sexta-feira, 16 de março de 2012

CASTELOS DE AREIA

Saudade daquele lugar estava certo de que não sentiria. Nunca havia reparado que aqueles móveis, embora velhos e deteriorados, tinham certa elegância, nada comparável à de Amanda. Contudo, aquele apartamento, no qual entrara para passar uma noite – e onde vivia há quase dois anos – sempre repleto de flores, bebidas e de gente interessante, nada ficava devendo para os outros que freqüentara durante muito tempo, aos finais de semana, após as 23 horas.
Naquele sábado, ele amanhecera sentado na poltrona, olhando para a janela. Observou discretamente e sem muito interesse, quando Amanda acordou e foi até a cozinha tomar um copo d’água. Nos seus melhores dias, Amanda teria parado à porta do quarto e olhado para ele, demoradamente, e o convidado a entrar. E ele teria entrado. Porém, naquela manhã, ele sequer teve vontade de sair para comprar jornais e tomar café na padaria, como de hábito. Não que lhe faltasse dinheiro. Ainda lhe restava uns trocados na carteira. É que não tivera mesmo vontade. De repente, havia percebido que ler os jornais, aos sábados, não era tão importante assim. Na verdade, era uma insignificante preocupação se comparada às demais, que, haveria de enfrentar dali por diante.
Ainda na poltrona, estava o romance que passara a noite tentando ler. Muitas vezes, lendo, sentira-se humilhado, considerara insanidade suas pretensões.
Em outras ocasiões, porém, sentia-se revoltado, quando lia uma publicação que julgasse um lixo se comparado aos seus originais, que ele, indefinidamente corrigia.
Amanda havia terminado o banho. E como sempre, saíra enrolada numa toalha branca, pés descalços, molhando o chão, deixando no ar um perfume agradável.
Sentada na banqueta da cômoda, ela se admirava, diante do espelho, sem saber, se deveria sentir orgulho ou raiva de si mesma. Sempre desejara contemplar aquela imagem, a sua própria imagem, a imagem que sempre fora a de sua alma: a de uma mulher bela e sedutora. Tão diferente daquela criança magérrima, tímida e doente, que lhe acompanhara as lembranças até conhecer aquele rapaz, agora sentado na poltrona da sala, fumando cigarro, enquanto novamente tentava ler um romance que ela lhe dera de presente.
Com uma ponta de remorso e algum sentimento de culpa que hesitava em admitir, Amanda se lembrava que fora ele que a fizera acreditar o quanto bonita poderia ser.
Hábil, ele espantara de vez por todas, para bem longe dela, o espectro da criança tímida, feia, magérrima e doente que tanto a atormentava.
Ele. Nenhum outro. Agora um homem adulto e, portanto, sem esperança. E que sentado na poltrona da sala, mantinha ao acaso a mesma pose de sempre, pernas cruzadas, olhar de encontro ao nada, se perdendo em possíveis lembranças que, certas ocasiões, lhe provocavam lágrimas que ele, sem falsa modéstia e rara habilidade sabia esconder do olhar de todos, dela principalmente.
Mas, afinal, quem era aquele homem? Quantas vezes ela não se perguntara! Era anjo? Demônio? Quem? Surgira de repente como o vento de outono, mostrara-lhe o caminho, ensinara-lhe a ser feliz. Fizera tudo isto por ela. Sem pedir e sem esperar nada em troca.
Finalmente, naquela manhã, ele saiu para caminhar. Embora caísse uma garoa gelada. Quando voltou, tinha o rosto e os cabelos molhados, também os sapatos e as roupas. Mas nada disso parecia incomodá-lo, tão grande era a tranqüilidade que aquelas caminhadas matinais lhe proporcionavam.
Amanda estava na sacada do apartamento, e percebeu quando ele chegou, mas não fez menção de ir recebê-lo, sequer cumprimentá-lo.
Ele apanhou o romance que continuava na poltrona onde o deixara. Fora presente dela. A roupa que vestia e os calçados; a máquina de escrever, sobre a mesa de trabalho, no seu quarto, também.
