem vencidos. O vício não. Ele é uma batalha de todo dia, senão de todo instante. É feito uma porta que apenas se encosta, porque não possui tranca e fechadura ou cadeado. Para abri-la, basta um vento, que, muitas vezes surge disfarçado de bom moço e dizendo-se amigo, demonstrando-se incapaz de nos cometer qualquer maldade. Ledo engano, que até vemos e sentimos sua presença e intenção, mas nos vemos incapazes de detê-lo ou rechaçá-lo.
O egoísmo é uma tendência natural do ser humano. Porque somos individualidades e o nosso primeiro instinto é o da sobrevivência. Algo que nem a razão sobrepõe.
O que diriam dos gênios? O que sentiriam por eles? Aqueles que, em algum momento da convivência com os quais tiveram, às vezes, durante longo período, foram vítimas do seu egoísmo, que, nestes casos, costuma acompanhar-se das excentricidades. Os filhos, maridos e esposas, pais e mães, ou pessoas que tiveram sobre os gênios uma posição de superioridade, como, por exemplo, os editores, os treinadores e os diretores,
Aos fãs, ao público em geral, é fácil redimir os gênios dos seus equívocos. Porque a relação entre eles costuma ser unilateral e prazerosa. Compra-se um livro, assisti-se a um jogo, a um filme, uma apresentação musical ou cênica e se se delicia com a arte de quem se admira. Mas não se tem ideia do ambiente, das circunstâncias, da atmosfera espiritual em que foi concebida a obra de arte, e que a antecedeu e nem aquela que a sucederá.
Talvez por ultrapassarem muitas vezes os parâmetros do comum, os gênios, sensíveis e visionários em demasia, extrapolam naturalmente a linha que demarca a razão da qual depende a sobrevivência.
Talvez, por já terem vivido muito, pois que outra justificativa sensata se encontraria para o seu exacerbado e espontâneo talento nato, as pessoas geniais naquilo que fazem, são adeptas do carpe diem, desprezam o amanhã, porque sabem instintivamente que ele virá do mesmo modo, embora, não se importem com suas conseqüências. É o que talvez motive muitos deles a preferirem viver 10 anos intensamente a 100 anos submetidos a uma normalidade que os incomoda ao extremo, e que os faz, quando dela não conseguem mais escapar face ás circunstâncias da vida e aos limites impostos pelo tempo, buscarem fuga dessa realidade nos prazeres que os vícios como o álcool e as drogas e o sexo promíscuo proporcionam.
Aos admiradores, ficam as boas lembranças, e o legado de uma obra que perdurará talvez para sempre. Aos gênios das obras de arte, que enveredam por tais caminhos, resta o inferno de uma consciência pesada e que os faz perceber que embora lindo, excitante e incomparável, nada valeu a pena.


*Artigo publicado nos sites: http://www.guiarioclaro.com.br/materia.htm?serial=151000710 e http://www.jornalrioclaro.com.br/5141/artigo-socrates-brasileiro-genio-e-louco/ e no Jornal Diário do Rio Claro, edição de 09/12/2011, à pág.2.

2 comentários:

  1. Com propriedade e palavras adequadas, até singelas, sem prantear a falta, mas sim o fato do Sócrates não ter a mesma sensibilidade para a vida, dele, com a do próximo, sendo um doutor. A da família, esquecida. A dos fãs, mantidos longe. A da personalidade, esquecida nos tragos exagerados. Assim se faz uma vida. A maior parte, talvez, provida por um senso ruim de incredulidade e de obrigações, até em viver. E isso cansa, como bem diz suas palavras, quando se é gênio e esse tempo de genialidade, como tudo o mais, passa e o deixa em profunda prostração. E se vai, assim, doente. No espírito primeiro, que corroe e depois se manifesta no corpo. Esperamos que volte aos bons tempos, no espaço, dando guarida a volta da alma límpida e longe do desamor, que o levou, cedo demais. Parabéns mais uma vez. Abraços, poeta!

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  2. Adorei este texto sobre Sócrates! Uma importante reflexão sobre a vida vivida ao extremo! Meu pai me ligou e leu o artigo pelo telefone! Muito bom!

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