quinta-feira, 15 de março de 2012

DIA DE VERSOS

De fato, devo admitir que sou mesmo péssimo para memorizar datas, lugares e feições. Passou batido, mas tá valendo. Ontem foi comemorado o Dia da Poesia. Escrevi anos atrás essa crônica que ora publico aqui na Passa a Régua. Foi publicado no Jornal Cidade de Rio Claro, no tempo em que aquele matutino ainda tinha olhos para o meu trabalho literário e publicava algo do que eu escrevia. Sem mágoas ou ressentimentos. Pensemos no que dissera Gandhi. Segue a crônica DIA DE VERSOS:


A poesia cabe em qualquer época e em qualquer lugar. Ela é necessário muito mais do que imaginamos. Os anjos são poetas que bafejam aos ouvidos dos homens de gênio as revelações que tornam a vida melhor.
O primeiro poeta foi sem dúvida o Criador. Vê-se a natureza e logo se entenderá por que.
A poesia é fruto da quintessência do sentimento. Para fazê-la é necessário silêncio e solidão. Mas Rimbaud, certamente não concordava com isso. Preferia a balbúrdia das tavernas e a companhia de Verlaine.
Inspiração, a pedra de toque da poesia. Esta era a verdade insofismável até que os concretistas trataram de desmenti-la.
Poesia requer estilo refinado, gramática apurada, roupagem bonita, ora bolas, um sujeito chamado Mano Brown mostra que pra falar ao coração e sacudir a mente bastam palavras, palavras que dizem; palavras que não se perdem, palavras verdadeiras, que fazem doer na consciência, mas que acalentam espíritos revoltados.
Coisa de gente culta, gente fresca, que não tem o que fazer e não aceita a realidade. Para muitos jovens brasileiros, isto era poesia, até que em meados dos anos 80, surgiu um discípulo de Rousseau de nome Renato, cantando versos que diziam: "Quem me dera ao menos uma vez/ que o mais simples fosse visto/ como o mais importante/ mas nos deram espelhos/ e vimos um mundo doente".
Românticos e sonhadores, realistas ao extremo. Sintonizados com o céu ou o inferno: Poetas.
Difícil para um prosador escrever sobre versos e sobre quem os faz. Romancistas, novelistas e contistas são como as tias velhas do velório, dispostas a desenterrar lembranças, fomentar sentimentos e desentendimentos, fazer suposições e deduzir sem ter provas. Poetas são os pássaros que cantam ao por do sol, enquanto o cortejo atravessa o cemitério. Prosadores, os engenheiros. Poetas, os arquitetos.
Síntese: "Última lição do mármore: não restará nem memória daquilo que o tempo grava". Nauro Machado, poeta maranhense.
Parnasianos, arcadistas, barrocos, românticos, realistas, concretistas, inspirados ou pensadores, eles atravessam os tempos. Vêm ao mundo na pele de Camões, Castro Alves, Olavo Bilac, Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Antero de Quental, Augusto dos Anjos, Cecília Meirelles, Cora Coralina, Florbela Espanca, Ezra Pound, Pablo Neruda, Garcia Lorca, Lorde Byron, Ledo Ivo, Carlos Drumonnd de Andrade, Haroldo de Campos, Ferreira Gullar e muitos e muitos outros. Por suas mãos, são concebidas as asas que permitem ao ser humano alçar vôo e alcançar o campo metafísico da existência. É onde o homem se depara com a verdade de si mesmo, é onde ele aprende a amar ou odiar a si mesmo. Faça-se a luz, disse o Criador, e os deuses inventaram a poesia, e a deram de presente aos homens, quando estiveram entre eles.
Versos em rimas, versos livres, alexandrinos; quartetos, sextetos, sonetos, idéias concebidas, sentimentos revelados.
Façamos um verso, cada um de nós, todos os dias. Sejamos poetas. E o mundo será melhor, talvez. Mais bonito? Certamente.

Um comentário:

  1. Certamente, o mundo seria bem mais bonito. Poesia é a canção da alma e somente os sensíveis podem alcançá-la.

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