Percebeu então onde estava a diferença entre eles. Decisiva, fundamental diferença. Amanda era a mulher destemida, disposta a lutar até o fim por objetivos e aspirações que acalentasse. Era, enfim, a mulher que ele havia construído. Quanto a si mesmo, ora, nada mais era do que um sonhador. Anjo para os outros, demônio para si mesmo. Nada mais.
Compreendeu, portanto, enquanto caminhava pelas ruas do bairro, que estava perdendo Amanda. Não porque não conseguia expressar com palavras e atitudes convincentes os seus melhores sentimentos por ela. Mas porque não poderia amar outra pessoa, enquanto não conseguisse amar a si próprio. Por essa razão e nenhuma outra, estava condenado a perder sempre. E aceitara essa realidade, com a mesma resignação do cervo desgarrado diante da mira do caçador.
Envolvido por essas divagações, não percebeu quando Amanda deixou a sacada do apartamento e se dirigiu para a sala, onde ele continuava, mexendo agora no vaso de flores, que ela havia arranjado no dia anterior.
“Estão murchas” – disse ela, referindo-se às flores. 
Ele se voltou, e disse:
“Então, hoje, sou uma flor”.
“Não, querido – ela respondeu – Você não sabe o que é ser uma flor”.
Ele fechou os olhos, e franziu a testa, como se hesitasse aceitar o que ela dissera.
“O que está acontecendo entre nós, afinal?”.
“O que deixou de acontecer, querido? Está é a pergunta”.
Amanda passeou com os olhos o ambiente da sala, até se fixar na janela de dois corpos que permanecia aberta.
“As flores estão murchas – disse – Eis que chega o vento, para desfazê-las em pétalas que haverá de levar consigo”.
“E o sol está morrendo no horizonte” – disse ele.
“Sim. Mas eu lhe peço querido, não me faça chorar pelas flores”.
Ele percorreu os olhos em torno de si.
“E tudo isso? Este lugar? O ambiente em que vivemos? O nosso mundo?”.
De repente, a atmosfera daquele apartamento passara a lhe representar alguma coisa.
Amanda respondeu:
“Deixo este lugar, tal como o encontrei. O que significa que alguém esteve aqui antes de mim. Portanto, não se preocupe, outro virá. Afinal, tronos existem para serem ocupados”.
“E reinos existem para ser destruídos”.
Ela fixou o olhar nele, demoradamente.
“Ou seja, esta é uma maneira delicada de se dizer adeus”.
Só então ele percebeu as malas que estavam próximas à porta, provavelmente deixadas por ela, enquanto ele estivera fora para caminhar.
Ouviu-se a campainha. Amanda hesitou por um momento. Mas logo se lembrou de que o vento já havia levado as pétalas consigo.
“Senhora... Podemos ir?” – disse o motorista.
Não houve um olhar de despedida. Ela não quis. E ele não pôde. Não olhara para ela um instante sequer enquanto conversaram. Percebera apenas que ela vestia um tailleur cinza e que havia prendido os cabelos, o que não era costume.
Meia hora depois, ele também deixou aquele apartamento, levando consigo apenas as roupas do corpo, a máquina de escrever, e os originais do livro que estava tentando escrever. Tinha 29 anos. Téo era o seu nome.
Passara aqueles primeiros dias numa pensão, até mudar-se em definitivo para uma cidadezinha do litoral norte do estado, muito visitada pelos turistas.
Tornara-se comum às primeiras luzes do dia surpreendê-lo caminhando pela praia. Com o passar do tempo, habituara-se a reservar as tardes para dormir. Trabalhava de manhã, das oito até as dez, para satisfazer o próprio ego, escrevendo e reescrevendo dezenas de contos e alguns romancezinhos jamais publicados. E das dez ao meio-dia, dedicava-se em ganhar a vida, ora como correspondente de um jornal da capital, ora como colaborador do periódico da cidade.
Todo final de tarde, acompanhava o pôr do sol. Hábito que adquirira na adolescência, influenciado pela irmã, da qual, há muitos anos não tinha notícia.
Ao cair da noite, ele se refugiava no quarto, à luz de um abajur, e, sentado numa confortável cadeira giratória, atrás da mesa de trabalho, apanhava de dentro de uma das gavetas, o livro que estava tentando escrever. Mais do que enfrentar uma batalha perdida era o momento de se entregar às lembranças de Amanda, que aquela fotografia guardada há quase três décadas, dentro daquele livro, lhe proporcionava.
Tinha por hábito colocar os pés sobre a mesa, afundando-se na confortável cadeira giratória. E enquanto corrigia os escritos, entre um gole e outro de rum e uma tragada de charuto, ele ouvia o marulho das ondas, ao longe.
Se enquanto criança, sempre temera a noite, esta, agora, havia se lhe tornado a melhor amiga. A única companhia.
Numa certa manhã ensolarada, Téo pescava na praia. Já havia perdido dois molinetes, várias iscas, e como de costume, a pescaria se revelara até então num redundante fracasso. Porém, estava disposto a continuar enquanto tivesse iscas e conseguisse consertar os molinetes. Pescar nunca fora o seu forte.
Mas, com o passar dos anos, de tanto ver aqueles barcos pesqueiros em alto-mar, próximos à linha do horizonte, alguns rumando para o porto de Santos, acabara por ceder à vontade que já o acompanhava havia muito tempo.
Ao longe, uma família de turistas brincava de bola. Não demorou muito para que alguém chutasse a bola para perto dele. O mais novo dos meninos veio correndo buscá-la. Apanhou a bola, colocou-a debaixo do braço, mas quando viu Téo entretido com a pescaria, ficou a observá-lo atentamente.
“Gosta de jogar futebol?” – indagou Téo, tentando se mostrar agradável.
“Sim – disse o menino – Muito. E você? Gosta de pescar?”.
“Até duas horas atrás eu imaginava que sim... – olhou para o menino, deixando-se dominar pelo sentimento de frustração por jamais haver tido um filho – Mas você parece que ainda não aprendeu a jogar bem futebol”.
“E você, tão pouco, pescar”.
“Que tal fizéssemos uma troca? – sugeriu Téo, recolhendo a linha da carretilha – Você viria pescar, e eu, iria jogar futebol com seus familiares. O que me diz? Talvez nos saíssemos melhor”.
“Minha mãe não deixaria – respondeu o menino – Ela costuma ter maiores cuidados comigo porque sou o filho caçula. E adotivo”.
Téo olhou na direção da praia, onde a família do garoto esperava que ele retornasse com a bola que viera apanhar.
“Por falar nisso, ela vem vindo aí” – observou Téo.
“Mamãe”! – disse o menino, feliz e surpreso com a presença da mãe.
Ao tomar a mão do menino, a mulher olhou na direção de Téo, como que fazendo menção de cumprimentá-lo. Mas enquanto o menino puxava a mãe pelo braço, os olhos de Téo permaneceram fixos na mulher, que, ao acaso, lhe correspondera ao olhar compenetrado.
Enquanto mãe e filho se distanciavam, Téo não percebeu que havia fisgado um peixe, e acabou por perdê-lo.
Permaneceu todo o resto do dia na praia, e, enquanto pôde, observou à distância aquela família. Viu o carinho que havia entre o casal, já de meia idade e os filhos, os dois maiores, e o menor, com o qual havia conversado.
Viu o modo apaixonado como o marido beijara a mulher. E o momento em que, dentro do mar reluzente, ela pendeu a cabeça para trás, e estirou os braços, deixando que os mesmos caíssem débeis ao lado do corpo, permanecendo assim algum tempo, até abraçá-lo novamente, com força, ímpeto, paixão, e beijá-lo.
Enquanto isso, os filhos mais velhos, tratavam de entreter o mais novo, fazendo castelos na areia, que as ondas, ao cair da noite viriam destruir.
Téo esperou até que isso acontecesse, então voltou para casa.
Deitou-se na cama, com a roupa do corpo. E, à luz de um abajur, adormeceu cerca de meia hora, com a foto de Amanda de encontro ao peito. Ao despertar, para ir ao banheiro, lembrou-se com certa impaciência que ainda era noite. Lembrou-se também do modo como aquela mulher abraçara o marido, dentro do mar. E finalmente, lembrou-se que houve um tempo em sua vida que alguém costumava fazer o mesmo consigo nas manhãs de janeiro, numa praia como aquela.

2 comentários:

  1. Nada como fluir o pensamento, a vida e o sentimento. Vou continuar provocando. Parabéns, poeta! Abraços!

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  2. Parabéns ! Lindo texto com muito sentimento.
    Abraço

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